O mercado de jogos online nos Estados Unidos deixou de ser um nicho restrito para se consolidar como uma indústria de peso, movimentando mais de US$ 71,92 bilhões em 2024. Essa expansão foi impulsionada pela legalização das apostas online em um número crescente de estados e pela maior confiança dos jogadores em apostar via celular ou computador.
No entanto, esse crescimento não acontece de forma linear. Cada estado define suas próprias regras, criando um verdadeiro mosaico regulatório que as empresas precisam navegar com cautela. De acordo com a consultoria Grand View Research, o mercado deve saltar de US$ 12,68 bilhões (€ 11,66 bilhões) em 2024 para US$ 22,19 bilhões (€ 20,42 bilhões) até 2030, o que representa um crescimento anual composto (CAGR) de 9,8%. Já a Mordor Intelligence projeta números ainda mais ambiciosos: de US$ 5,97 bilhões (€ 5,49 bilhões) em 2025 para US$ 12,81 bilhões (€ 11,78 bilhões) em 2030, com alta anual de 16,5%.
Operadores ilegais abocanham a maior parte da receita
Hoje, a maior parte das apostas é feita por dispositivos móveis, e recursos como jogos com crupiês ao vivo estão ganhando popularidade rapidamente. Jogadores jovens e conectados buscam acesso rápido, simples e com experiências inovadoras. Com mais estados flexibilizando suas leis, o mercado de jogos online nos EUA não só cresce, mas também transforma a forma como as pessoas interagem com o entretenimento.
O problema é que boa parte desse dinheiro está indo para o mercado ilegal. Segundo levantamento da empresa de inteligência de mercado Yield Sec, em 2024, plataformas offshore não licenciadas responderam por impressionantes 74% da receita bruta total de jogos online (GGR) nos EUA, que somou US$ 90,1 bilhões (€ 82,9 bilhões). Ou seja, quase três quartos de todo o dinheiro gasto em jogos online fluem por canais irregulares. As plataformas legais ficaram com os 26% restantes, cerca de US$ 23 bilhões (€ 21,2 bilhões).

O setor regulado cresceu 26% em receita em relação ao ano anterior, mas os operadores ilegais avançaram em ritmo ainda mais acelerado: alta de 64%. Em entrevista exclusiva à SiGMA News, o CEO da Yield Sec, Ismail Vali, explicou que essas plataformas operam à margem para escapar das regras e dos impostos aplicados aos operadores licenciados:
“Se você atua sem licença em um território, não está apenas descumprindo regras — está roubando daquele mercado.”
~ Ismail Vali, CEO, Yield Sec
O tamanho desse mercado paralelo é gigantesco. O relatório identificou 917 plataformas ilegais contra apenas 95 licenciadas. Há ainda 668 afiliados promovendo operações offshore — seis vezes mais que os que trabalham com sites regulados. Essa rede garante aos operadores ilegais uma visibilidade muito maior.
E visibilidade é tudo. Em 2024, as plataformas legais conquistaram apenas 12% da exposição ao público, enquanto as ilegais exploraram agressivamente grandes eventos esportivos e canais de mídia para ampliar sua presença. Os operadores licenciados ainda enfrentam concorrência crescente dos sweepstakes casinos (cassinos de prêmios), que operam em uma zona cinzenta regulatória em alguns estados. Em locais como Montana e Connecticut, eles já foram banidos, e Nova York iniciou ações judiciais contra essas operações não reguladas.
Quando se analisa estado por estado, as diferenças são marcantes. Em lugares como Pensilvânia, Nova Jersey e Michigan — onde apostas esportivas e cassinos online são totalmente legalizados — as plataformas reguladas respondem por cerca de 57% a 58% da receita bruta de jogos. Já em estados como Califórnia, Texas e Ohio, onde a legislação sobre jogos online é limitada ou inexistente, os operadores ilegais dominam. Em Ohio, por exemplo, 85% da receita de jogos online vem de fontes ilegais, totalizando US$ 5,26 bilhões (€ 4,82 bilhões).

Ohio chama ainda mais atenção no cenário norte-americano. O estado registrou o maior GGR per capita de cassinos online, com US$ 316 (€ 289), e também liderou em perdas com apostas esportivas ilegais, chegando a US$ 130 (€ 119) por pessoa. Um ano após a legalização das apostas esportivas, estima-se que os moradores do estado tenham perdido 1,33% de sua renda média em jogos de azar — mais que o dobro da média nacional.
O relatório traz um dado curioso: legalizar o jogo, em geral, aumenta o volume total de perdas sem necessariamente reduzir a atividade ilegal. Estados sem jogo online legalizado apresentam um GGR per capita equivalente a 0,31% da renda; esse número sobe para 0,77% nos estados com apostas esportivas legalizadas e atinge 1,12% onde tanto as apostas esportivas quanto os cassinos online são permitidos. Trata-se de um aumento de 261% nas perdas per capita.
O panorama geral é claro: o mercado total de jogos online nos EUA em 2024 atingiu US$ 90,1 bilhões (€ 82,9 bilhões), mas US$ 67,1 bilhões (€ 61,7 bilhões) vieram de operadores ilegais. É um número alarmante. Mas como chegar a essa conclusão e afirmar que o mercado está em tamanho estado de alerta? Em entrevista à SiGMA News, o CEO da Yield Sec, Ismail Vali, explicou como foi feito o estudo, o motivo da exclusão dos sweepstakes e sua opinião sobre o Big Beautiful Bill, sancionado pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
SiGMA World: Gostaríamos de entender melhor o modelo e as conclusões da pesquisa. Qual é o nível de confiança nos números? Pode explicar brevemente como eles foram obtidos?
Ismail Vali, CEO, Yield Sec: Nosso sistema de monitoramento é, essencialmente, uma plataforma tecnológica. Adaptamos uma solução militar usada originalmente para contra-insurgência e combate ao terrorismo, e a redirecionamos para o setor de jogos em 2020. Ela é atualizada diariamente. Monitoramos todos os países e todos os mercados regulados. No caso dos EUA, analisamos o mercado estado por estado — por exemplo, Nova Jersey é regulado, enquanto a Califórnia não — e aplicamos a mesma metodologia para identificar sites legais e ilegais.
Acompanhamos oito áreas essenciais do ecossistema onde 99,7% do público passa seu tempo online: mecanismos de busca, streaming, redes sociais, websites, aplicativos, comunicação entre usuários, afiliados e publicidade. Utilizamos monitoramento anônimo de audiência, inteligência de sinais da cadeia de suprimentos, reconhecimento de vídeo e imagem, além de dados de terceiros (Google, Facebook, afiliados e buscadores) para entender onde o público está e onde as apostas são feitas.
Nossa metodologia já foi testada publicamente por três anos, inclusive durante o Super Bowl e o March Madness, e acertamos previsões tanto para a receita legal quanto para a ilegal. A receita do mercado regulado é verificável, pois os órgãos reguladores publicam relatórios, e mantemos a consistência no método para comparar os dois segmentos. Temos plena confiança nos números.
SiGMA World: Os sweepstakes (jogos de prêmios) estão incluídos neste relatório sobre os EUA? Se não, por quê?
Vali: Não. O relatório cobre apostas esportivas, cassinos (incluindo pôquer) e cripto. Porém, sweepstakes, daily fantasy sports, apostas sociais, sorteios e loterias ficaram de fora.
O motivo é que os sweepstakes têm um status jurídico complexo e variável de estado para estado — em alguns, são legais; em outros, ilegais; e muitos estão em disputa judicial. Por exemplo, Nova Jersey está avaliando banir os sweepstakes ainda este ano. Diante dessa inconsistência, optamos por não incluí-los no relatório. Isso dito, monitoramos sweepstakes quando um cliente solicita especificamente, já que nossa plataforma tem essa capacidade.
SiGMA World: E quanto ao Big Beautiful Bill, assinado pelo presidente Donald Trump, que limita a dedução de perdas com jogos? Essa medida pode empurrar mais americanos para o jogo ilegal?
Vali: A lei alterou o código tributário para que apostadores americanos possam deduzir apenas 90% de suas perdas com jogos, em vez de 100%. Por exemplo, um apostador profissional em um estado legalizado como Nova Jersey que perdeu US$ 1.000 (€ 920) e teve lucro de US$ 100 (€ 92) poderia antes deduzir todo o valor perdido; agora, só pode deduzir US$ 900 (€ 828).
Isso cria uma brecha que prejudica os apostadores no mercado legal, já que eles perdem parte do benefício fiscal. Isso pode levá-los a migrar para operadores ilegais, que não aplicam essa retenção.
O problema é sério: os EUA já têm um mercado ilegal enorme, e ele está crescendo. Em 2023, o lucro desse mercado foi de US$ 57,8 bilhões (€ 53,2 bilhões); em 2024, saltou para US$ 90,1 bilhões (€ 82,9 bilhões). A maior parte desse crescimento vem de produtos em cripto e mercados de previsão (prediction markets). Portanto, sim — a lei pode empurrar ainda mais consumidores para um mercado já muito maior que o regulado, sobretudo considerando que só existem 95 marcas licenciadas contra 917 ilegais.
O jogo ilegal nos EUA não está apenas crescendo — ele está disparando. E a legislação recente pode acelerar ainda mais essa explosão. Se as autoridades não apertarem o cerco e não revisarem urgentemente suas leis, bilhões de dólares continuarão escapando pelas brechas, fortalecendo o mercado clandestino. Não é apenas uma perda financeira: é um alerta de que, sem ação rápida e decisiva, todo o setor regulado pode acabar no lado perdedor.



