Shaun McCamley, fundador e sócio-diretor da Euro Pacific Asia Consulting, conversou com a SiGMA TV durante sua mais recente entrevista na SiGMA Ásia 2025, explicando por que o cenário de jogos no Sudeste Asiático está passando por mudanças aceleradas — e como os operadores podem acompanhar esse ritmo. Com mais de quarenta anos de experiência no setor de cassinos e jogos online, McCamley analisa as pressões comerciais enfrentadas por estabelecimentos físicos, o crescimento explosivo dos jogos eletrônicos e das plataformas sociais, além das dinâmicas regulatórias que impactam ambos os segmentos.
Falando com franqueza, McCamley observa que mercados como o das Filipinas estão em um ponto de inflexão: os lucros vindos dos tradicionais junkets VIP estão em queda, ao mesmo tempo em que públicos conectados, movidos pelo celular, passam a gastar com liberdade no ambiente online. Para continuar competitivos, afirma ele, os operadores precisam adotar estratégias digitais inovadoras, mantendo ao mesmo tempo rígidas medidas de jogo responsável — caso contrário, correm o risco de serem superados por concorrentes mais ágeis.
A nova realidade dos cassinos físicos
O ponto de partida da análise de McCamley é direto: os cassinos das Filipinas perderam uma parte significativa de sua receita VIP desde que as atividades de junket foram limitadas e o fluxo de turistas da China continental diminuiu, o que gerou “forte pressão” sobre as metas financeiras. A decisão do governo de banir operações irregulares dos POGOs (Operadores Filipinos de Jogos Offshore, ou Philippine Offshore Gaming Operators em inglês) eliminou mais uma fonte de tráfego nos estabelecimentos — mas, segundo ele, foi uma medida necessária para combater o tráfico de pessoas e a falta de conformidade.
Essa retração do setor físico contrasta com a expansão online: a PAGCOR divulgou no mês passado que, pela primeira vez, a receita gerada por e-gaming superou a dos cassinos tradicionais. Ainda assim, McCamley alerta que os executivos do setor físico não devem presumir que suas habilidades se traduzem automaticamente para o digital. “A operação e o planejamento estratégico de um negócio online são completamente diferentes”, pontua, acrescentando que muitos operadores de cassinos físicos estão “condenados ao fracasso” até repensarem sua estratégia digital desde o início.
Hoje, a consultoria liderada por ele se dedica a ajudar conselhos de administração a aprimorar esse planejamento, redirecionando capital para canais regulados online que complementem — e não concorram com — as operações físicas já existentes.
McCamley minimiza os impactos de turbulências geopolíticas como fatores de receita no curto prazo. Para ele, são os padrões de comportamento dos visitantes — e não tarifas ou sanções — que definem os resultados. O desafio imediato é simples: alcançar os jogadores onde eles já estão — no celular.
O papel dos jogos sociais
Na visão de McCamley, os jogos sociais representam o caminho mais direto para conquistar o público mobile. Ele os define como “o segmento que mais cresce no Sudeste Asiático”, impulsionado por uma população jovem, ampla penetração de smartphones e o apelo de compras acessíveis dentro dos aplicativos. Diferentemente dos sites com prêmios ou apostas em dinheiro real, as plataformas sociais puras não exigem licença de jogo nas Filipinas, o que reduz significativamente as barreiras de entrada.
O potencial financeiro desse modelo ainda surpreende muita gente. Segundo ele, os principais aplicativos chegam a gerar até US$ 600 milhões por mês, mesmo com menos de 0,1% dos usuários gratuitos migrando para apostas com dinheiro. McCamley cita a compra da Playtika pela Caesar’s por US$ 92 milhões e sua posterior venda por 4,1 bilhões como exemplo do valor de um ecossistema bem gerido. Os jogadores gastam centenas de euros por mês buscando entretenimento — não prêmios em dinheiro —, atraídos por missões, rankings e comunidades gamificadas.
Mas toda essa popularidade exige responsabilidade. McCamley defende firmemente medidas contra o vício e o acesso de menores, reconhecendo que o controle é “quase impossível”, mas ainda assim essencial. Ele colabora com uma fundação que apoia jogadores problemáticos e orienta que qualquer operador que deseje entrar no universo dos jogos sociais adote ferramentas de proteção desde o primeiro dia. Em mercados emergentes como Timor-Leste e Índia, segundo ele, a credibilidade das empresas dependerá tanto dessas práticas quanto das licenças e obrigações fiscais.

