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ANJ e senadores franceses questionam monopólio da FDJ United após acordo com a Kindred

Garance Limouzy
Escrito por Garance Limouzy

O status de monopólio da FDJ United, maior operadora de jogos da França, passou a ser alvo de questionamentos depois que autoridades alertaram no Senado que seu crescimento — impulsionado pela compra da gigante europeia de jogos online Kindred — pode criar um “mastodonte” grande demais para ser controlado pelos órgãos reguladores.

Durante uma audiência na Comissão de Finanças, Isabelle Falque-Pierrotin, presidente da Autoridade Nacional de Jogos (ANJ), afirmou que o negócio “acentua uma dificuldade importante que já havíamos identificado, que é o conflito de objetivos inerente à dualidade da FDJ United. De um lado, o monopólio exige limitar a oferta de jogos para proteger melhor os jogadores… De outro, como empresa listada em bolsa, a FDJ United persegue naturalmente objetivos de crescimento e rentabilidade em favor de seus acionistas. O contraste entre essas duas lógicas é evidente, e o nosso papel como regulador é garantir que elas não se afastem excessivamente.”

Ela reforçou que o “controle rigoroso” da ANJ sobre os planos de jogos da FDJ tem como objetivo manter o crescimento “dentro dos limites definidos pela jurisprudência da Corte de Justiça da União Europeia, crescimento que não estimule explicitamente o jogo excessivo.”

Regulador alerta para “risco de intensificação” no hábito de jogar

Poucas semanas após a audiência, a ANJ rejeitou um pedido da FDJ United para ampliar o orçamento promocional de 2025. Em sua decisão de 24 de julho de 2025, a autoridade afirmou que o aumento proposto levaria o gasto promocional “a um patamar global similar (…) ao que deu origem à decisão de 17 de dezembro de 2024”, quando já havia determinado cortes no orçamento da empresa.

Segundo a ANJ, o novo plano previa uma elevação “particularmente acentuada” nos incentivos financeiros, tanto para aquisição de novos clientes quanto para retenção. Na avaliação do regulador, “essas alterações representam um risco de intensificação das práticas de jogo, que pode estimular a transição para o jogo excessivo ou patológico, especialmente entre os mais vulneráveis (notadamente jovens de 18 a 25 anos e jogadores de risco).”

O órgão também criticou o fato de a empresa já ter iniciado, entre janeiro e maio de 2025, os investimentos adicionais previstos — sem aguardar o prazo legal de dois meses para análise de alterações substanciais. Essa conduta, advertiu a ANJ, “poderia ser considerada uma infração passível de abertura de processo sancionatório.”

Falque-Pierrotin destacou que o aumento de gastos em marketing é motivo de preocupação, sobretudo em um ano sem grandes eventos esportivos: “O crescimento de 11% no orçamento de marketing em 2025 parece confirmar essa tendência, mesmo sem haver grandes competições previstas.”

Senadores questionam poder do monopólio

Vários senadores levantaram dúvidas sobre se a posição privilegiada da FDJ United ainda atende ao interesse público. Christine Lavarde alertou que, com a aquisição da Kindred, “passamos a ter um único operador presente tanto no mercado de jogos online quanto no mercado físico. Nesse contexto, até que ponto as vantagens concedidas à FDJ United durante sua privatização não constituem um obstáculo à regulação efetiva? E não correm também o risco de comprometer o objetivo de proteger os jogadores, especialmente os mais frágeis e vulneráveis?”

Jean-Baptiste Blanc questionou que tipo de regulação seria necessária “para proteger os jogadores e, ao mesmo tempo, garantir que esse crescimento continue sendo vantajoso para as finanças públicas.”

Outros senadores destacaram o impacto sobre concorrentes. Jean Pierre Vogel criticou “a política comercial agressiva conduzida pela FDJ United” e relatou ter visto “um enorme cartaz anunciando a chegada da FDJ United na entrada de um supermercado” em sua pequena cidade, enquanto a PMU — responsável pelo financiamento das corridas de cavalos na França — enfrentava dificuldades para competir.

FDJ United defende seu modelo

A presidente e CEO da FDJ United, Stéphane Pallez, rejeitou as acusações de crescimento excessivo ou irresponsável. Aos senadores, declarou: “Desde a privatização, em 2019, a empresa registra um crescimento moderado, mas constante, de cerca de 5% ao ano, que beneficia todas as partes interessadas.” Ela ressaltou ainda que “o principal beneficiário desse crescimento moderado continua sendo o próprio Estado, por meio da tributação.”

Segundo Pallez, o modelo da FDJ United “se baseia em crescimento aliado ao controle de riscos, dentro de uma política abrangente, sustentada por um grande número de jogadores que participam de forma moderada e segura.” No segmento de loterias, acrescentou, a taxa de jogo excessivo é “cinco a seis vezes menor do que a observada em outros segmentos, como as apostas esportivas.”

Ela destacou ainda que “mais de 66% do nosso negócio é loteria, sendo quase 70% desse volume no mercado francês” e que a Kindred “sempre demonstrou forte compromisso com a redução de riscos, especialmente os mais presentes nas apostas esportivas online.”

Pressão por limites mais rígidos

Apesar da defesa da empresa, Falque-Pierrotin lembrou aos legisladores que os dados de saúde pública “são claros: o número de jogadores problemáticos é de 1,1 milhão, dos quais 360 mil são jogadores excessivos. Esses jogadores excessivos representam mais de 20% do faturamento do setor.”

Ela alertou que a transformação do jogo em “produto de consumo” com a digitalização, somada aos planos da FDJ United para “assegurar a atratividade da loteria e das apostas esportivas por meio de dinamismo e forte inovação”, exigem vigilância ainda maior.

Conflito de prioridades

A sessão no Senado expôs o conflito entre as ambições comerciais da FDJ United e a missão de proteção à saúde pública da ANJ. Nas palavras de Falque-Pierrotin, “não se trata de proibir o crescimento da FDJ United, mas de garantir que ele se mantenha dentro dos limites de um crescimento moderado, que não incentive explicitamente o jogo excessivo.”

Para os críticos, a expansão da empresa no mercado online, aliada ao seu peso em marketing, ameaça esse equilíbrio. Para a FDJ United, seu histórico e sua contribuição fiscal mostram que o monopólio ainda atende aos interesses do Estado.

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