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Sorte ou habilidade? Texas volta a discutir limites legais desses jogos

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

A discussão sobre as máquinas de habilidade voltou à pauta no Texas após uma nova opinião jurídica emitida pelo procurador-geral do estado, Ken Paxton, que afirmou que equipamentos que misturam elementos de habilidade e sorte continuam sendo considerados dispositivos de jogo ilegal sempre que a sorte tiver qualquer influência no resultado que gera prêmio ou benefício ao jogador.

Embora não tenha força para alterar a legislação nem obrigar os tribunais a seguir o mesmo entendimento, a manifestação do procurador-geral aumenta a pressão sobre operadores que defendem a legalidade dessas máquinas e reforça um debate que vem dividindo autoridades, empresas e o próprio sistema judiciário americano há anos.

O que são essas máquinas?

As máquinas de habilidade são equipamentos que lembram bastante os tradicionais caça-níqueis. O jogador faz uma aposta, inicia uma rodada e aguarda o resultado. A diferença é que, em alguns modelos, existe uma segunda etapa baseada em habilidade.

No caso analisado pelo procurador-geral, a máquina oferece um recurso chamado “Follow Me”, inspirado em jogos de memória semelhantes ao clássico Simon Says. Quando o jogador perde uma rodada, ele recebe a oportunidade de participar de um desafio de memorização para tentar recuperar parte ou todo o valor perdido.

É justamente esse sistema que tem sido utilizada por fabricantes para argumentar que os equipamentos não são simples jogos de azar, mas sim jogos que envolvem habilidade do usuário. Paxton, porém, discorda dessa interpretação.

Segundo ele, o jogador já sofreu a perda antes mesmo de acessar a etapa de habilidade. Como o resultado inicial foi definido por um sistema baseado em sorte, o elemento de habilidade não elimina a característica principal da máquina. Na avaliação do procurador-geral, os dois componentes estão diretamente ligados e não podem ser analisados de forma separada. Em outras palavras: se a sorte participa do processo que leva ao ganho ou à perda de dinheiro, a máquina continua podendo ser enquadrada como um dispositivo de jogo de azar.

O pedido veio de um senador preocupado com a expansão dessas máquinas. A opinião foi solicitada pelo senador estadual Bob Hall, um dos críticos mais ativos desse tipo de equipamento. Em março, Hall pediu que o gabinete do procurador-geral esclarecesse se máquinas comercializadas como jogos de habilidade realmente estariam fora do alcance das leis estaduais sobre jogos de azar.

Para o senador, o recurso adicional de memória não passa de uma tentativa de contornar a legislação. Após a divulgação da resposta, Hall comemorou o resultado e afirmou que equipamentos de apostas continuam sendo equipamentos de apostas, independentemente da forma como são apresentados ao público.

A manifestação acontece em um momento em que o número dessas máquinas vem crescendo em diferentes regiões do estado, principalmente em estabelecimentos que tentam operar dentro de áreas consideradas juridicamente cinzentas.

A Justiça já decidiu diferente

O que torna o caso ainda mais interessante é que os tribunais do Texas nem sempre concordaram com essa visão. Nos últimos anos, a empresa Pace-O-Matic acumulou importantes vitórias judiciais envolvendo máquinas muito parecidas com as analisadas agora pelo procurador-geral. Em determinadas decisões, juízes entenderam que os equipamentos exigiam participação ativa do jogador e possuíam elementos suficientes para serem classificados como jogos de habilidade.

Esses julgamentos criaram uma situação curiosa. Enquanto algumas autoridades locais passaram a aceitar a operação das máquinas, outras continuaram realizando fiscalizações, apreensões e investigações. O resultado foi um cenário de insegurança jurídica que ainda está longe de ser resolvido.

Na prática, operadores, fabricantes e proprietários de estabelecimentos continuam sem uma definição definitiva sobre os limites legais dessas atividades.

O Texas continua resistente à expansão dos jogos

O caso também ajuda a entender a relação histórica do Texas com o setor de apostas. Mesmo com o crescimento da indústria de jogos nos Estados Unidos, o estado continua sendo um dos mais conservadores do país quando o assunto é gambling.

Enquanto outros mercados como Nevada, Nova Jersey e Michigan expandiram seus cassinos, apostas esportivas e plataformas online, o Texas mantém suas regras bastante restritivas. Algumas tentativas recentes de legalizar as apostas esportivas enfrentaram forte resistência política e não avançaram. Isso não significa, porém, que não existam atividades relacionadas ao setor funcionando por lá.

Ao longo dos anos, diferentes modelos de negócios ligados ao setor de jogos passaram a operar em áreas de interpretação jurídica no Texas. Entre eles estão as máquinas conhecidas como eight-liners, os game rooms e os clubes privados de pôquer. Segundo análises da Texas District & County Attorneys Association (TDCAA), esses estabelecimentos frequentemente se tornam alvo de disputas regulatórias porque autoridades e operadores interpretam de forma diferente os limites das exceções previstas na legislação estadual.

A dificuldade em definir o que é habilidade e o que é sorte não é exclusiva do estado americano. Em vários lugares dos Estados Unidos, os tribunais e reguladores enfrentam exatamente o mesmo desafio. No Missouri, por exemplo, segundo o portal Gambling Insider, a empresa Torch Electronics passou anos defendendo a legalidade de suas máquinas “No Chance”. A companhia alegava que os equipamentos dependiam da habilidade do jogador e não do acaso. Após uma longa batalha judicial, a Justiça acabou decidindo contra a empresa, levando à suspensão de suas operações.

O mesmo aconteceu no Tennessee, onde máquinas semelhantes também foram consideradas ilegais. Já na Pensilvânia, um dos maiores mercados de skill games do país, a discussão ainda está em andamento. O estado abriga dezenas de milhares dessas máquinas espalhadas por bares, restaurantes e pequenos estabelecimentos comerciais. A expectativa é que a Suprema Corte estadual dê uma palavra final sobre o assunto nos próximos meses.

O debate também chegou ao Canadá. Em Ontário, uma decisão judicial concluiu que determinados terminais promovidos como jogos de habilidade funcionavam, na realidade, como formas de jogo de azar.

Uma discussão que ainda está longe do fim

A tecnologia tornou a linha entre habilidade e sorte cada vez mais difícil de identificar. Os fabricantes criam produtos que combinam elementos dos videogames, jogos de raciocínio e mecânicas tradicionais de cassino, tornando a classificação jurídica muito mais complexa do que era há alguns anos.

Para reguladores, a preocupação é evitar que atividades de apostas sejam oferecidas ao público sem a supervisão adequada. Enquanto tribunais e legisladores não chegam a um consenso definitivo, a discussão deve continuar aparecendo em diferentes estados americanos. E o Texas, como já aconteceu diversas vezes no passado, segue sendo um dos principais campos dessa disputa sobre o futuro dos jogos de habilidade nos Estados Unidos.

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