O debate sobre a regulamentação dos jogos com criptomoedas deixou de ser teórico. À medida que as infraestruturas cripto se integram cada vez mais ao iGaming, alguns reguladores estão estabelecendo regras claras — enquanto outros ainda hesitam. O resultado é um cenário fragmentado, onde operadores atuam em mercados com alto potencial de lucro, mas também com riscos significativos.
Neste artigo exclusivo da SiGMA News, analisamos onde a regulação está se fortalecendo, quais são as implicações para os operadores, e se o futuro das criptomoedas no setor de apostas caminhará rumo à conformidade ou ao caos.
Quem está definindo o ritmo da regulamentação?
A Europa foi a primeira a se mover — e com rapidez — na regulação dos jogos com criptomoedas. As regras sobre stablecoins entraram em vigor em 30 de junho de 2024, enquanto o regime MiCA (Markets in Crypto-Assets) passou a valer em 30 de dezembro de 2024, com um período de transição até 1º de julho de 2026. O resultado é um verdadeiro passaporte europeu para serviços de criptoativos, que torna mais rígidas as bases tecnológicas utilizadas pelos operadores.
Segundo Innokenty Isers, CEO da Paybis, “O MiCA é um avanço positivo, pois cria uma estrutura regulatória clara entre vários Estados-membros. Para os operadores, clareza sempre é melhor do que incerteza.”
No Reino Unido, porém, o cenário ainda é menos definido. A FCA (Financial Conduct Authority) continua tratando as criptomoedas principalmente como ativos de investimento de alto risco, e não como moeda funcional. O órgão regulador abriu consultas em 2025 e pretende finalizar um arcabouço para stablecoins em 2026. Já o Banco da Inglaterra sinalizou uma abordagem cautelosa, com limites e implementação gradual, a fim de proteger a estabilidade financeira — o que impactará o ritmo de adoção por carteiras digitais e comerciantes.
De acordo com Kez Duxbury, líder financeiro da Press Box PR, “A FCA ainda enxerga as criptomoedas sob a ótica de investimento, não como moeda. O desafio é logístico.”
Em Malta, a Autoridade de Jogos (MGA, na sigla em inglês) mantém desde 30 de janeiro de 2023 uma política sobre tecnologia de contabilidade distribuída (DLT) e ativos virtuais, com documentos de 2025 reforçando sua posição e o processo de aprovação. O objetivo é definir uma estrutura segura para o uso de cripto dentro do ambiente regulado de jogos.
Já nos Estados Unidos, o progresso é irregular. Wyoming possui legislações permissivas sobre DAOs e bancos de propósito especial (SPDI), enquanto o BitLicense de Nova York continua impondo altos custos de entrada para atividades com moedas virtuais.
O impacto do MiCA nos cassinos cripto
Para operadores com atuação voltada à Europa, o MiCA eleva o nível de exigência sobre as infraestruturas cripto utilizadas. As novas regras incluem requisitos de reservas, auditorias obrigatórias e proteções reforçadas ao consumidor. Para os cassinos que operam com criptomoedas, isso se traduz em mais documentação e menos anonimato.
Embora alguns temam que as novas medidas reduzam o apelo da privacidade, outros enxergam uma oportunidade de negócio. Operadores devidamente licenciados poderão, em breve, ter vantagem competitiva sobre concorrentes que atuam em mercados irregulares.
Isers explica: “Aqueles que adotarem um modelo de conformidade desde o início terão mais facilidade para crescer e firmar parcerias com bancos, provedores de pagamento e fornecedores.”
Grande parte das regras do MiCA já está em vigor em toda a União Europeia, com o período de transição se estendendo até 2026.
Desafios de KYC, AML e conformidade para apostas com cripto
A Sumsub, empresa especializada em identificação digital e compliance, alerta que expectativas ultrapassadas de KYC (Conheça Seu Cliente) podem comprometer a natureza em tempo real das transações com criptomoedas. Com o avanço da regulação, práticas antiquadas de KYC atrasam o fluxo dinâmico das operações cripto.
Um porta-voz da empresa declarou à SiGMA News: “O KYC deixou de ser uma simples formalidade há muito tempo. Hoje, ele faz parte de uma jornada fluida do jogador, que precisa se adaptar em tempo real.” À medida que o período de transição do MiCA se encerra, verificações de transações e checagens automáticas por operação devem se tornar o novo padrão.
Os reguladores também estão endurecendo as exigências de AML (antilavagem de dinheiro), e o processo de onboarding precisa acompanhar esse ritmo. Ferramentas de análise comportamental, autenticação em múltiplas etapas e controles por transação estão se tornando práticas básicas. Segundo George Pace, gerente sênior de marketing de produto da SEON, “As ameaças mais urgentes incluem abuso de bônus, invasão de contas e estornos fraudulentos. As quadrilhas estão cada vez mais organizadas e dominando o uso de inteligência artificial para fraudes.”
Cassinos descentralizados podem permanecer legais?
Os cassinos descentralizados representam o ponto mais desafiador da regulamentação dos jogos com cripto — e o maior teste de conformidade. Esses modelos totalmente on-chain podem operar à margem das licenças tradicionais, o que gera demanda dos usuários e preocupação entre reguladores.
Kez Duxbury comenta essa lacuna: “O jogo com cripto ainda é uma parte pequena das preocupações da FCA, mas estão atentos. E quando as mudanças chegam, normalmente acontecem de forma rápida.”
O consenso de mercado aponta para duas saídas possíveis: registro dos operadores como entidades reguladas ou restrições de acesso a meios de pagamento. O debate, portanto, já deixou de ser “se” — e passou a ser “como”.
Regulamentados, fora da lei ou reinventados?
A regulamentação dos jogos com criptomoedas não é mais um tema futuro — é uma realidade presente, ainda que desigual e em constante evolução. Os operadores precisam de estratégias transfronteiriças que se ajustem sem perder estabilidade. Já os reguladores devem acompanhar a velocidade das tecnologias descentralizadas.
Como resume Innokenty Isers: “Velocidade, transparência e responsabilidade no onboarding definirão a próxima geração dos jogos com criptomoedas.”
Se esse futuro será guiado pelo MiCA europeu, pela adaptação cautelosa do Reino Unido ou por um novo modelo híbrido, uma coisa é certa: as criptomoedas já não estão fora das regras.
A seguir
Se a regulação dos jogos com cripto define as regras, o que acontece quando a privacidade entra em conflito com elas?
A Parte Cinco desta série exclusiva da SiGMA News explora a zona cinzenta entre privacidade e transparência. Jogadores querem anonimato. Reguladores exigem comprovação. De KYC biométrico a carteiras anônimas, o debate é: confiança e privacidade podem coexistir?
Se perdeu as partes anteriores, confira:
- Parte 1: A ascensão dos pagamentos instantâneos no iGaming
- Parte 2: Criptomoedas vs carteiras digitais no iGaming
- Parte 3: Prevenção de fraudes no iGaming – como os operadores estão reagindo
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