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Brasil começa a responsabilizar apostadores de sites ilegais

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

O governo brasileiro vem ampliando suas ações contra a oferta irregular de apostas. Recentemente, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) notificou a Anatel para bloquear cerca de 18 mil domínios de apostas. Em setembro de 2025, a SPA anunciou que já tinha “derrubado quase 23 mil” sites ilegais em cooperação com a Anatel e outros parceiros. Paralelamente, a Secretaria fechou acordos técnicos com entidades do setor regulado, como a ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias), que montou um laboratório para identificar e derrubar automaticamente plataformas. 

No primeiro semestre de 2025, a SPA registrou 277 comunicações de 24 instituições financeiras e de pagamento, resultando no bloqueio de 255 contas de pessoas físicas e jurídicas envolvidas com apostas ilegais. A própria SPA orientou bancos e fintechs a encerrar contas suspeitas e comunicar transações atípicas ao Coaf. Como consequência, foram fechadas contas de 45 empresas que operavam no mercado clandestino. Há ainda parceria com o Conselho Digital Brasil (Google, Meta etc.) para retirar da internet propagandas irregulares, e preparativos para restringir operações em criptomoedas ou canais não autorizados. 

Legislação e punição ao apostador 

Apesar de a punição ao jogador parecer novidade, a lei brasileira já prevê multa ao apostador em sites não autorizados. A Lei nº 13.155/2015, que atualizou a Lei de Contravenções Penais (Dec.-Lei 3.688/1941, artigo 50), definiu que “incorre na pena de multa de R$ 2.000 a R$ 200.000 quem participa de jogo ilegal, inclusive pela internet”. Em outras palavras, apostar num site clandestino é contravenção penal, com previsão de multa pesada. O §2º do artigo 50 estabelece que modalidades não autorizadas continuam consideradas “jogo de azar” e sujeitas às penalidades do Código de Contravenções. 

Esse enquadramento jurídico distingue claramente as apostas legais (loterias federais, estaduais ou autorizadas, e as bets regulamentadas) dos mercados clandestinos. Modalidades autorizadas têm “natureza jurídica excepcional, fora do campo penal”, enquanto qualquer operação não permitida pelo Estado permanece como contravenção. Desde 2015, portanto, não é possível alegar ignorância, quem aposta em site ilegal pode ser multado conforme previsto em lei. 

Especialistas defendem responsabilização 

Profissionais do setor de jogos e reguladores têm comentado que o apostador clandestino não é mera vítima. Segundo o portal iGaming Brazil, o ex-diretor da Caixa Loterias Waldir Marques e o consultor Amílton Noble alertam que o jogador “longe de ser considerado uma vítima, pois ele alimenta esquemas de lavagem de dinheiro, fortalece quem burla impostos e enfraquece o esporte e políticas públicas financiadas pelo setor regulado”. Ou seja, “quem aposta no ilegal ajuda a manter vivo o próprio problema que o país tenta combater”

Na visão da SPA e de entidades do setor, responsabilizar o apostador faz parte da coerência jurídica. O secretário Regis Dudena destaca que parcerias com a indústria (ANJL) reforçam “a consolidação do mercado regulado”. O presidente da Anatel, Carlos Baigorri, ressalta que é preciso não só aumentar barreiras tecnológicas, mas também “conscientizar as pessoas a não apostar em plataformas irregulares”. O diretor-jurídico da ANJL, Pietro Cardia Lorenzoni, afirma que a associação está comprometida a colaborar “com boas práticas” no combate ao mercado ilegal. 

Por outro lado, integrantes do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (Procons, MPCON, Brasilcon, etc.) enfatizam que o foco deve ser proteger o cidadão, não criminalizá-lo. Em uma nota pública de abril/2025, essas entidades alertaram que plataformas ilegais expõem usuários a fraudes, lavagem de dinheiro e “não pagamento de prêmios”. Insistem na necessidade de fiscalização rigorosa dos operadores irregulares e de campanhas educativas, em vez de somente penalizar o apostador. A diretora do Procon-ES, Letícia Nogueira, pede “campanhas educativas e canais de denúncia” para alertar a população sobre os riscos, e reforça que os órgãos atuarão para notificar e fechar sites sem autorização. 

Riscos do jogo clandestino 

Quem aposta em sites fora do sistema regulado assume diversos riscos. Esses portais não praticam controles de identidade (KYC) e aceitam métodos não rastreáveis (como criptomoedas), o que facilita a lavagem de dinheiro e a evasão fiscal. O usuário também fica desprotegido contra fraudes e erro de pagamento. Plataformas piratas podem não pagar os prêmios devidos, justamente o ponto alertado pelos órgãos de defesa do consumidor. Os especialistas também apontam que o apostador “expõe dados pessoais” em sites não confiáveis e fica sujeito a tentativas de golpe ou vazamento de informações sensíveis. A volatilidade financeira desses sites é outro problema, alguns relatos de vítimas mostram dificuldade em sacar o próprio dinheiro e até o fechamento repentino da plataforma sem aviso. 

Em termos sociais, o impacto pode ser grave. A nota do Senacon/Procons destaca que o vício no jogo leva ao superendividamento e problemas de saúde mental (ansiedade, depressão, etc.). Um estudo do Instituto Locomotiva (ago/2024) mostra que 86% dos apostadores online estão endividados e 64% negativados na Serasa. As fraudes financeiras e os prejuízos pessoais driblam qualquer expectativa de ganho fácil. Ou seja, o apostador clandestino assume riscos de perder dinheiro e ter sua vida financeira arriscada, enquanto alimenta uma rede criminosa que, segundo Marques e Noble, “enfraquece o esporte e as políticas públicas” previstas pelas loterias oficiais. 

Atração pelo mercado ilegal 

Apesar dos perigos, boa parte dos apostadores continua atraída pelas plataformas clandestinas. As razões são apontadas pelos próprios especialistas. Sites ilegais oferecem acesso facilitado, contam apenas com cadastro por e-mail ou telefone e não exigem verificação de identidade (KYC), o que atrai quem quer anonimato e rapidez. Pagamentos em criptomoedas são aceitos facilmente, permitindo evitar cartões ou boletos tradicionais. Além disso, essas casas clandestinas não recolhem impostos nem mantêm estruturas caras, podendo oferecer odds altos em eventos esportivos. 

Outro apelo é o faturamento rápido. Propagandas de bônus e supostos lucros garantidos, muitas vezes veiculadas em redes sociais, convencem alguns usuários de que terão prêmios fáceis. Para esses apostadores, qualquer risco, incluindo a possibilidade de multa, parece compensado pelo ganho imediato. Porém, como ressalta Marques e Noble, essa conveniência é toda ilegal, o jogador que busca “sites sem KYC”, “pagamento em cripto” e “odds mais altas” na verdade está cometendo infração penal. 

Impactos no setor formal e nas receitas públicas 

O incentivo ao mercado clandestino produz efeitos negativos sobre o setor legal de apostas e sobre receitas públicas. Dados do mercado autorizado mostram a diferença: estimativas da ANJL indicam que o setor regulado deve movimentar até R$ 36 bilhões em 2025, gerando cerca de R$ 9 bilhões em tributos federais e municipais. Cada apostador que migra para o ilegal tira recursos desses cofres. 

As loterias federais e estaduais que legalmente detêm o monopólio de alguns jogos financiam programas sociais, culturais, esportivos e de saúde. Quando apostas simples ou mesmo raspadinhas deixam de ser feitas pelo sistema oficial, parte dessas receitas deixará de entrar em fundos como o Fundo Nacional de Esporte ou o Ministério da Educação (via Lotex). Na prática, o consumo de apostas ilegal reduz a arrecadação das loterias regulares, prejudicando iniciativas públicas. Nas palavras dos especialistas, o apostador clandestino “fortalece quem burla impostos e enfraquece o esporte e políticas públicas financiadas pelo setor regulado”

Educação do consumidor e aplicação gradual da lei 

Para especialistas e autoridades, a saída não é apenas punir, mas também informar. A SPA e Procons preparam campanhas educativas alertando sobre “os riscos envolvidos” nas apostas irregulares. O próprio Procon-ES afirmou que intensificará ações de conscientização e ampliará canais de denúncia de sites fraudulentos. Em paralelo, entrará em operação até o fim de 2025 uma plataforma de autoexclusão centralizada, pela qual o usuário poderá se bloquear de uma só vez de todas as apostas autorizadas pela SPA, uma medida de prevenção à dependência. 

No plano sancionador, os autores Waldir Marques e Amílton Noble recomendam “avisos diretos sobre as consequências” e aplicação gradativa da lei em caso de reincidênciaigamingbrazil.com. Ou seja, a primeira aposta ilegal poderia gerar uma advertência ou multa baixa, e punições mais severas viriam em casos repetidos. A ideia é sinalizar que a escolha de apostar no ilegal tem consequências reais, tanto financeiras (multas, perda de fundos) quanto legais. Como afirmam Marques e Noble, responsabilizar o apostador não é “perseguição, é coerência jurídica”. 

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