O novo regime de licenciamento para fornecedores na Dinamarca oferece um dos exemplos mais claros de para onde os mercados regulados maduros estão caminhando: deixando para trás um modelo de supervisão focado apenas nos operadores e avançando para a responsabilização direta das empresas de tecnologia que desenvolvem produtos de apostas e cassino.
A Dinamarca não é um mercado em fase de expansão acelerada. Trata-se de um ambiente maduro, organizado e fortemente monitorado. Ainda assim, tornou-se um importante caso de estudo: uma jurisdição onde o mercado legal é suficientemente sólido para suportar exigências regulatórias mais rigorosas sem empurrar os jogadores em massa para sites não licenciados.
Para os fornecedores, o modelo dinamarquês tem menos a ver com a busca por um mercado de rápido crescimento e mais com a capacidade de demonstrar que conseguem operar dentro de um dos sistemas de jogos mais observados da Europa. Em entrevista à SiGMA News, Dmitrii Smirnov, advogado sênior da EvenBet Gaming — empresa que acaba de obter uma licença B2B para fornecedores na Dinamarca — afirmou que a atratividade do mercado está na “estabilidade regulatória, alta canalização e forte demanda dos operadores por fornecedores totalmente compatíveis com as exigências regulatórias”.
A regulamentação avança na cadeia de fornecimento
As novas regras para fornecedores, que entraram em vigor em 1º de julho de 2025, transferem parte das responsabilidades de conformidade para mais perto das tecnologias e dos jogos dos quais os operadores dependem. De acordo com as diretrizes da Autoridade Dinamarquesa de Jogos, a licença de fornecedor, válida por cinco anos, abrange apostas, jogos de cassino online e os chamados “jogos combinados”, que misturam habilidade e sorte.
Agora, os fornecedores precisam demonstrar ao regulador não apenas que seus produtos funcionam corretamente, mas também que seus sistemas internos e estruturas de governança são capazes de resistir a um processo rigoroso de avaliação.
Smirnov descreveu o processo dinamarquês como “transparente e bem estruturado”, mas ressaltou que não se trata de uma abordagem flexível. “O principal desafio está em coordenar simultaneamente diversas áreas de conformidade, incluindo certificação técnica, testes de segurança, documentação e procedimentos de governança”, explicou. Segundo ele, a empresa conseguiu se apoiar em “tecnologias avançadas de prevenção a fraudes, monitoramento alinhado às exigências de combate à lavagem de dinheiro e ferramentas integradas de jogo responsável”.
A proposta de valor para fornecedores B2B está mudando. Velocidade de integração, variedade de conteúdo e condições comerciais continuam sendo fatores importantes, mas, em mercados como o dinamarquês, a prontidão regulatória está se tornando parte integrante do produto.
O equilíbrio da canalização
A Dinamarca consegue avançar de forma mais incisiva na supervisão dos fornecedores porque seu modelo regulatório mais amplo já alcançou um objetivo que a maioria dos reguladores europeus busca: garantir que a maior parte da atividade de jogos ocorra dentro do mercado licenciado. Na revisão de mercado de 2024 da Autoridade Dinamarquesa de Jogos, a taxa de canalização online foi estimada em 91,5%, uma das mais elevadas da Europa. O mercado de jogos como um todo atingiu DKK 11 bilhões (€1,47 bilhão) em receita bruta de jogos (GGR) em 2024, enquanto o segmento online respondeu por 68% do mercado total.
O regulador tem sido claro ao afirmar que se trata de um exercício de equilíbrio. Em entrevista concedida à SiGMA News em agosto de 2025, o diretor da Autoridade Dinamarquesa de Jogos, Anders Dorph, explicou: “Se você impõe restrições demais ao mercado legal, torna impossível que ele concorra”. Ele acrescentou que “o mercado legal precisa ter acesso a novos jogos e condições favoráveis”.
Para competir com operadores não licenciados, as empresas regulamentadas precisam contar com fornecedores capazes de lançar novos produtos rapidamente, sem ultrapassar os limites das regras vigentes. “Quanto maior for nossa taxa de canalização, mais jogadores permanecem em um ambiente legal e regulado, onde existem regras, mecanismos de proteção e suporte para aqueles que desenvolvem problemas relacionados ao jogo”, afirmou Dorph à SiGMA News.
Uma tendência europeia
Inglaterra e Suécia já avançaram para um modelo de fiscalização mais rigoroso da cadeia de fornecimento, e outros reguladores europeus estão se perguntando quem deve ser responsabilizado quando um produto, plataforma ou fluxo de dados é utilizado por várias marcas licenciadas. Os dados mais recentes de licenciamento em Malta também demonstram a crescente relevância das autorizações B2B em um dos principais polos de jogos da Europa. De acordo com números provisórios do regulador referentes ao primeiro semestre de 2025, operadores B2B representaram 55,5% da base total de licenças, 64,3% dos novos pedidos de licenciamento e 87,5% das licenças emitidas.
Dorph reconheceu que a Dinamarca observou experiências internacionais ao definir os limites de responsabilidade entre operadores e fornecedores. “Vimos isso acontecer na Inglaterra. Vimos acontecer na Suécia. Naturalmente, fomos inspirados por esses exemplos”, afirmou.
Para os operadores, contar com um fornecedor licenciado não elimina a necessidade de realizar processos próprios de diligência. Smirnov destacou que as empresas continuam precisando conduzir suas próprias verificações, mas observou que a licença “reduz o atrito no processo de integração e simplifica as discussões relacionadas à conformidade”. Esse pode ser justamente o principal valor comercial do novo regime: não apenas o acesso ao mercado dinamarquês, mas também um selo de competência regulatória reconhecido em diferentes jurisdições.
Existe, contudo, o risco de que custos mais elevados de licenciamento e exigências mais rigorosas de certificação acabem favorecendo os grandes fornecedores. Smirnov admitiu que “estruturas regulatórias mais avançadas podem, de fato, representar um desafio para empresas menores”, embora argumente que elas também aumentam a transparência e a confiança no mercado.
Essa tensão provavelmente definirá a próxima fase da regulamentação B2B na Europa. O licenciamento de fornecedores pode tornar os mercados mais seguros e mais fáceis de supervisionar, mas também pode restringir a concorrência, favorecendo empresas que dispõem dos recursos financeiros, jurídicos e técnicos necessários para acompanhar a crescente complexidade regulatória.
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