Num cenário em que cada escolha de design é analisada minuciosamente, a criatividade pode, às vezes, parecer um risco. Para Liam Veitch, Head of Production da Tone Agency, essas regras não são obstáculos — são o combustível que faz tudo acontecer. Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Veitch afirma que as normas que antes limitavam a criatividade hoje são justamente o que a mantém viva — e o que impulsiona toda campanha responsável no setor de iGaming.
“Conformidade é uma restrição criativa”, diz ele. “Ela obriga as equipes de criação a ir direto ao ponto sem perder o significado nem o tom. Quando você entende isso, não só deixa o setor jurídico satisfeito, como melhora o próprio trabalho.”
Essa filosofia tornou-se essencial em mercados regulamentados, que exigem campanhas impactantes sem ultrapassar os limites legais. A equipe de Veitch desenvolve campanhas criativas para setores de alto risco — como iGaming, finanças e SaaS — e ele é categórico ao afirmar que responsabilidade não precisa ser sinônimo de tédio.
O lema de Veitch, “Conformidade é uma restrição criativa”, reflete uma mentalidade mais ampla de compliance by design que vem ganhando espaço nos mercados regulamentados. Em vez de tratar a revisão jurídica como uma etapa final, as equipes criativas estão aprendendo a incorporá-la desde o início do processo — mantendo o ritmo e o propósito do projeto.
Pressão gera melhores designs
Atuar em setores fortemente regulamentados tornou a clareza algo inegociável para Veitch. Sua equipe abandonou o modelo de produção linear e adotou ciclos curtos de trabalho (sprints) voltados a reduzir riscos e aprimorar ideias em menos tempo.
“As equipes de compliance não querem ver fragmentos de um projeto. Elas precisam ter uma visão completa”, explica.
“Os sprints eliminam o que é desnecessário. Você recebe feedback real mais rápido, testa mais ideias e identifica problemas com antecedência. Isso é essencial em projetos sujeitos a forte regulação, onde atrasos podem comprometer uma campanha.”
Alguns dos designs mais eficazes da Tone Agency para campanhas de jogo responsável nasceram justamente de restrições criativas severas.
“Quando não dá para depender de volume, imagens chamativas ou clichês visuais, é preciso encontrar formas mais afiadas de transmitir a mensagem. As melhores ideias surgem das caixas mais apertadas.”
O tom da confiança
Para Veitch, confiança não se constrói apenas com o que uma marca diz, mas com a forma como ela diz. O tom é tratado como um elemento de design — não um complemento.
“Tom não é só linguagem. É ritmo, disposição visual, atmosfera”, explica. “Em campanhas de Jogo Responsável, o tom deve soar calmo, equilibrado e humano — nunca robótico nem alarmista.”
Ele também ressalta a importância da consistência: “A coerência transmite a essência da marca mais do que qualquer elemento isolado de design.”
Essa visão está no centro do design de campanhas responsáveis no iGaming, onde a confiança depende menos de slogans e mais de sinais sutis, repetidos e genuínos. Ritmo, clareza e sobriedade importam mais do que frases de efeito.
Veitch cita exemplos como o Play Okay, da Casumo — que integra limites de depósito e tempo de forma natural na jornada do jogador —, e a DraftKings, que prefere usar o termo “orçamento” em vez de “limite”.
“Essa mudança, de instruir para capacitar, é sutil — mas poderosa.”
Como destacou recentemente a especialista em UX Helen Walton, em artigo da SiGMA News, o design ético de interfaces vem se tornando a linha de frente na proteção ao jogador.
Transformando o estático em narrativa
A Tone Agency já desenvolveu campanhas baseadas em treinadores de blackjack, quizzes de personalidade no pôquer e desafios de habilidade em tempo real. Esse tipo de conteúdo desacelera a navegação e devolve ao jogador a sensação de controle.
“Essas experiências criam uma pausa — um momento de aprendizado, não apenas de jogo”, diz Veitch. “São ferramentas que demonstram que a marca valoriza a compreensão do jogador, não apenas o quanto ele gasta.”
Para ele, isso prova que design responsável e retenção de jogadores podem caminhar juntos.
“Quando os jogadores se envolvem mais com conteúdo educativo — especialmente em materiais sobre pôquer —, eles acabam jogando mais.”
Ética antes dos cliques
Segundo Veitch, existe uma tensão natural quando equipes criativas precisam incentivar o engajamento e, ao mesmo tempo, proteger os jogadores. Em campanhas de jogo responsável, esse equilíbrio define se a mensagem constrói confiança ou apenas busca conversões.
“O jogo responsável deve ser parte da marca — não um peso. É possível persuadir sem explorar. O design pode inspirar ação e ainda oferecer clareza e liberdade de escolha.”
Essa visão está alinhada com as diretrizes da Comissão de Jogos do Reino Unido, que recomenda substituir mensagens diretivas por experiências que fortaleçam a autonomia do jogador.
“Vários operadores ainda tratam o jogo responsável como um aviso obrigatório no final da peça”, observa Veitch. “Mas integração não significa ser mais alto — e sim mais estratégico. Colocar a mensagem no lugar certo, no momento certo. Um bom design orienta o comportamento, sem impor.”
“Um bom design não prega. Ele guia. A escolha certa deve ser a mais fácil de fazer.”
IA sem medo
A Tone Agency desenvolveu sua própria estrutura interna para uso da inteligência artificial, chamada AI Fluency, baseada em quatro princípios: Delegar, Descrever, Discernir e Diligência.
- Delegar define o que a IA deve fazer e o que precisa permanecer sob controle humano.
- Descrever garante que toda tarefa automatizada receba o contexto criativo adequado.
- Discernir filtra os resultados com base em critérios éticos e regulatórios.
- Diligência assegura uma revisão humana final antes da entrega.
Segundo Veitch, esse sistema reduziu em quase um terço as revisões relacionadas a compliance, graças ao uso de uma ferramenta interna — o compliance-GPT — que faz uma checagem prévia dos materiais antes da análise humana.
“IA é ferramenta, não atalho. Quando bem usada, ajuda na velocidade — rascunhos, redimensionamento, testes, por exemplo. Mas tudo que envolve tom ou confiança ainda precisa de olhar humano.”
A equipe utiliza IA para gerar fundos fotorrealistas, sugerir variações de manchetes e realizar verificações prévias com o compliance-GPT, descrito por Veitch como “um mecanismo de segurança, não um substituto”, criado para sinalizar possíveis riscos regulatórios antes da revisão humana.
“Velocidade é ótima, mas contexto é tudo. A IA pode apoiar a criatividade — nunca substituí-la.”
Como destacou o artigo “A dinâmica do jogo responsável está falhando com a Geração Z”, a nova geração busca personalização com propósito — e a IA será essencial para tornar o jogo responsável mais intuitivo, e não intrusivo.
Em um mundo dominado por conteúdo automatizado e mensagens padronizadas, manter a supervisão humana no centro de cada campanha de iGaming responsável é o que garante conformidade e autenticidade.
O tédio nunca fez parte do briefing
Se há uma frase que resume a abordagem da Tone, é o próprio lema da agência:
“Não estamos aqui para criar trabalhos seguros. Estamos aqui para criar trabalhos inteligentes — que se destaquem pelos motivos certos”, afirma Veitch. “Não precisa ser rígido. Precisa ser claro. E isso faz toda a diferença.”
Em um setor altamente regulamentado como o iGaming, responsabilidade não é o fim da criatividade — é o que a torna relevante.
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