American Bitcoin: a nova criptomoeda da família Trump, entre volatilidade e ambição industrial
O ano de 2025 marcou o lançamento oficial da American Bitcoin (ABTC), empresa fundada por Eric Trump e Donald Trump Jr. A estreia na Nasdaq foi tudo, menos comum: já no primeiro dia de negociação, as ações foram suspensas cinco vezes por conta da alta volatilidade. Os papéis chegaram a disparar 85%, atingindo cerca de US$ 14, antes de recuarem para a faixa de US$ 9,80. No fechamento, ainda acumulavam valorização de 16% a 17%.
Esse sobe e desce deixou clara a natureza dual do projeto. Por um lado, demonstrou o apetite especulativo do mercado cripto; por outro, evidenciou a fragilidade de um ativo que mistura simbolismo político com ambição financeira. A “marca Trump” continua atraindo atenção global, mas a estreia turbulenta levantou dúvidas sobre a estabilidade do modelo de negócios.
As origens da American Bitcoin
A empresa foi formalmente constituída na primavera de 2025, mas suas raízes remontam a alguns meses antes. A ideia surgiu no fim de 2024, em uma reunião informal no Trump Golf Club, em Jupiter, na Flórida. Na ocasião, Eric Trump e executivos da gigante canadense de mineração Hut 8 discutiram a possibilidade de uma aliança estratégica no setor de mineração de bitcoin.
A partir dali, o conceito ganhou corpo e se transformou em um empreendimento estruturado: uma companhia criada para unir expertise industrial com capacidade financeira. Incorporada oficialmente em 1º de abril de 2025, a American Bitcoin nasceu com uma estrutura societária clara: a Hut 8 detém 80% do capital, enquanto os 20% restantes estão nas mãos da família Trump e de ex-parceiros da American Data Centres.
O papel de Eric Trump
Mais do que cofundador, Eric Trump ocupa posição estratégica central. A disparada das ações na estreia o transformou em bilionário da noite para o dia. Mas seu papel vai além do patrimônio: cabe a ele converter visibilidade e capital em oportunidades de investimento. Usando sua rede internacional e o peso do sobrenome Trump, Eric tem sido peça-chave para atrair investidores.
Um modelo de negócios industrial
Ao contrário de muitos projetos de criptomoedas que seguem apenas o ciclo de hype, o American Bitcoin é construído sobre uma estratégia industrial sólida, estruturada em três pilares integrados.
O primeiro é a própria mineração de bitcoin, realizada em instalações localizadas em regiões com energia a preços competitivos. A mineração é notoriamente intensiva em capital, exigindo recursos significativos para manter infraestrutura, segurança e eficiência. O segundo pilar é a construção de uma reserva estratégica de bitcoin. Essa abordagem dupla posiciona a empresa não apenas como produtora, mas também como guardiã do ativo digital, frequentemente chamado de “ouro digital”. Por fim, o terceiro pilar é a expansão: um plano para diversificação em setores mais amplos relacionados ao bitcoin, com o objetivo de estabelecer uma plataforma resiliente.
Do ponto de vista operacional, a empresa já possui uma capacidade energética superior a um gigawatt e controla uma vasta frota de máquinas ASIC, a espinha dorsal da mineração de criptomoedas. Essa base tecnológica confere à companhia uma vantagem competitiva sobre muitas empresas do setor com foco único.
Crescimento acelerado em números
Em apenas um trimestre de operação, a American Bitcoin já havia minerado 215 bitcoins. Segundo documento protocolado na SEC em setembro de 2025, a empresa detém atualmente 2.443 bitcoins, avaliados em cerca de US$ 269 milhões. Os números refletem uma trajetória de crescimento rápido, sustentada pela combinação de robustez industrial e visibilidade política.
O contexto também é favorável: em maio, o presidente dos EUA assinou uma ordem executiva incentivando a expansão da energia nuclear, medida que pode trazer benefícios diretos para data centers e, por consequência, para operações de mineração de criptomoedas.
Distância de memecoins e stablecoins políticas
O projeto se diferencia claramente da onda de memecoins e stablecoins de cunho político, muitas vezes lançadas como ações de marketing. Esses tokens, em geral efêmeros, dependem do hype e raramente contam com infraestrutura ou sustentabilidade econômica.
Já a American Bitcoin se apresenta como uma operação estruturada: plantas industriais, recursos energéticos, equipe especializada, logística e infraestrutura avançada. Embora continue exposta à volatilidade típica do mercado cripto, seu modelo se aproxima mais do de grandes corporações industriais do que de ativos puramente especulativos.
Política e negócios: uma intersecção inevitável
Apesar de Eric Trump classificar como “loucura” as acusações de conflito de interesse, o fator político é inescapável. A família já possui histórico no setor, com iniciativas que incluem uma memecoin, uma stablecoin e um investimento de US$ 2,5 bilhões em bitcoin para a Trump Media & Technology Group.
A American Bitcoin amplia esse legado, consolidando a presença dos Trump no ecossistema financeiro emergente. A mineração, frequentemente vista como o lado menos glamoroso do setor, ganha agora um peso simbólico e político, além do caráter industrial.
Um futuro entre ambição e incerteza
O destino da American Bitcoin depende de um equilíbrio delicado. De um lado, ostenta uma estrutura industrial robusta, um modelo de negócios integrado e apoio político significativo. De outro, precisa lidar com a volatilidade do mercado e com o risco de ser percebida mais como ferramenta política do que como empreendimento financeiro sólido.
É nesse terreno instável — entre ambição industrial e espetáculo político — que será decidido o futuro da American Bitcoin. A iniciativa pode consolidar a família Trump como player global de destaque no setor cripto ou se limitar a uma experiência simbólica, ecoando, ainda que em outra escala, os ciclos de ascensão e queda típicos das memecoins.
Este artigo foi publicado originalmente em italiano em 9 de setembro de 2025.
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