O lançamento do “Desenrola 2”, nova fase do programa do governo federal para renegociação de dívidas, trouxe à discussão um novo tema: qual é, de fato, o papel das apostas online no endividamento do brasileiro? E mais, será que as medidas anunciadas atacam o problema certo?
O Desenrola 2 amplia iniciativas para facilitar a renegociação de dívidas, com condições mais acessíveis para quem está inadimplente, incluindo restrições a determinados tipos de gasto e análise do perfil financeiro dos consumidores. A proposta é reduzir o nível de endividamento no país, especialmente entre famílias de baixa e média renda.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que representa operadoras regulamentadas no país, fez sua própria análise. Para a empresa, a iniciativa é válida, mas deixa de lado um ponto muito importante: o crescimento e a permanência do mercado ilegal de apostas no Brasil. Segundo a associação, esse é hoje um dos maiores desafios do setor e ignorá-lo pode comprometer a eficácia de qualquer política pública relacionada ao tema.
De acordo com a ANJL, “a medida anunciada […] é bem-intencionada, mas não enfrenta um dos principais problemas do setor: o acesso da população a milhares de plataformas ilegais de jogos on-line que seguem operando no país”. Enquanto o governo cria restrições e regras para empresas legalizadas, há um universo paralelo funcionando sem qualquer controle.
E esse universo não é pequeno. Hoje, o Brasil vive um momento de transição no mercado de apostas. A regulamentação finalmente saiu do papel e começou a ser implementada, trazendo exigências mais rígidas para os operadores, como identificação de usuários, políticas de jogo responsável e mecanismos de prevenção a fraudes.
Mas a própria ANJL aponta que “uma boa parte das plataformas de jogos acessadas no Brasil sejam ilegais”. Isso significa empresas que não pagam impostos, não seguem regras de proteção ao consumidor e, em muitos casos, simplesmente não pagam os usuários quando eles ganham. Além disso, essas plataformas utilizam estratégias tecnológicas sofisticadas para continuar ativas, como a troca constante de domínios e servidores, dificultando qualquer tentativa de bloqueio.
Outro ponto levantado pela associação e que merece atenção é a relação entre apostas e endividamento. Existe uma narrativa de que as bets são responsáveis por uma fatia relevante das dívidas das famílias brasileiras. Mas os dados disponíveis até agora não sustentam essa ideia.
Estudos recentes, como os conduzidos pela Pay4Fun e pela LCA Consultoria, indicam que os gastos com apostas não estão entre os principais vilões do orçamento doméstico. Na verdade, o peso maior continua sendo de velhos conhecidos: crédito rotativo do cartão e cheque especial.
A ANJL reforça isso ao destacar que “o endividamento dos brasileiros está fortemente associado aos altos juros praticados no país”. E aqui não tem muito mistério. O Brasil ainda tem uma das taxas de juros mais altas do mundo, e isso impacta diretamente a vida financeira da população. Uma dívida pequena pode virar uma bola de neve em poucos meses.
Para ilustrar, a própria ANJL cita um exemplo interessante: “um consumidor com BRL20,000 ($4,057.41) em dívida no cartão de crédito e que aposta, em média, BRL50 ($ 10,14) por mês, poderá ter restrições ao aderir ao programa”. Ou seja, mesmo com um gasto relativamente baixo em apostas, esse usuário pode ser impactado pelas regras enquanto continua exposto a linhas de crédito com juros altíssimos.
Esse tipo de situação levanta um questionamento importante: será que o foco das políticas públicas está equilibrado?
Isso não significa, claro, que o setor de apostas não tenha responsabilidade. Muito pelo contrário. O próprio mercado reconhece que há riscos, especialmente quando o jogo é encarado como forma de renda. Tanto que a ANJL reforça um ponto fundamental: “apostas e jogos online não devem ser encarados como fonte de renda ou investimento”.
Essa é uma discussão global, inclusive. Em mercados mais maduros, como Reino Unido e Espanha, reguladores vêm apertando regras justamente para evitar que usuários desenvolvam comportamentos de risco. Limites de depósito, pausas obrigatórias e mensagens de alerta já fazem parte do dia a dia dessas plataformas.
A regulamentação brasileira já prevê mecanismos de jogo responsável, mas a eficácia vai depender de fiscalização e, principalmente, de conscientização do público.
Outro desafio: a educação financeira.
Não dá para discutir endividamento sem falar sobre como as pessoas lidam com dinheiro. A popularização das apostas acontece em um contexto onde muita gente já enfrenta dificuldades para organizar as finanças. Sem esse contexto, qualquer análise fica incompleta.
E ainda existe um fator cultural importante. A ideia de “ganhar dinheiro rápido” não é nova, ela aparece em várias formas, desde loterias até investimentos de alto risco. As apostas online acabam sendo apenas mais uma vertente.
Por isso, quando o governo lança programas como o Desenrola, a expectativa é que eles ataquem o problema de forma ampla. Não só facilitando a renegociação de dívidas, mas também enfrentando as causas estruturais do endividamento, incluindo juros elevados, acesso fácil ao crédito caro e falta de educação financeira.
Ao mesmo tempo, ignorar o mercado ilegal pode acabar criando um efeito contrário ao desejado. Afinal, quanto mais restrições recaem sobre o setor regulado, maior pode ser o incentivo para que parte dos usuários migre para plataformas clandestinas, onde não há qualquer proteção.
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