A presença contínua de anúncios de jogos de azar ilegais nas redes sociais tem levado reguladores em toda a Ásia a reavaliar a forma como as principais plataformas digitais lidam com conteúdos promocionais. Governos de diversos países começaram a introduzir restrições e medidas regulatórias enquanto as autoridades analisam lacunas na fiscalização da publicidade online.
Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Monica Shafaq, consultora estratégica e ex-diretora-executiva de uma instituição nacional dedicada à prevenção de danos causados pelo jogo, afirmou que as empresas de redes sociais precisam reconhecer a influência que exercem sobre o ecossistema de publicidade digital.
“Se o jogo é restrito ou proibido em determinadas partes da Ásia, as plataformas não deveriam permitir anúncios pagos, promoções de afiliados ou a amplificação algorítmica desses serviços para usuários nessas jurisdições”, afirmou.
Os comentários surgem em meio ao aumento do escrutínio sobre serviços da Meta, como Facebook e Instagram, que alcançam enormes audiências em toda a Ásia. Ao mesmo tempo, governos da região vêm endurecendo a supervisão sobre plataformas de redes sociais.
A Indonésia, por exemplo, introduziu uma regra que proíbe crianças menores de 16 anos de acessar várias grandes plataformas de redes sociais a partir de 28 de março de 2026. A medida se aplica a serviços como TikTok, Facebook, Instagram, YouTube, X, Threads, Bigo Live e Roblox. Segundo o governo, a decisão tem como objetivo proteger menores de riscos online, incluindo exposição a pornografia, cyberbullying, fraudes e uso excessivo de redes sociais.
Alcance massivo das redes sociais
A influência da Meta na região é inegável. Somente o Facebook possui cerca de 520 milhões de usuários mensais no Sul da Ásia e aproximadamente 398 milhões no Sudeste Asiático.
Somados, Facebook e Instagram oferecem à Meta uma audiência publicitária de mais de 1,3 bilhão de adultos na região Ásia-Pacífico. Índia e Indonésia sozinhas respondem por mais de 700 milhões desses usuários. O Facebooktambém detém cerca de dois terços da participação de mercado das redes sociais na região.
Segundo observadores, essa escala significa que mesmo um pequeno número de anúncios ilegais de jogos de azar pode rapidamente alcançar milhões de usuários. Reguladores afirmam que promoções de apostas ilegais ainda aparecem em países onde o jogo é restrito ou proibido. Em vários casos, os anúncios não são campanhas pagas diretas, mas surgem por meio de influenciadores, redes de afiliados ou conteúdos promocionais disfarçados.
“As plataformas já possuem ferramentas de publicidade altamente sofisticadas, portanto não há justificativa plausível para que anúncios de jogos de azar cheguem a usuários menores de idade.”
– Monica Shafaq, estrategista de negócios e especialista em prevenção de danos do jogo
Shafaq observa: “Sempre existe o risco de um anúncio ser direcionado de forma incorreta, mas isso não deve ser usado como justificativa para salvaguardas fracas.” Ela acrescentou: “A questão maior é saber se as grandes plataformas estão dispostas a assumir responsabilidade pelo papel que desempenham no ecossistema de publicidade digital.”
Investigações sugerem que anúncios de jogos de azar circularam em pelo menos 13 jurisdições asiáticas onde a regulamentação é rigorosa. As autoridades das Filipinas têm sido particularmente enfáticas após o governo proibir os Operadores de Jogos Offshore Filipinos (POGOs). Apesar da proibição, autoridades afirmam que promoções de jogos associadas a operadores offshore continuaram aparecendo no Facebook.
A Corporação Filipina de Entretenimento e Jogos (PAGCOR) levantou a questão junto a representantes da plataforma e propôs uma cooperação mais estreita para revisar a publicidade relacionada a jogos de azar.
De forma semelhante, na Indonésia, autoridades intensificaram uma operação nacional contra o jogo online ilegal. Funcionários bloquearam milhões de sites relacionados a apostas e removeram grande volume de conteúdo de plataformas digitais. O ministério das comunicações trabalhou com a polícia e reguladores financeiros para desmantelar redes de apostas, congelar milhares de contas bancárias ligadas ao setor e desarticular sindicatos transnacionais.
Salvaguardas para usuários mais jovens
Outra preocupação envolve a exposição de menores a conteúdos relacionados ao jogo na internet. Segundo Shafaq, a tecnologia utilizada pelas empresas de redes sociais já deveria ser capaz de impedir que esse tipo de publicidade alcance públicos menores de idade.
“As salvaguardas precisam ser muito mais fortes do que são hoje”, afirmou. As plataformas, explicou, já operam ferramentas de publicidade extremamente sofisticadas. Sistemas de verificação de idade, controles mais rígidos sobre segmentação comportamental e um monitoramento mais rigoroso do marketing feito por influenciadores poderiam reduzir significativamente as chances de menores entrarem em contato com promoções de jogos de azar.
Equilíbrio entre fiscalização e pressão de mercado
Alguns observadores do setor também argumentam que controles publicitários muito rígidos podem simplesmente empurrar operadores de jogos para canais de marketing subterrâneos ou redes informais de afiliados.
Shafaq reconheceu que esse deslocamento pode ocorrer, mas acredita que o argumento não deve servir para justificar uma fiscalização fraca. “Sempre existe o risco de deslocamento, mas isso não deve ser usado como justificativa para salvaguardas frágeis”, afirmou.
No fim das contas, Shafaq acredita que o debate gira em torno de saber se as grandes empresas globais de redes sociais estão dispostas a reconhecer a responsabilidade que acompanha sua influência. Segundo ela, se as plataformas aplicarem controles mais rigorosos, operadores ilegais terão muito mais dificuldade para alcançar grandes audiências em escala.
“As plataformas de redes sociais não são apenas hospedeiras passivas; elas são ecossistemas de publicidade extremamente poderosos”, afirmou. “E com essa influência vem responsabilidade, especialmente quando o conteúdo promovido apresenta riscos claros de causar danos.”
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