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O mercado da Índia consegue sobreviver a uma proibição total dos jogos com dinheiro real?

Rami Gabriel
Escrito por Rami Gabriel
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

No primeiro dia da conferência no Lumina Ballroom, no City of Dreams, especialistas do setor se reuniram durante a SiGMA Sul da Ásia 2025 para destrinchar a ampla proibição dos jogos com dinheiro real na Índia. O painel, realizado no palco principal, discutiu o que os operadores ainda podem oferecer legalmente após a implementação do Promotion and Regulation of Online Gaming Act — e como o mercado pode se reconfigurar nos próximos meses.

A sessão foi moderada por Oliver De Bono, fundador da Quantum Gaming, que traz mais de 18 anos de experiência no iGaming. Participaram ainda Jay Sayta, advogado especializado em tecnologia e jogos, baseado em Mumbai — com mais de uma década representando empresas do setor e atualmente contestando a nova legislação na Suprema Corte — e Pranati Pandit, advogada no MMB Legal, em Bangalore, cuja atuação abrange esports, mídia, entretenimento e direito esportivo.

Do gabinete à publicação oficial em 72 horas

A tramitação da lei avançou de forma inédita dentro do sistema parlamentar indiano. Sayta detalhou que, entre 19 e 22 de agosto, o projeto passou pelo gabinete, pela Lok Sabha, pela Rajya Sabha e recebeu sanção presidencial. “Em 72 a 96 horas, o projeto foi aprovado pelo Gabinete, pela Lok Sabha, pela Rajya Sabha e recebeu a assinatura presidencial”, destacou. No entanto, a Seção 13 determina que a lei só entra em vigor na data definida pelo governo por meio de notificação oficial — e quase quatro meses depois, essa data ainda não foi anunciada.

A nova lei divide os jogos online em três categorias. Os Jogos Online com Dinheiro Real passam a ser totalmente proibidos, e plataformas de pagamento, anunciantes, apoiadores e operadores poderão responder criminalmente, com penas que podem chegar a três anos de prisão após a entrada em vigor da medida. Já os Jogos Sociais Online continuam permitidos sob modelos de assinatura e compras dentro do aplicativo, com a criação prevista de uma Autoridade Indiana de Jogos Online para supervisionar sua aplicação. Os esportes eletrônicos, por sua vez, são autorizados sob seis condições, incluindo a participação em eventos multiesportivos, como os Jogos Olímpicos.

Mercado ilegal e perda de receitas

Oliver De Bono (esquerda), Pranati Pandit (centro) e Jay Sayta (direita).

De Bono alertou para os efeitos colaterais da proibição, observando que a procura por cassinos e apostas esportivas aumentou até três vezes desde o anúncio. “Proibições completas sempre abrem espaço para um mercado ilegal”, afirmou. “Ambientes regulados protegem o jogador; quando ele migra para fora desse ecossistema, não há salvaguardas.”

Pandit reforçou as preocupações relacionadas à segurança de dados e à proteção do consumidor: “Quando você vai para o mercado ilegal, os sistemas deixam de funcionar. As pessoas que tentamos proteger ficam vulneráveis a lavagem de dinheiro, fraude financeira e vazamento de dados — um dos maiores problemas na Índia hoje.”

O impacto financeiro vai muito além das operadoras. Sayta prevê que os efeitos ficarão mais evidentes na próxima temporada de críquete, especialmente para a Indian Premier League (IPL). “A própria IPL deve perder centenas de milhões de dólares em receitas publicitárias”, afirmou, acrescentando que o impacto será ainda mais severo para o esporte de base. O ministro responsável reconheceu no Parlamento que haveria perda de arrecadação e redução de empregos — e Sayta estima que centenas de milhares de postos de trabalho já foram afetados nos setores de publicidade, tecnologia e afiliados.

Desafios constitucionais e comparações regionais

A rapidez da aprovação indica que dificilmente haverá recuo. “Eles gastaram enorme capital político para aprovar esse projeto com essa velocidade, priorizando-o acima de outras pautas”, disse Sayta. Ainda assim, há contestação judicial: “Estamos desafiando essa lei na Suprema Corte porque acreditamos que ela é inconstitucional. Jogos e apostas são competências estaduais pela Constituição da Índia, o que significa que o Parlamento não tem competência para legislar sobre o tema.”

Sayta sugeriu que os reguladores indianos observem o modelo adotado no país vizinho, o Sri Lanka: “A Índia deveria olhar para o Sri Lanka e para o arcabouço que eles estão construindo. Eles entendem os riscos e propõem uma regulamentação equilibrada: licenciamento, criação de uma autoridade reguladora, tributação adequada e benefícios claros em receita, empregos e proteção ao jogador.”

Processadores de pagamento já interromperam transações para empresas de jogos com dinheiro real, mantendo apenas retiradas. Sobre depósitos em criptomoedas, Sayta observou que a fiscalização é mais complexa, mas que as autoridades acompanharão caso a caso, ainda que com capacidade técnica limitada.

Para acompanhar as discussões mais relevantes do setor, continue seguindo a agenda da SiGMA Sul da Ásia e a cobertura completa dos temas que estão moldando o futuro do iGaming na região.