O jogo sempre foi um tema cercado de controvérsias e estigmas em várias partes da África. Na Nigéria, ele é frequentemente visto como uma prática irresponsável e prejudicial. Ladipo Adiose, fundador da GamblePause, destacou esse olhar crítico ao explicar como a sociedade costuma julgar com severidade as pessoas que enfrentam problemas de dependência em jogos de azar.
“Muita gente acredita que jogar é algo irresponsável e que os viciados em jogos são os piores de todos”, recorda Adiose. Sua observação reflete uma percepção enraizada há anos nas conversas sobre o tema. Em poucas palavras, ele resume o estigma enfrentado por quem luta contra o vício em jogos na Nigéria.
A missão da GamblePause
A GamblePause atua na promoção do jogo responsável e na prevenção da participação de menores de idade, além de funcionar como centro de reabilitação para jogadores com comportamento problemático. A iniciativa amplia os serviços digitais da organização para incluir suporte presencial, com o objetivo de fortalecer a sustentabilidade do setor de jogos.
“70% dos pacientes que tratamos hoje começaram a jogar ainda jovens. O cérebro passa a funcionar de forma diferente — você se acostuma com retornos rápidos”, explica Adiose. “Quando você começa a jogar nessa fase da vida, ativa uma parte do cérebro que libera dopamina em grande quantidade.”
Segundo Adiose, o contato precoce com o jogo molda o sistema de recompensa do cérebro, incentivando a busca por gratificação imediata em vez de desenvolvimento pessoal. Essa distorção torna o jogo entre menores de idade uma armadilha silenciosa, reforçando a necessidade de detecção precoce e conscientização.
Desafios globais e realidades locais
Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que pessoas que jogam de forma nociva são responsáveis por cerca de 60% das perdas totais da indústria, com prejuízos globais aos consumidores estimados em US$ 700 bilhões até 2028. Ainda assim, apenas 0,14% dos adultos buscam ajuda formal ou informal para lidar com o problema.
O estudo também relaciona o jogo patológico a transtornos mentais, risco de suicídio, violência doméstica, dificuldades financeiras, negligência infantil, criminalidade e lavagem de dinheiro. Os dados reforçam a urgência de políticas preventivas mais eficazes para apoiar as vítimas antes que a situação se agrave.
Redefinindo a visão da sociedade sobre o jogo
Adiose defende que é preciso mudar a forma como o público enxerga o jogo. “Nós ajudamos as pessoas a compreender o conceito de jogos — ou seja, o jogo como diversão e entretenimento”, explicou. “Quando você passa a enxergá-lo dessa maneira, entende que ele não é um modelo de negócio.”
Ele reforça que o jogo não deve ser encarado como fonte de renda, e sim como uma forma de entretenimento que exige disciplina e limites pessoais.
Religião e barreiras culturais
Adiose reconhece que a cultura e a religião têm forte influência na sociedade nigeriana, mas esses mesmos elementos acabam intensificando o estigma e isolando ainda mais os jogadores compulsivos.
“Há uma grande rejeição, principalmente no Islã, onde o jogo é proibido, e também entre grupos cristãos, que o veem como um pecado. Isso faz com que muitas pessoas tenham dificuldade de falar sobre o problema. Você não pode procurar um líder religioso porque teme ser julgado. Essa barreira tem sido um grande obstáculo”, observou.
Essas percepções morais e religiosas dificultam o debate aberto sobre o vício em jogos. Muitos evitam buscar ajuda por medo de críticas ou discriminação dentro de suas comunidades.

A estratégia da GamblePause para promover mudanças
Por esses motivos, a GamblePause aposta em plataformas digitais e ações de campo para tornar o apoio mais acessível e reduzir o estigma. A organização define esse trabalho como “uma mudança de mentalidade e uma reengenharia social”.
Adiose explicou como o vício se manifesta em comportamentos destrutivos: “Antes mesmo de começar a mentir, a pessoa começa a pedir dinheiro emprestado. Depois, surgem as desculpas — e as pessoas começam a questionar: ‘Por que você está pedindo dinheiro a cinco ou seis pessoas diferentes? O que está acontecendo?’ E você não pode dizer que está jogando.”
Ele defende que abrir o diálogo é fundamental para quebrar o silêncio. “Precisamos começar a falar sobre isso. Só assim as pessoas se sentirão à vontade para buscar ajuda. Se continuarmos a estigmatizar os jogadores e suas dificuldades, criaremos uma sociedade de pessoas com medo de se abrir — e esse silêncio pode levar ao suicídio e a outros danos, afetando famílias e comunidades inteiras.”
Educação como ferramenta de prevenção
Adiose acredita que a educação é essencial para combater o estigma e identificar os primeiros sinais de vício. A conscientização permite orientar menores e jogadores em risco, oferecendo-lhes uma nova chance de recomeçar.
Ele ressalta, no entanto, que a GamblePause não pode enfrentar esse desafio sozinha. É necessária a colaboração entre outras organizações, órgãos reguladores, operadores e a sociedade civil. Somente com esforços conjuntos será possível criar um ambiente mais seguro e garantir a sustentabilidade do setor.
Compromisso social da GamblePause
O jogo entre menores de idade é uma preocupação crescente em toda a África. Em resposta, a GamblePause Initiative Africa tem conduzido campanhas proativas para enfrentar o problema.
No início deste ano, a organização lançou a campanha “Say No to Underage Gambling” (Diga Não ao Jogo entre Menores), voltada à conscientização sobre os riscos do contato precoce com o jogo e seus impactos sociais, financeiros e psicológicos de longo prazo. A iniciativa envolve pais, escolas e líderes comunitários, destacando a importância de proteger crianças e adolescentes de possíveis danos relacionados ao jogo.
Levando a campanha às comunidades
A campanha inclui visitas a escolas, oficinas comunitárias e programas digitais. Por meio dessas ações, a GamblePause busca criar ambientes mais seguros, onde os jovens possam se desenvolver sem exposição prejudicial ao jogo.
Ao promover a conscientização, a organização espera mudar a forma como a sociedade encara o tema, especialmente entre os mais jovens. O estigma em torno do jogo na Nigéria continua silenciando vítimas e isolando dependentes. Adiose e a GamblePause defendem que a sociedade precisa abrir espaço para o diálogo e a empatia. Sem conversas, prevenção e colaboração, o estigma continuará sendo uma barreira ao progresso.
Por meio da educação, da atuação digital e de campanhas como “Diga Não ao Jogo entre Menores”, a GamblePause está traçando um novo caminho. Sua missão vai além da reabilitação — é também proteger as próximas gerações para que não caiam no mesmo ciclo.
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