Skip to content

Revista SiGMA: o que é preciso para se reinventar no jogo da vida e dos negócios?

Naomi Day
Escrito por Naomi Day
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Karolina Pelc, vice-presidente da FanDuel, fundadora da BeyondPlay e autora de Her Play, é a personagem de destaque da edição 34 da Revista SiGMA. Nesta conversa exclusiva, ela reflete sobre uma trajetória marcada por resiliência, reinvenção e coragem para evoluir — das mesas de cassino às salas de diretoria e aos lançamentos literários. A reportagem completa a seguir explora sua jornada de transformação, liderança e o poder de “tornar-se” — nos negócios e na vida.

Força, brilho e jogo

A jornada de Karolina Pelc no iGaming começou longe das salas de reunião — e bem mais próxima das mesas de cassino, onde ela trabalhava como crupiê aos 19 anos. “Comecei na Polônia, moldada pelas arestas de uma Europa Oriental pós-comunista, onde o glamour era mais um slogan de marketing do que uma realidade”, relembra.

Sua carreira logo se tornou um turbilhão de culturas e personagens. De clubes privados em Londres a cruzeiros repletos de energia e apostas altas, Pelc absorveu a psicologia do jogo desde a base. “Cada etapa me ensinou algo novo, mas uma lição permaneceu constante: resiliência”, afirma.

Essa resiliência acabou a levando para o lado tecnológico da indústria, onde fundou a BeyondPlay — uma plataforma pioneira de engajamento multiplayer —, posteriormente adquirida pela FanDuel. Nos primeiros anos, ela desenvolveu “um entendimento profundo do comportamento humano: o que motiva os jogadores, como reagem ao risco, o que significa confiança nas mesas”. Essa vivência se tornou sua arma secreta: “Eu não estava tentando adivinhar o que os usuários queriam. Eu sabia.”

A arte de desapegar

O processo de deixar a BeyondPlay foi profundamente pessoal. “Foi uma terapia com duplo propósito: de um lado, me ajudou a processar que a jornada — de crupiê em navio de cruzeiro a fundadora e, depois, ao exit — não foi um acaso. Foi extraordinária, e eu precisava reconhecer isso. Do outro, me deu algo novo no que mergulhar. Um espaço criativo e emocional que era totalmente meu. Essa mudança tornou mais fácil, pouco a pouco, entregar as chaves da BeyondPlay.”

Para Pelc, desapegar não significa simplesmente se afastar das operações. “Significa abrir mão de algo em que você colocou sua alma.” A escrita a ajudou a compreender algo maior: “É um trabalho de identidade. E quando você conduz sua própria saída com clareza e cuidado, não perde a história — você a evolui.”

Virando a página

Ao começar sua transição da BeyondPlay, Pelc começou a transformar tudo o que havia aprendido em algo novo. “Quando fui convidada para fazer a palestra principal no NEXT.io Valletta e comecei a preparar o conteúdo, algo mudou… Eu sabia que queria ir mais fundo. Foi aí que o Her Play começou a tomar forma — não como uma ideia, mas como um método.” Ela estruturou o Her Play em sete pilares de mentalidade que norteiam seu caminho e filosofia: esforço, execução, risco, paixão, sorte, adaptabilidade e você.

“Isso não foi algo que criei olhando para trás. Foi construído em tempo real, a partir da experiência vivida”, explica. Juntos, esses pilares formam a base de uma mentalidade voltada não apenas a construir um negócio, mas uma vida com propósito.

A start-up de si mesma

Para Pelc, publicar Her Play foi como lançar uma nova start-up. “Ambos exigem que você aposte em algo que ainda não existe.” Ela lançou uma edição limitada de forma independente, enquanto apresentava o livro a editoras para uma publicação completa em 2026. Mas dessa vez, o “pitch” era diferente: “Eu não estava vendendo um produto, estava apresentando a mim mesma. Essa vulnerabilidade é diferente… São suas palavras, sua história, sua verdade no papel.”

O mercado editorial é saturado e resistente a inovações. “Só nos Estados Unidos, cerca de 16 milhões de manuscritos são enviados por ano.” Mas o mundo das start-ups a havia preparado. Publicar de forma independente a fez sentir-se livre e empoderada. “Total controle. Total risco. Total recompensa.”

O que mais a surpreendeu? “Achei que estava recontando histórias com as quais já tinha feito as pazes. Não estava. Reescrevê-las me obrigou a processá-las novamente — dessa vez com mais honestidade e menos armaduras.”

No início, Pelc duvidou de si. “Não tinha certeza se eu tinha o direito de escrever um livro… Eu não tinha aquele final limpo, cinematográfico”, admite. Mas sua perspectiva mudou ao se conectar com outras pessoas que também estavam navegando em seus “meios confusos”. “Her Play não é sobre celebrar uma chegada”, diz ela. “É sobre honrar o processo de se tornar.”

Meio memórias, meio guia de mentalidade, Her Play busca ser uma lanterna para quem trilha caminhos cheios de curvas. “Her Play é a história de origem — o porquê, o como, as quedas e os voos. E, se ajudar alguém a se permitir começar ou continuar, já terá cumprido seu propósito.”

Missão Necker

O ponto de virada veio quando Pelc estabeleceu um prazo quase impossível: terminar o livro e lançá-lo na Necker Island, de Richard Branson. “Eu havia sido convidada para um encontro de liderança na ilha e decidi que aquele seria o marco.” Ela tinha apenas 100 dias para realizar o plano. “Foi intenso, emocional e completamente absorvente. Mas aconteceu.”

Ao entregar um exemplar a Branson, sua reação foi direta: “‘É assim que se dá vida a uma história.’” Esse momento sintetiza o espírito de Her Play: ação ousada, autoria criativa e a coragem de contar sua própria história. “Lançar Her Play na Necker Island não foi sobre espetáculo. Foi sobre reivindicar a narrativa.” Em breve, essa história estará disponível para muitos mais leitores, com o lançamento do livro na Amazon e em livrarias online de Malta.

Cair, voar, recomeçar

Hoje, Pelc tem um filtro simples para novas oportunidades: “Está alinhado com meus valores? Gera impacto real? Me dá energia?” Ela agora dedica sua experiência a investir e orientar start-ups em estágio inicial e apoiar novas fundadoras.

Her Play também está se expandindo além do livro: “Uma plataforma. Uma comunidade. Talvez até um fundo. Não quero apenas contar histórias. Quero ser o tipo de apoio que eu mesma precisei e nem sempre encontrei.”

Ela constrói em um ritmo que privilegia equilíbrio, profundidade e longevidade. “Hoje, o foco é sustentabilidade — de mim mesma, da energia e do impacto.”

Uma das mensagens que Pelc espera transmitir com Her Play: “Os caminhos mais significativos raramente são lineares… Cair não é fracasso — é parte do voo.”E, para quem ainda se pergunta se está pronto: “A clareza quase sempre vem depois do salto, não antes.”

Acompanhe a edição 35 da Revista SiGMA, que será lançada durante a SiGMA Europa Central 2025, em Roma, de 3 a 6 de novembro.