O avanço das apostas online no Brasil trouxe novas oportunidades de entretenimento digital, mas também acendeu um alerta importante na área da saúde pública. Nos últimos anos, os especialistas têm observado um aumento significativo nos casos de pessoas que desenvolvem comportamentos compulsivos relacionados ao jogo. Diante disso, o Sistema Único de Saúde (SUS) lançou um novo serviço de teleatendimento gratuito voltado ao tratamento do vício em apostas online, ampliando o acesso à assistência em saúde mental no país.
A iniciativa, anunciada pelo Ministério da Saúde no início de março de 2026, busca oferecer apoio psicológico e orientação profissional para pessoas que enfrentam dificuldades com jogos e apostas, especialmente em plataformas digitais. O programa também atende familiares e pessoas próximas que desejam ajudar quem sofre com esse tipo de dependência.
Uma das principais motivações para a criação do serviço foi a constatação de que muitas pessoas com problemas relacionados a apostas evitam procurar ajuda presencialmente. O medo de julgamento, a vergonha e até a dificuldade em reconhecer o próprio vício costumam atrasar a busca por tratamento.
Para evitar essas barreiras, o novo serviço funciona totalmente online. O acesso ocorre por meio do aplicativo Meu SUS Digital, onde o usuário pode se cadastrar e iniciar o processo de avaliação. O cadastro pode ser realizado a qualquer hora do dia, em ambiente seguro e com proteção de dados conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Após o registro, o usuário responde a um autoteste baseado em evidências científicas, criado para identificar sinais de risco relacionados ao comportamento de jogo. Caso o resultado indique risco moderado ou alto, o próprio sistema encaminha automaticamente a pessoa para o teleatendimento com profissionais especializados. Nos casos em que o risco é considerado menor, o aplicativo orienta a procurar atendimento presencial na rede pública, como unidades básicas de saúde ou Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Como funcionam as consultas
As consultas são realizadas por vídeo e têm duração média de cerca de 45 minutos. O tratamento pode envolver um ciclo de até 13 sessões, que podem ser individuais ou incluir familiares e pessoas da rede de apoio do paciente. O atendimento é conduzido por uma equipe multiprofissional formada por psicólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais da área da saúde mental, com possibilidade de acompanhamento psiquiátrico quando necessário. Além disso, o serviço está integrado a outras áreas da assistência pública, como medicina de família e assistência social.
Outro diferencial é que o programa inclui telemonitoramento, permitindo que o paciente seja acompanhado ao longo do processo de tratamento. Caso a equipe identifique a necessidade de um acompanhamento mais intensivo, o usuário pode ser encaminhado para atendimento presencial dentro da rede pública de saúde.
Parceria e investimento no programa
O projeto foi desenvolvido em parceria com o Hospital Sírio-Libanês e conta com investimento de aproximadamente R$ 2,5 milhões, financiado pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS). Na fase inicial, a expectativa do Ministério da Saúde é realizar cerca de 600 atendimentos por mês, número que pode aumentar conforme a demanda. A iniciativa é destinada a pessoas com 18 anos ou mais, mas também permite a participação de familiares e pessoas próximas que desejam apoiar o processo de recuperação. Segundo dados do próprio ministério, em 2025 foram registrados 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos e apostas no SUS.
O teleatendimento não é uma ação isolada. Ele faz parte de uma estratégia mais ampla do governo federal para lidar com os impactos sociais e de saúde pública associados às apostas online.
Entre as medidas complementares do governo federal para lidar com os impactos sociais e de saúde pública associados às apostas online, está a Plataforma de Autoexclusão Centralizada, que permite que jogadores solicitem o bloqueio do próprio CPF para impedir o acesso a sites de apostas autorizados no país. A ferramenta também bloqueia o recebimento de publicidade dessas plataformas.
Outra iniciativa é o Observatório Saúde Brasil de Apostas, criado para integrar dados entre os ministérios da Saúde e da Fazenda e melhorar o monitoramento dos impactos do setor. Além disso, o governo publicou uma Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, documento que orienta profissionais de saúde sobre diagnóstico, tratamento e encaminhamento de casos dentro da rede pública.
O crescimento das apostas online no Brasil
Nos últimos anos, o mercado de apostas online cresceu rapidamente no Brasil, impulsionado pela popularização da internet e de aplicativos móveis. As chamadas “bets” permitem apostar em eventos esportivos, jogos de cassino e diversas outras modalidades digitais, movimentando bilhões de dólares no mundo inteiro.
No Brasil, a regulamentação desse setor ganhou força após a aprovação de leis específicas que estabeleceram regras para a operação das plataformas e para a fiscalização do mercado. Ao mesmo tempo, especialistas passaram a alertar para os riscos associados ao jogo compulsivo, especialmente entre pessoas mais jovens ou em situação de vulnerabilidade financeira.
Estudos internacionais apontam que a facilidade de acesso, a rapidez das apostas e os estímulos constantes, como bônus e notificações, podem aumentar o risco de desenvolvimento de comportamentos problemáticos.
Um novo desafio para a saúde pública
A criação do teleatendimento do SUS representa um passo importante no reconhecimento do vício em apostas como um problema de saúde mental que exige políticas públicas específicas. Assim como ocorre com outras dependências comportamentais, o tratamento envolve acompanhamento psicológico, apoio social e, em alguns casos, intervenção médica. A ampliação do acesso a esse tipo de assistência pode ajudar a reduzir os impactos sociais e financeiros do problema.
Com o crescimento do setor de apostas no país, especialistas acreditam que iniciativas de prevenção, educação e tratamento tendem a se tornar cada vez mais importantes nos próximos anos.
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