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SPA ordena bloqueio de contas de beneficiários de programas sociais em sites de apostas 

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, anunciou hoje algumas medidas que vão dificultar o acesso de beneficiários de programas sociais às plataformas de apostas online, com o objetivo de impedir que esses jogadores utilizem o benefício em apostas. Através de uma portaria e de uma instrução normativa, a SPA determina que pessoas que recebem o Bolsa Família ou o Benefício de Prestação Continuada (BPC) terão seu cadastro negado ou sua conta encerrada em casas de apostas. A proposta está ligada a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). 

O que as novas normas estabelecem 

Segundo a Instrução Normativa nº 22, os operadores de apostas devem consultar o Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP) em dois momentos: no momento de um novo cadastro e no primeiro login diário do usuário. Se o resultado da consulta indicar “Impedido – Programa Social”, o cadastro deve ser negado de imediato. Caso um beneficiário já cadastrado faça login e a consulta ao SIGAP retorne “Impedido – Programa Social”, a norma exige que a casa de apostas encerre a conta em até três dias a partir da data da consulta. 

As operadoras ainda terão até 45 dias para cruzar todos os CPFs cadastrados em seus sistemas com o “Módulo de Impedidos do SIGAP”, a fim de identificar usuários que passaram a integrar a base de beneficiários sociais depois do cadastro inicial. Antes de encerrar qualquer conta, o operador deverá comunicar ao usuário o motivo, em até um dia a partir da consulta ao SIGAP. Essas regras valem para as casas de apostas que operam legalmente no país. 

A motivação para essa medida se origina de uma decisão unânime do STF, tomada em novembro de 2024, que determinou ao governo adotar providências para impedir que beneficiários de programas sociais utilizem seus recursos em apostas online. Durante a discussão sobre o assunto, o ministro Luiz Fux comentou que havia urgência na adoção imediata de medidas, diante de evidências de uso significativo de benefícios para apostas e dos riscos especialmente para famílias vulneráveis. 

O STF também antecipou a aplicação de restrições à publicidade de apostas direcionada a crianças e adolescentes, previstas em normativas da SPA, mesmo antes da data originalmente prevista para entrada em vigor. Essas regras, combinadas às novas exigências de fiscalização, são vistas como uma parte da estratégia para garantir proteção social e limitação de danos ao orçamento das famílias mais vulneráveis. 

Estudos recentes demonstram que o uso de recursos do Bolsa Família em apostas já representa um grande número de desvio de recursos assistenciais. O Banco Central identificou que, em um mês, beneficiários do programa movimentaram cerca de R$ 3 bilhões por meio de Pix para plataformas de apostas. Outros levantamentos nos mostram que milhões de beneficiários já participam das bets, e que o uso desses recursos é dividido entre as despesas básicas essenciais como alimentação, saúde e moradia. 

Esses dados motivaram também a apresentação de projetos de lei no Congresso (por exemplo, o PL 3703/24), que buscavam proibir o uso de recursos de programas sociais em apostas esportivas. Embora algumas propostas ainda não tenham sido votadas, elas reforçam o debate público. 

Impactos e desafios 

1. Inclusão e restrições 

O beneficiário não poderá abrir nova conta, e contas já existentes serão encerradas se a relação com programas sociais for detectada. Porém, o cruzamento de dados entre SPI (Sistema de Apostas) e bases do Bolsa Família/BPC precisa de uma conexão segura e confiável.  

2. Repercussão para operadores 

As casas de apostas deverão adequar seus sistemas para integrar consultas ao SIGAP, encerrar contas em prazos estabelecidos e notificar usuários formalmente. O não cumprimento pode eventualmente gerar consequências. Há também o custo operacional e legal dessa adaptação, especialmente para empresas menores ou com estrutura limitada. 

3. Fiscalização e eficiência 

Para que a norma funcione, será essencial que o SIGAP e os sistemas integrados operem com alta confiabilidade e sem brechas. Também será importante monitorar tentativas de evasão, por exemplo, uso de CPFs de terceiros, contas “fantasmas” ou plataformas que operem fora do sistema regulado. 

A efetiva implementação das normas dependerá de prazos e etapas bem definidas. A expectativa é de que o sistema de consulta ao SIGAP esteja em pleno funcionamento até o final do ano, com fase de adaptação inicial. Também será relevante acompanhar eventuais desafios judiciais ou ações legislativas que busquem flexibilizar ou revogar essas medidas. Há, por exemplo, projetos no Congresso que tentam disciplinar apostas ou limitar restrições. 

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