As loterias assumiram o protagonismo no segundo dia da SiGMA Sul da Ásia 2025, quando Adam Fonsica, cofundador e COO da Random State, conduziu uma Lumina Ballroom lotada no City of Dreams, em Colombo, a uma discussão direta sobre o que realmente é necessário para levar o jogo mais antigo do mundo para uma era digital de fato. No palco principal do evento, ele detalhou como as loterias podem competir em uma economia da atenção moldada por streaming, redes sociais, esports e um mercado de jogos mobile avaliado em mais de US$ 100 bilhões.
Fonsica lidera as áreas de operações e estratégia da Random State, uma empresa sueca especializada em produtos digitais de loteria e bingo para operadores estatais e mercados regulamentados. Com mais de 15 anos de experiência em iLottery, iGaming, e-commerce e desenvolvimento de negócios digitais, ele já ocupou cargos de liderança em produto, marketing e experiência do usuário em algumas das loterias mais rentáveis da região nórdica. Em Colombo, usou esse histórico para apresentar um roteiro prático voltado a reguladores e operadores interessados em modernizar o setor sem comprometer a integridade da loteria como jogo de azar.
Repensando o significado de “vencer”
Segundo Fonsica, as loterias já não competem apenas entre si, mas com “todo aplicativo que divide espaço na mesma tela inicial”, de Netflix e TikTok a Fortnite, Roblox e Twitch. Observando o comportamento das gerações mais jovens, ele destacou que hoje “um momento de vitória” pode ser tanto um loot drop, uma skin rara ou uma jogada decisiva quanto o tradicional bilhete premiado.
Ele ressaltou que as big techs se especializaram em monetizar tempo e atenção — enquanto as loterias, em grande parte, ainda monetizam exclusivamente o dinheiro. Para a Geração Z, observou, “a busca por aleatoriedade não desapareceu; ela apenas migrou para formatos que parecem naturais dentro da vida digital diária”.
Fechando a lacuna da loteria digital
A apresentação trouxe um dado revelador: embora o mercado global de loterias ultrapasse 350 bilhões de dólares, apenas 10% a 15% das vendas acontecem no digital — um contraste marcante com o setor de jogos online, que já opera próximo à saturação digital. Fonsica descreveu esse cenário como “a maior oportunidade que o setor de loterias teve em décadas”, desde que sejam criadas experiências nas quais os jogadores desejem investir tempo, não apenas dinheiro.
Ele mencionou exemplos já familiares aos jovens, desde skins de alto valor em jogos como CS:GO até sistemas de gacha e pacotes de cartas de futebol que geram mais de um bilhão de dólares por ano. Em sua visão, a mecânica central da loteria já existe em muitos desses modelos. O que falta é uma maneira de as loterias regulamentadas falarem a mesma linguagem de design.
Modernizando a sorte com novas mecânicas
Fonsica citou as loterias estatais nórdicas como prova de que a loteria digital pode ganhar escala quando entretenimento e sorte caminham juntos — com operadores como Svenska Spel, Veikkaus e Norsk Tipping já gerando a maior parte das suas receitas online. Ele também apresentou parte do trabalho da Random State com jogos instantâneos baseados em coleção e progressão para parceiros regulamentados.
Descreveu experiências nas quais jogadores coletam itens de diferentes raridades, desbloqueiam novos cenários e carregam uma moeda virtual por um portfólio de títulos — tudo isso mantendo os resultados fiéis aos sorteios de loteria. Em suas palavras, “quando um jogo de loteria se parece e se comporta como os jogos que as pessoas já jogam diariamente, você conquista não só o gasto, mas o tempo delas.”
Entre os exemplos apresentados, estavam:
- Jogos instantâneos no estilo colecionável, nos quais o jogador progride e recebe recompensas mesmo sem ganhar dinheiro.
- Moedas internas compartilhadas entre vários títulos, permitindo comprar power-ups e facilitar a progressão.
- Jogos instantâneos em 3D, com qualidade de AAA, narrativa, progressão de habilidade e modos multiplayer que adicionam uma camada social ao sorteio.
Princípios de design para a próxima geração
Fonsica resumiu sua abordagem em três princípios de design para qualquer jogo de dinheiro real ou plataforma que busque engajar o público atual. O primeiro: “o engajamento vem antes do resultado” — se a experiência não for genuinamente divertida, ela não se sustenta, independentemente do valor dos prêmios.
O segundo: o conceito de “lógica de loot” — sistemas de raridade, coleção e recompensas em cascata que fazem o jogador se sentir reconhecido, mesmo sem ganhar dinheiro real. O terceiro: ciclos curtos de feedback, com “microexcitação” a cada poucos segundos e interatividade acontecendo em, no máximo, sete segundos — um reflexo das expectativas moldadas pelos apps e jogos modernos.
Ele conectou esses princípios a números concretos: jogadores de loteria digital, explicou, apresentam taxas de retenção várias vezes maiores do que consumidores exclusivamente de varejo. Já as vendas globais de loteria digital devem continuar crescendo entre médias e altas taxas de um dígito ao ano. Para ele, a conclusão é evidente: “não precisamos mudar o núcleo da loteria, apenas a experiência que envolve o produto”.
O que vem a seguir na modernização da sorte?
Fonsica encerrou sua fala com uma mensagem simples: a emoção da sorte é milenar, mas a forma como as pessoas a vivenciam está mudando rapidamente — e o futuro pertence aos produtos que combinam sorteios regulamentados com a linguagem moderna do entretenimento digital. Para operadores do Sul da Ásia e de outras regiões, o desafio agora é decidir se querem que a próxima geração viva seus “momentos de vitória” dentro de ambientes licenciados de loteria — ou completamente fora deles.
O discurso marcou o encerramento da conferência na SiGMA Sul da Ásia, realizada no Lumina Ballroom do City of Dreams, em Colombo. A próxima parada do roadshow é a AIBC Eurásia, que acontece em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, de 9 a 11 de fevereiro de 2026, onde a conversa sobre loteria digital, novas tecnologias e o futuro do setor regulamentado continuará.



