A inteligência artificial está transformando rapidamente a forma como a indústria de jogos e apostas aborda a segurança dos jogadores, mas avanços realmente significativos dependem de bases sólidas. Neste episódio do Podcast SiGMA, Trevor DeGiorgio, Especialista em Regulação e Conformidade, conversa com a Dra. Maris Catania, Diretora de Sustentabilidade do Jogador na LeoVegas, sobre como IA, regulação e pesquisa acadêmica estão convergindo para redefinir o jogo responsável em toda a Europa.
A Dra. Catania esteve no centro de um dos marcos mais relevantes do setor nos últimos anos: o desenvolvimento de um padrão comum em nível da União Europeia para os chamados marcadores de dano (markers of harm). “Sempre fui bastante obcecada pelos marcadores de dano”, explica ela, observando que o tema é central em seu trabalho desde 2011 e foi um dos principais focos de sua pesquisa de doutorado.
Padrão europeu comum
O projeto, iniciado pela European Gaming and Betting Association (EGBA), reuniu reguladores, operadores, especialistas em tratamento e formuladores de políticas públicas de toda a Europa. Como líder do projeto, a Dra. Catania conduziu um processo complexo e, muitas vezes, político. “É algo muito gratificante, mas também pode ser muito doloroso”, admite, ao descrever debates prolongados em que “podíamos ficar presos a uma única frase por muito tempo”.
Em vez de se basear em opiniões pessoais ou preferências nacionais, sua abordagem foi firmemente ancorada em evidências científicas. “Vamos ver o que dizem os órgãos acadêmicos”, relembra, enfatizando que os padrões de jogo responsável precisam ser fundamentados em pesquisas comprovadas, e não em especulações. Quando o padrão foi finalmente aprovado em nível de conselho, o momento foi carregado de emoção. “Eu estava levando meus filhos para a escola e simplesmente gritei. Não esperava aquilo naquele momento”, conta.
IA e jogo responsável
Embora a inteligência artificial não seja mencionada explicitamente no padrão, a Dra. Catania a enxerga como um poderoso facilitador. “Com a IA, você ainda precisa entender quais variáveis está analisando”, explica. Os marcadores de dano fornecem justamente essa base, descrevendo comportamentos como padrões de depósito, saques e mudanças no estilo de jogo.
Ela defende que a IA pode ampliar de forma significativa a capacidade de detecção ao identificar tendências em grande escala. No entanto, a simples identificação não é suficiente. “Não basta apenas detectar uma pessoa. É preciso realizar algum tipo de intervenção”, afirma. Desde mensagens personalizadas até suporte proativo, a IA pode ajudar os operadores a escolher a forma mais eficaz de estimular mudanças positivas de comportamento.
Personalização, ética e sustentabilidade
Um dos pontos mais relevantes da conversa é a personalização. A Dra. Catania acredita que o próximo passo é abandonar o modelo único para todos. “Uma pessoa de 25 anos pode apresentar marcadores de dano diferentes de alguém com mais de 50”, explica, acrescentando que fatores geográficos e hábitos culturais também influenciam. Ela também reformula o conceito de jogo responsável como uma estratégia de negócios de longo prazo. “Quando você é muito proativo, sua receita se torna mais sustentável”, afirma. Em especial, as gerações mais jovens demonstram maior consciência ética em suas escolhas. “Elas também escolhem uma empresa por ela ser mais ética.”
No futuro, a Dra. Catania imagina painéis alimentados por IA que ajudem os jogadores a compreender claramente seu comportamento de jogo, em vez de apenas percorrer listas de transações. “Torne isso visual. No fim das contas, todos somos consumidores”, defende. À medida que a IA continua a evoluir, o equilíbrio entre as demandas comerciais e a proteção do jogador permanece fundamental. A conversa mostra que, quando orientada por pesquisa, ética e colaboração, a IA tem o potencial de redefinir o jogo responsável de forma positiva.
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