Um novo projeto de lei apresentado no Senado propõe restringir práticas comuns de retenção de clientes, como cashback, programas VIP e elementos de gamificação nas plataformas de apostas. A medida, caso avance, tende a impactar diretamente o modelo de negócios das operadoras e aumentar os debates sobre proteção ao consumidor e limites da publicidade no setor.
A proposta, protocolada pelo senador Eduardo Girão, pretende alterar a Lei nº 14.790/2023 (o marco regulatório das apostas de quota fixa no país) para impedir mecanismos que incentivem o aumento do tempo de permanência e do volume apostado pelos usuários. Segundo o texto, a intenção é reduzir estímulos considerados excessivos e reforçar o caráter de entretenimento dessas plataformas.
Fim de incentivos pode mudar estratégias de mercado
Na prática, o projeto cria um novo dispositivo legal que proibiria a oferta de benefícios associados ao comportamento do apostador. Isso inclui cashback, promoções condicionadas a depósitos frequentes, programas de fidelidade, rankings, níveis VIP e sistemas de pontuação. Essas ferramentas são amplamente utilizadas pelas empresas para aumentar o chamado “Lifetime Value” (LTV) dos clientes, ou seja, o valor total que cada usuário gera ao longo do tempo.
Além disso, o texto também foca nos recursos de gamificação, como desafios promocionais, missões e progressão em níveis. Esses elementos têm sido incorporados ao design das plataformas para tornar a experiência mais envolvente e estimular a recorrência das apostas. Com a possível proibição, operadoras terão que repensar seus modelos de engajamento e investir em estratégias menos agressivas de retenção.
Outro ponto relevante do projeto é a restrição à comunicação personalizada baseada no histórico do usuário. Notificações, e-mails ou mensagens que incentivem novos depósitos ou maior frequência de apostas poderiam ser vedados. Ainda assim, ações de caráter informativo ou institucional continuariam permitidas, desde que não ofereçam vantagens financeiras ou promoções ao consumidor.
Prazo curto para adaptação preocupa empresas
Caso a proposta seja aprovada pelo Congresso Nacional, o texto prevê um período de transição relativamente curto: cerca de 90 dias para que as plataformas se adequem às novas regras. Isso exigiria grandes mudanças tecnológicas, revisão de campanhas de marketing e reformulação de programas de relacionamento com o cliente.
Os especialistas do setor dizem que a adaptação pode ser complexa, principalmente para os operadores recém-licenciados no país. Nos últimos anos, o Brasil passou por um processo acelerado de regulamentação do mercado de apostas online, com a criação de taxas de outorga, regras fiscais e exigências de compliance. Esse cenário já vinha pressionando as margens de lucro e obrigando as empresas a revisar seus investimentos, incluindo patrocínios esportivos e estratégias comerciais.
A possível aprovação de novas restrições tende a intensificar esse movimento de reestruturação. Para alguns analistas, isso pode resultar em um ambiente mais seguro para o consumidor, mas também em menor competitividade do mercado regulado frente às plataformas ilegais que operam sem supervisão.
Debate sobre proteção ao jogador ganha força
O argumento principal do projeto é a necessidade de reduzir os riscos associados ao jogo compulsivo e à vulnerabilidade socioeconômica. Na justificativa apresentada, o senador afirma que, após a proibição de bônus diretos, as empresas teriam migrado para incentivos indiretos que mantêm o apostador engajado continuamente.
Esse debate não é novo. A expansão das apostas online no Brasil vem acompanhada de preocupações sobre impactos financeiros nas famílias e possíveis vínculos com fraudes e lavagem de dinheiro. O crescimento acelerado do setor, que já reúne milhões de usuários no país, tem levado as autoridades e parlamentares a proporem medidas mais rigorosas de controle e fiscalização.
Entre as medidas propostas recentemente estão projetos que visam restringir a publicidade e os patrocínios de empresas de apostas em eventos esportivos e mídias tradicionais. Essas propostas buscam reduzir a exposição da população a campanhas consideradas agressivas e evitar que apostas sejam vistas como forma de investimento ou renda.
O avanço das regras sobre apostas também está ligado a políticas de proteção no ambiente online. Um exemplo é a entrada em vigor do “ECA Digital”, que amplia a responsabilidade das plataformas tecnológicas na proteção de crianças e adolescentes, incluindo restrições relacionadas a conteúdos e ofertas de jogos de apostas para menores de idade.
Possíveis impactos para o futuro do setor
Se o projeto de lei que proíbe cashback, programas VIP e gamificação for aprovado, o mercado brasileiro poderá entrar em uma nova fase de maturidade regulatória. As operadoras terão que investir em diferenciais baseados em experiência do usuário, segurança, reputação e variedade de produtos, em vez de depender fortemente de incentivos financeiros para manter os clientes ativos.
Por outro lado, existe o desafio de equilibrar a proteção ao consumidor e a competitividade do mercado legal. Um ambiente regulado excessivamente restritivo pode abrir espaço para operadores clandestinos, dificultando a fiscalização e reduzindo a arrecadação tributária.
Enquanto alguns parlamentares defendem a implementação de regras mais duras para evitar riscos sociais, as empresas e especialistas buscam soluções que garantam sustentabilidade econômica e inovação.
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