A Polícia Civil do Tocantins deflagrou, na manhã de sábado, 4 de outubro de 2025, a prisão preventiva de uma influencer digital suspeita de promover e divulgar plataformas ilegais de jogos de azar em redes sociais. O caso aconteceu em Porto Nacional (TO). Segundo apuração do Jornal Opção – Tocantins, a influencer detida foi identificada como Ana Paula Cerqueira, profissional que combina sua presença digital com atuação como cirurgiã-dentista. Com cerca de 190 mil seguidores nas redes sociais, ela costumava compartilhar conteúdos de muito luxo e viagens, um estilo de vida que, segundo a investigação, servia para atrair novos seguidores e potencializar a promoção de apostas online irregulares. A acusação é de que Ana Paula fazia uso de estratégias como exibição de ganhos simulados para gerar credibilidade e engajar pessoas a apostar em plataformas que não estão autorizadas pela lei.
As fases da investigação
Mas esse não é um caso isolado. A Polícia Federal está investigando casos como esse e em 19 de setembro, já havia sido deflagrada uma operação que cumpriu mandados de busca e apreensão em Porto Nacional e Brejinho de Nazaré. Naquele momento, a Justiça determinou o bloqueio de valores que poderiam chegar a R$ 9,5 milhões nas contas dos investigados, além da apreensão de bens móveis considerados possivelmente adquiridos com receitas ilícitas. Mesmo após essa ação, a investigação constatou que a influencer continuou movimentando recursos e ocultando patrimônio advindo dessas atividades suspeitas, o que motivou o mandado de prisão preventiva.
O delegado responsável pelo caso, Wagner Rayelly, comentou que esse tipo de atuação nas redes sociais traz riscos muito grandes, pois influencia seguidores e pode induzir pessoas ao erro. “A Polícia Civil segue atuando com rigor para impedir que influenciadores utilizem suas redes sociais para enganar seguidores e promover atividades ilegais”, afirmou. A execução da prisão ficou a cargo da 7ª Divisão Especializada de Repressão ao Crime Organizado (7ª DEIC), em cumprimento a ordem da 2ª Vara Criminal de Porto Nacional. Ana Paula foi levada à Unidade Prisional Feminina de Palmas, onde permanece à disposição da Justiça.
Em 2025, diversos influencers e celebridades foram alvos de operações que investigam a prática do uso de redes sociais para divulgar jogos clandestinos. Uma operação no Rio de Janeiro, por exemplo, apurou o envolvimento de 15 influencers no chamado “Jogo do Tigrinho” e outros sistemas de aposta, com movimentações suspeitas de mais de R$ 4 bilhões. Outra influencer já presa em operação parecida foi Karol Digital (nome artístico de Maria Karollyny Campos), acusada de explorar jogos de azar, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Nesse caso, foram cumpridos 23 mandados de busca e apreensão, e seu companheiro também foi detido.
A CPI das Bets, iniciada em novembro de 2024, investigou as consequências econômicas e sociais do fenômeno dos jogos de aposta online e o uso de influencers para promover essas plataformas. Em abril deste ano, essa CPI solicitou o depoimento de delegados envolvidos em operações contra fraudes em sites de apostas, a fim de entender melhor a dinâmica entre influencers e as plataformas clandestinas.
Impactos e desafios
A estratégia de usar influencers para publicidade de plataformas de apostas apresenta vários riscos. Muitos seguidores podem acreditar nas promessas de ganhos fáceis e investir seu dinheiro, sem perceber que grande parte das vitórias mostradas nas redes são simuladas ou maquiadas para atrair confiança. Essa técnica é conhecida no meio investigativo como “conta demonstração”, um recurso usado para enganar usuários menos experientes.
Essas operações muitas vezes também envolvem lavagem de dinheiro, uso de empresas de fachada e ocultação de patrimônio, o que torna mais difícil rastrear os recursos gerados por atividades ilícitas. Do ponto de vista da regulação, embora as apostas esportivas regulamentadas já existam, a fiscalização é difícil e muitos sites atuam de fora do país, fora da lei brasileira.
Para muitos especialistas, é urgente intensificar a educação digital e alertar o público a respeito dos riscos de aderir a propostas de “ganhos fáceis” nas redes. Quando uma pessoa comum, sem experiência, nota retornos aparentemente altos e frequentes nas postagens de influencers, pode se sentir invocada a participar (e até perder valores que fariam falta depois).
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