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Autoridades francesas abrem investigação sobre manipulação de apostas ligadas ao clima

Jefferson Mendoza
Escrito por Jefferson Mendoza
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Autoridades francesas iniciaram uma investigação após um apostador lucrar US$ 34 mil em uma aposta baseada em clima, em meio a suspeitas de que o sensor de temperatura do Aeroporto Charles de Gaulle teria sido deliberadamente manipulado. Desde o início de abril, o aeroporto registrou picos abruptos de temperatura no período da noite, coincidindo com apostas de alto valor realizadas na Polymarket, uma das maiores plataformas de mercados preditivos do mundo.

Ruben Hallali, CEO da empresa de análise de risco climático Sereno, afirmou que seu sistema identificou anomalias em dois episódios. No primeiro, em 6 de abril, a temperatura saltou de 18°C para 21°C antes de voltar ao normal. Nove dias depois, os registros subiram de 16°C para 22°C em apenas 30 minutos, retornando posteriormente a 16°C. Em ambos os casos, os picos definiram a temperatura máxima diária — métrica central para esse tipo de aposta — o que reforçou as suspeitas de manipulação.

Denúncias formais e investigação

Segundo a Météo-France, foi apresentada uma denúncia à Brigada de Gendarmaria de Transporte Aéreo e ao Ministério Público de Bobigny, levantando preocupações sobre possível adulteração de sistemas automatizados de dados.

As autoridades agora investigam se as anomalias foram provocadas intencionalmente para influenciar os resultados dos mercados preditivos. Relatos indicam que apostas que somam cerca de US$ 1,4 milhão foram realizadas na Polymarketnos dias considerados suspeitos. Além disso, especulações circulam online — incluindo a hipótese de uso de um secador de cabelo para aquecer o sensor — embora nenhuma evidência tenha confirmado essa teoria.

Sensores meteorológicos em aeroportos são particularmente vulneráveis. Expostos a condições externas, dependem de uma única fonte de dados e alimentam diretamente tanto sistemas de segurança da aviação quanto mercados preditivos. Investigadores acreditam que ferramentas simples, como aquecedores portáteis, poderiam distorcer medições, evidenciando riscos estruturais tanto na meteorologia quanto nas finanças descentralizadas.

A Météo-France reconheceu as irregularidades, afirmando: “Diante de evidências físicas em um de nossos instrumentos e da análise dos dados do sensor, a instituição decidiu registrar uma queixa por alteração no funcionamento de um sistema automatizado de processamento de dados junto à Brigada de Gendarmaria de Transporte Aéreo de Roissy.”

Fragilidade do mercado e riscos mais amplos

O caso expõe a fragilidade de mercados preditivos que dependem de uma única fonte de dados. Mesmo que a manipulação tenha sido pontual, episódios desse tipo podem comprometer a confiança dos usuários e reduzir a participação. Analistas alertam ainda que contratos vinculados ao clima são frequentemente utilizados para proteção (hedge) em setores como energia e agricultura. Ou seja, distorções nos dados podem gerar efeitos em cadeia e impactar mercados mais amplos.

Reação regulatória

O episódio intensificou o escrutínio sobre a Polymarket e plataformas semelhantes. Reguladores europeus já determinaram a suspensão de operações de alguns desses serviços, citando preocupações legais e de proteção ao consumidor.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça de Wisconsin entrou recentemente com ações judiciais contra plataformas de mercados preditivos, incluindo Kalshi, Robinhood, Coinbase, Polymarket e Crypto.com, com o objetivo de impedir a oferta de contratos relacionados a eventos esportivos.

A controvérsia se soma a outros episódios recentes. Um soldado do Exército dos EUA, Gannon Ken Van Dyke, foi acusado por negociações ligadas à Polymarket com base em informações confidenciais. No início do mês, a plataforma também foi criticada por permitir apostas sobre o destino de pilotos americanos abatidos no Irã. Já em janeiro, surgiram suspeitas de uso de informação privilegiada em apostas relacionadas a possíveis ações militares dos EUA na Venezuela.

Além disso, essas plataformas continuam gerando divergências regulatórias. Nos Estados Unidos, a Commodity Futures Trading Commission mantém a posição de que possui autoridade federal sobre esses mercados, enquanto grande parte da Europa os classifica como jogos de azar sob o arcabouço regulatório MiCA. Essa divisão vem alimentando disputas judiciais, proibições e desafios de conformidade em escala global.

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