Uma pesquisa divulgada recentemente por O Globo, em parceria com a Offerwise, trouxe novos dados sobre o comportamento dos apostadores brasileiros. O levantamento mostrou que 72% afirmam apostar “por diversão”, enquanto 38% dizem ver as plataformas de apostas como forma de complementar a renda mensal ou até como uma espécie de investimento.
Em um primeiro momento, os números podem parecer positivos, já que a maioria enxerga o jogo como entretenimento. Porém, a porcentagem dos que apostam acreditando em ganhos financeiros nos acende um alerta que não pode ser ignorado, e justamente por isso o governo brasileiro tem feito campanhas e regulamentações para acabar com a ideia de que o jogo é uma alternativa de renda.
O retrato do apostador brasileiro
O estudo mostra um Brasil dividido em relação às apostas. Para a maior parte dos entrevistados, apostar em esportes ou cassinos online é uma forma de lazer, assim como assistir um jogo de futebol com os amigos ou jogar videogame. Esse dado se alinha a pesquisas internacionais: levantamento da Statista indica que, em países como Reino Unido e Espanha, mais de 60% dos apostadores também classificam o hábito como entretenimento.
O problema está nos 38% que enxergam o jogo como fonte de renda extra ou investimento. Esse percentual é relevante, especialmente em um país onde, segundo dados do IBGE, cerca de 50% da população vive com até dois salários mínimos. Em um cenário de alta no custo de vida, inflação acumulada e endividamento recorde (mais de 30% das famílias estavam inadimplentes em 2024, segundo o Serasa), não é difícil entender por que parte da população vê nas bets uma “saída financeira”.
O risco da visão do jogo como investimento
O grande erro nessa percepção é considerar as apostas como comparáveis a aplicações financeiras. Investimentos tradicionais, como renda fixa, fundos imobiliários e até ações, envolvem riscos, mas são baseados em modelos de previsibilidade e retorno de longo prazo. Já as apostas são, por definição, eventos de resultado incerto e probabilidade negativa para o jogador, já que a casa sempre vai ter margem de lucro.
Essa visão distorcida das apostas pode criar uma “cultura de ilusão financeira”, onde jovens e adultos substituem planejamento econômico por tentativas de ganhos rápidos. E esse problema não é exclusivo do Brasil, em Portugal, a Entidade Reguladora do Jogo Online (SRIJ) já alertou para o crescimento do “jogo aspiracional”, quando a aposta é feita não pelo entretenimento, mas pela busca de complementar o salário.
De volta ao Brasil, segundo uma portaria do Ministério da Fazenda, as empresas de apostas estão proibidas de veicular anúncios que apresentem o jogo como forma de emprego, renda extra, solução financeira ou investimento. A medida segue recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que classifica o jogo como atividade de risco quando associado à promessa de lucro fácil.
Outras campanhas de conscientização também têm sido realizadas em parceria com o Ministério da Saúde e a Secretaria Nacional de Apostas e Loterias (Senalot), reforçando mensagens de “aposte com responsabilidade” e enfatizando o risco do vício. O próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já declarou que “o jogo não pode ser romantizado como investimento, pois isso leva ao endividamento e à vulnerabilidade social”.
Exemplos internacionais de combate à visão de aposta como renda
Em 2023, o Reino Unido implementou novas regras publicitárias que proíbem celebridades e influenciadores de sugerirem que apostar pode melhorar a vida financeira de alguém. A Gambling Commission, órgão regulador britânico, diz que a indústria não pode se aproveitar de pessoas financeiramente vulneráveis. Na Espanha, a Ley del Juego também limita campanhas que possam associar apostas a sucesso econômico. Desde 2021, as propagandas que prometem ganhos foram banidas em horários nobres e em transmissões esportivas. Esses exemplos ajudam a explicar por que o Brasil optou por limitar o setor com a regulamentação logo na fase inicial do mercado legalizado.
A realidade brasileira e as bets
Mesmo com as restrições, a cultura popular ainda trata apostas como uma “chance de melhorar de vida”. Celebridades, jogadores de futebol e influenciadores já foram alvo de críticas por estimular essa visão, principalmente entre os jovens. Uma pesquisa do Datafolha, publicada em 2024, mostrou que 42% dos jovens de 18 a 24 anos já fizeram apostas esportivas online, e uma grande parcela afirmou que o objetivo era “ganhar dinheiro fácil”.
Esse tipo de comportamento preocupa especialistas em saúde pública. O psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que quanto mais as apostas forem vistas como alternativa de renda, maior será o risco de compulsão. Segundo ele, a ilusão de ganho rápido costuma resultar em endividamento e até quadros de depressão.
Essa percepção, embora compreensível diante do cenário econômico, precisa ser combatida. Apostas não são investimento, e a crença contrária pode gerar graves consequências sociais. O entretenimento deve ser preservado, mas é fundamental que a sociedade entenda que nenhuma plataforma de apostas pode substituir educação financeira, trabalho estável ou investimento de longo prazo.



