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Não há um horário nobre universal para o iGaming, aponta estudo da Blask

Jenny Ortiz-Bolivar
Escrito por Jenny Ortiz-Bolivar
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

A ideia de que a atividade de iGaming segue um único ritmo global, previsível e padronizado está sendo colocada em xeque por novos dados da Blask, a partir de uma análise dos padrões de engajamento horários e diários em 110 países. Embora os operadores historicamente se baseiem em premissas como maior atividade aos fins de semana ou durante a madrugada, o conjunto de dados revela que o comportamento dos jogadores se fragmenta de forma significativa quando os mercados são analisados lado a lado.

A pesquisa da Blask mostrou que semanas de trabalho locais, rotinas culturais e efeitos de fuso horário têm muito mais peso do que qualquer regra global genérica. De acordo com os resultados, o sábado lidera em muitos países, mas até esse padrão se desfaz em mercados estruturalmente distintos. Os dados também indicam que mais países registram picos de atividade durante o dia do que à noite, apesar de os maiores mercados estarem concentrados em horários noturnos.

Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Max Tesla, CEO e cofundador da Blask, afirmou que os insights mais reveladores surgem ao comparar mercados menores ou com características únicas com os mercados mais consolidados da Europa e da América Latina.

Comparação visual dos principais países por dia de pico. (Fonte: Blask)

Agrupamentos inesperados em mercados menores

Questionado sobre qual resultado mais chamou atenção ao analisar todo o conjunto de dados, Tesla não aponta para os grandes mercados, mas para aqueles em que o comportamento dos jogadores se concentra em janelas de tempo estreitas e recorrentes.

“O que mais nos surpreendeu foi o quão extremos e concentrados se tornam os padrões de engajamento em alguns mercados menores ou estruturalmente únicos — muitas vezes limitados a janelas de tempo muito específicas, em vez de se distribuírem ao longo das noites ou dos fins de semana”, disse à SiGMA News.

Um dos exemplos mais claros é a Armênia. Em vez de apresentar um aumento gradual da atividade ao longo da noite, o engajamento no país se alinha quase perfeitamente a um único momento diário.

Mercado de iGaming na Armênia ao longo de uma semana completa. (Fonte: Blask)

“Por exemplo, ao longo de toda a semana, o mercado da Armênia apresenta praticamente o mesmo pico diário exatamente à meia-noite no horário local, considerando os ajustes de fuso em relação ao UTC”, explicou Tesla. “Diferentemente dos grandes mercados europeus, onde a atividade cresce gradualmente durante a noite, na Armênia o engajamento se comprime em um único momento altamente consistente todos os dias.”

“Isso sugere uma forte associação entre o uso do iGaming e rotinas diárias fixas, e não com um tempo de lazer mais flexível”, completou.

Madrugadas no meio da semana na Nova Zelândia

Outro mercado que foge das expectativas tradicionais é a Nova Zelândia. Em muitas regiões, os operadores assumem que as noites de sexta e sábado concentram a maior parte da atividade. Os dados da Blask, porém, revelam um ritmo completamente diferente.

“Quando observamos a Nova Zelândia, vemos que, em vez de picos nas noites de sexta ou sábado, o maior engajamento ocorre no fim da noite de quarta e quinta-feira, especificamente entre meia-noite e 2h da manhã, no horário local”, afirmou Tesla.

Quando ajustado para diferenças de fuso horário, esse comportamento se torna ainda mais evidente. “Após o ajuste para UTC, isso se destaca claramente no conjunto de dados e contrasta fortemente tanto com os padrões europeus quanto com os da região Ásia-Pacífico, indicando um comportamento de consumo noturno no meio da semana, e não orientado ao fim de semana”, acrescentou.

Essa concentração em dias úteis desafia a ideia de que o lazer está naturalmente vinculado ao fim da semana de trabalho. Em vez disso, aponta para o papel de agendas locais, hábitos sociais ou até a disponibilidade de conteúdona definição dos momentos de maior engajamento.

Por que a Arábia Saudita atinge o pico na quinta-feira

Um dos principais destaques do relatório é o fato de a Arábia Saudita ser o único país do conjunto de dados a registrar pico de atividade às quintas-feiras. Isso contrasta com grandes mercados como Reino Unido, Alemanha, Brasil e Turquia, que atingem seus picos à noite e tendem a seguir estruturas de fim de semana mais alinhadas ao padrão ocidental.

Segundo Tesla, a explicação está na organização da semana de trabalho.

“A divergência é amplamente explicada pelas diferenças na estrutura do fim de semana, no ritmo da semana laboral e no momento do lazer, fatores que afetam diretamente quando os jogadores têm maior probabilidade de interagir com o iGaming”, explicou.

“Na Arábia Saudita, o ciclo semanal difere da maioria dos mercados ocidentais e da América Latina. Historicamente, o fim de semana efetivo vai de quinta a sábado, com o domingo sendo um dia normal de trabalho”, detalhou Tesla. “Como resultado, a quinta-feira funciona como o equivalente cultural e comportamental da sexta-feira à noite na Europa.”

Essa mudança na estrutura da semana redefine quando as atividades de lazer — incluindo o iGaming — acontecem. Em vez de ser um ponto fora da curva, a Arábia Saudita segue uma lógica interna consistente, que simplesmente não se encaixa nas premissas ocidentais.

Repensando o conceito de “horário nobre”

Para além dos exemplos individuais, os dados da Blask colocam em dúvida se o conceito de um “horário nobre” universal para o iGaming ainda faz sentido na prática.

“Os dados desafiam a própria ideia de um ‘prime time’ global no iGaming”, afirmou Tesla. Embora reconheça que existam alguns padrões amplos, ele ressalta que estão longe de ser universais.

“Embora muitos dos maiores mercados em volume se concentrem na janela entre meia-noite e 5h da manhã, no horário local, esse padrão não é consistente o suficiente para definir um único pico global”, explicou.

Durante anos, operadores planejaram campanhas, promoções e alocação de equipes com base em suposições consolidadas. “Tradicionalmente, os operadores tratam ‘sexta à noite’ ou ‘madrugada’ como períodos padrão de alta performance”, disse Tesla. “Nossos dados mostram que essa premissa só se sustenta em mercados específicos, não de forma global.”

À medida que a análise se amplia para além de alguns poucos territórios-chave, o cenário se torna mais fragmentado, e não mais alinhado. “Quando o conjunto de dados é expandido para mais de 110 países, o engajamento se fragmenta em vez de convergir — impulsionado por diferenças nas semanas de trabalho, rotinas culturais, hábitos noturnos e efeitos de fuso horário”, acrescentou.

Jogo diurno versus noturno

O relatório também destaca uma divisão menos discutida entre engajamento diurno e noturno. Enquanto Europa e América Latina são predominantemente ativas durante a noite, muitos mercados africanos registram picos durante o dia. No geral, os dados mostram que mais países atingem seus picos em horários diurnos do que noturnos, mesmo que os maiores mercados estejam claramente concentrados à noite.

(Fonte: Blask)

Essa distinção é relevante porque o volume, por si só, pode distorcer a percepção. Operadores focados em mercados como Reino Unido, Alemanha, Brasil ou Turquia tendem a assumir que estratégias noturnas funcionam em todos os lugares. As conclusões da Blask indicam que essa suposição ignora um grande número de mercados onde os jogadores se engajam durante o expediente ou no início da noite.

A República Dominicana oferece outro exemplo de concentração extrema. De acordo com o relatório, o país apresenta a janela de engajamento mais estreita de todo o conjunto de dados: apenas uma hora, na noite de domingo. Uma janela tão restrita deixa pouquíssima margem para erro no timing de promoções ou campanhas.

Implicações estratégicas para os operadores

Para Tesla, as conclusões são claras: o setor não pode mais se apoiar em modelos globais simplificados ao planejar operações em múltiplas regiões.

“A principal conclusão é que não existe um horário de pico universal”, afirmou. “‘Horário nobre’ é um conceito herdado do passado, que simplifica o planejamento, mas falha cada vez mais em um ambiente global de iGaming, ativo 24 horas por dia.”

“Para os operadores, isso traz implicações estratégicas evidentes”, acrescentou. “A alocação de orçamento deve ser específica por mercado, e não centrada em faixas horárias genéricas.”

O mesmo vale para o engajamento dos jogadores. “Campanhas, promoções e gatilhos de CRM precisam estar alinhados aos picos comportamentais locais, e não a suposições globais”, disse Tesla.

“Os recursos devem ser distribuídos de forma dinâmica, com foco em quando os jogadores de cada mercado estão realmente ativos, e não quando as equipes esperam que eles estejam”, concluiu.

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