Uma vez por ano, em novembro, o setor regulado de jogos abandona o tom discreto e fala abertamente — com clareza e propósito. Ele troca ideias, mobiliza esforços e se desafia. Começa aqui a cobertura da SiGMA News da European Safer Gambling Week 2025, quando operadoras, instituições de apoio, reguladores e redes de tratamento de toda a Europa se unem em torno de uma mensagem essencial: jogar de forma mais segura não é opcional — é indispensável. Com a semana em andamento e o debate europeu sobre jogo responsável ganhando o centro do palco, esta é a primeira entrevista exclusiva da série especial da SiGMA News.
Neste ano, o Betting & Gaming Council (BGC) — que representa o setor regulado de apostas e jogos do Reino Unido — assume o protagonismo e abre a conversa. Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Grainne Hurst, CEO do BGC, explica como o setor regulado pretende liderar esse diálogo — não apenas durante uma semana, mas ao longo de todo o ano e além dele.
Como a European Safer Gambling Week ganhou forma
Criada em 2021 pela European Gaming & Betting Association (EGBA), a European Safer Gambling Week nasceu como uma iniciativa pan-europeia para unir a indústria, os reguladores e os serviços de apoio em torno de uma missão comum: aumentar a conscientização sobre riscos, ampliar o uso de ferramentas de proteção e incentivar práticas responsáveis.
Na edição de 2024, o engajamento cresceu de forma expressiva. A iniciativa alcançou 26 países, com a adesão de oito autoridades nacionais de jogo.
Mais de 3,1 milhões de pessoas foram alcançadas online, com base em métricas de redes sociais e atividades de campanha. A iniciativa vai muito além de uma ação anual: ela funciona como um termômetro de progresso, uma prova de comprometimento e uma demonstração clara de que o setor está seriamente empenhado em resultados mais seguros.
“A European Safer Gambling Week é um momento importante para que nossa indústria se una — não só no Reino Unido, mas em toda a Europa — junto a instituições de apoio, reguladores e parlamentares, para promover o jogo responsável”, afirma Grainne Hurst, CEO do BGC.
“Para nossos associados, jogo responsável não é um slogan. É um compromisso contínuo. Milhões de pessoas apostam com responsabilidade. Para quem precisa de ajuda, o suporte está sempre disponível.”
Na abertura desta série, o BGC apresenta uma visão do cenário atual do jogo responsável. Analisamos o progresso alcançado, as tecnologias utilizadas, a cultura que está sendo construída e os desafios que ainda vêm pela frente. De amanhã até domingo, vozes de especialistas em tratamento, esportes, relatos de experiência vivida e autoridades regulatórias vão aprofundar esse debate. Mas, por ora, é o BGC quem dita o tom.
Avanços e prioridades no jogo mais seguro
Ao longo do setor, os últimos 12 meses foram marcados por ferramentas mais sofisticadas, dados mais claros e uma expectativa pública crescente de que as operadoras devem comprovar responsabilidade — não apenas prometer. Segundo o BGC, essa mudança é perceptível tanto na forma como os jogadores interagem com ferramentas de proteção quanto nas tendências de comportamento observadas nos mercados regulados.
Hurst descreve essa transformação como mensurável, não retórica.
“A edição do ano passado da European Safer Gambling Week bateu recordes, com mais de 1,5 milhão de contas únicas utilizando alguma ferramenta de jogo responsável. Os limites de depósito aumentaram 14%, e quase metade dessas definições foi feita pela primeira vez.”
Para ela, esses números mostram que campanhas de conscientização se convertem em hábitos reais quando as operadoras criam ferramentas que as pessoas querem usar.
O panorama mais amplo inclui o apoio às 62 medidas do Gambling White Paper do governo britânico, a implementação de novos limites de aposta para jovens adultos e a preparação para o levy legal, que financiará pesquisa, educação e tratamento a partir de 2025. Esse levy — um pagamento anual obrigatório estabelecido pelo governo — entrou em vigor em 6 de abril de 2025. As operadoras realizaram seus primeiros pagamentos entre setembro e outubro, garantindo uma base estável para programas nacionais.
Hurst enfatiza que o foco não está na quantidade de medidas, mas na consistência. “Progresso não é apenas política. É impacto.”
Ela destaca sistemas mais robustos de avaliação de capacidade financeira, modelos aprimorados de interação com clientes e uma colaboração mais próxima com instituições de tratamento como sinais de que o setor regulado está migrando do simples cumprimento de obrigações para uma compreensão genuína do comportamento do jogador. O objetivo é detecção precoce, diálogos mais claros e menos pessoas passando despercebidas.
Com avanços já estabelecidos, o próximo desafio é escala. A pergunta já não é se as ferramentas funcionam, mas com que rapidez e uniformidade elas podem ser aplicadas em diferentes plataformas, produtos e jurisdições.
Tecnologia, responsabilidade e os limites da automação
Se progresso é comportamento, tecnologia é o motor que o impulsiona. IA e análise comportamental estão no centro da detecção precoce de risco, permitindo que as operadoras identifiquem mudanças nos padrões de jogo muito antes de um cliente atingir um ponto crítico. Para Hurst, a questão nunca foi se a inovação deve estar presente no jogo responsável, mas como ela é utilizada — e o quão claramente ela é compreendida.
“A tecnologia transformou o que significa trabalhar com jogo responsável no dia a dia”, diz ela. “Ela permite que operadoras atuem em tempo real, em larga escala, e com precisão.”
Ela destaca iniciativas como o GamProtect, que permite que operadoras compartilhem informações críticas de risco para que o suporte acompanhe o jogador — e não apenas uma conta isolada. Para Hurst, é um dos exemplos mais fortes de cooperação entre empresas até hoje.
Mas o BGC é claro: nenhum algoritmo substitui julgamento. Mesmo os sistemas mais avançados exigem supervisão humana, contexto e análise criteriosa. A automação pode indicar padrões, mas cabem às pessoas decidir o que fazer com eles — e isso é fundamental em um setor onde a confiança é conquistada lentamente e perdida rapidamente.
O grande desafio agora é transparência. Os clientes precisam entender por que uma intervenção ocorre, quais dados a dispararam e quais são suas opções. Sem essa clareza, mesmo os melhores sistemas podem gerar confusão em vez de confiança.
Para o BGC, o uso ético dos dados já faz parte da própria responsabilidade da marca. A mensagem é direta: a inovação deve reforçar a proteção, não escondê-la. E a European Safer Gambling Week é o momento ideal para reforçar isso.
Equilibrando regulamentação e sustentabilidade
Por toda a Europa, o ambiente regulatório está em constante evolução. Novas verificações de capacidade financeira, maior supervisão e a implementação do statutory levy criaram novas pressões sobre as operadoras. Para o BGC, o desafio é apoiar reformas sem comprometer a força do setor regulado — essencial para a proteção dos consumidores.
Hurst rejeita a ideia de que regulamentação e sustentabilidade estejam em lados opostos.
“Trabalhamos de perto com o governo, reguladores e nossos associados para garantir que a regulamentação seja eficaz e proporcional.”
O objetivo é construir um ambiente onde o jogo responsável seja favorecido e os clientes permaneçam em canais licenciados e protegidos.
O risco não está nas regras em si, mas nas consequências indesejadas. Quando a regulamentação se torna confusa ou excessivamente rígida, jogadores podem migrar para sites não licenciados — onde nenhuma proteção existe. O papel do BGC é ajudar seus associados a incorporar estrutura, dados e clareza para que o jogo responsável faça parte da rotina, e não de gestos simbólicos.
Esse equilíbrio — padrões elevados aliados a um mercado estável e competitivo — moldará a próxima fase do debate europeu sobre segurança no jogo.
Por enquanto, a mensagem é clara: um setor bem regulado e comercialmente saudável protege mais pessoas do que um ambiente fragmentado. O trabalho daqui para frente é garantir que essas prioridades caminhem na mesma direção.
Colaboração, confiança e o caminho até 2026
Se a cultura molda o comportamento dentro das empresas, a colaboração define a confiança do lado de fora. Para o BGC, reconstruir e manter a credibilidade pública depende diretamente da qualidade das relações entre o setor e as instituições que atuam além dele — como organizações de apoio, pesquisadores, profissionais de saúde e reguladores.
“Confiança se conquista com ação e transparência”, afirma Hurst. “Nosso papel é aproximar parceiros e garantir que o progresso avance de forma coesa.”
Nos últimos quatro anos, os membros do BGC já direcionaram mais de £170 milhões a iniciativas de pesquisa, prevenção e tratamento. A partir de 2025, esse valor passa a ser substituído pela contribuição legal anual — o statutory levy — de £100 milhões, sendo cerca de metade destinada ao sistema nacional de saúde (NHS). A mudança vai além do aspecto financeiro: representa uma estrutura mais clara, estável e responsável para financiar, em longo prazo, as redes de tratamento.
Parcerias com instituições como GamCare, Gordon Moody e EPIC Global consolidaram-se como pilares dos esforços do setor regulado. Esses vínculos oferecem entendimento antecipado sobre riscos emergentes e tensões que os dados, sozinhos, não conseguem explicar. Também incluem vivências reais nas discussões estratégicas, onde antes predominavam apenas considerações comerciais e regulatórias.
Essa colaboração exige transparência quando os sistemas falham e honestidade quando jogadores são prejudicados. A confiança pública depende de ações consistentes e visíveis: as pessoas esperam que operadoras demonstrem seu compromisso, não apenas o declarem. O BGC reconhece que esse é um trabalho contínuo — e que o escrutínio faz parte de um ecossistema saudável.
À medida que 2026 se aproxima, o setor precisa fortalecer esse modelo de parceria, mantendo papéis e responsabilidades bem definidos. As redes de tratamento crescerão, a pesquisa se tornará mais precisa e o ambiente regulatório continuará evoluindo. Para o BGC, o caminho passa por mais abertura: compartilhar dados quando apropriado, compartilhar aprendizado quando necessário e compartilhar responsabilidade em toda a cadeia de proteção ao jogador.
Cultura, liderança e a evolução do design responsável
Políticas estruturam o sistema; cultura protege as pessoas. Para Hurst, os avanços mais importantes dos últimos anos aconteceram nos bastidores, dentro das próprias empresas — onde o jogo responsável deixou de ser apenas uma obrigação regulatória para se tornar uma expectativa de liderança.
“Uma cultura responsável começa de cima”, diz ela. “Ela está presente no treinamento das equipes, na comunicação com o cliente, no desenvolvimento de produtos e nas decisões de diretoria.”
O BGC destaca três áreas onde essa mudança cultural se tornou mais evidente:
Capacitação das equipes
As equipes de linha de frente agora recebem treinamentos mais práticos e baseados em cenários reais, que as ajudam a identificar riscos, reconhecer gatilhos e iniciar conversas preventivas com os clientes. É uma transição do roteiro engessado para o julgamento aplicado.
Produto e design
As operadoras estão incorporando o jogo responsável à experiência do produto desde o início, em vez de tratá-lo como um complemento posterior. Isso envolve linguagem mais clara, pontos de fricção planejados e recursos que incentivam o controle, não o comportamento compulsivo. O conceito de responsible-by-design — no qual limites de depósito, lembretes de tempo e ferramentas de orçamento são naturais e não punitivos — está se tornando padrão no setor.
Comunicação e tom
Cada vez mais empresas dedicam 20% de seus espaços publicitários — em TV, rádio e plataformas digitais — a mensagens de jogo responsável. Não como avisos obrigatórios, mas como parte da identidade da marca. O tom importa: mensagens humanas, consistentes e tranquilas constroem mais confiança do que alertas reativos e pontuais.
Para o BGC, o caminho está claro. A European Safer Gambling Week traz o tema para o centro do debate, mas são as decisões tomadas dentro das empresas que moldam como o público o recebe.
O objetivo é simples: uma cultura mais forte e informada reduz danos muito antes que qualquer intervenção seja necessária.
Clareza, consistência e uma cultura de proteção
À medida que a European Safer Gambling Week avança, o desafio do setor vai além da conscientização: exige continuidade. O ecossistema regulado dispõe hoje de ferramentas mais eficazes, regras mais claras e parcerias mais robustas do que nunca. O próximo passo é transformar esses avanços em prática cotidiana — em todos os produtos, plataformas e operadoras.
Para Hurst, o sucesso em 2026 será medido pelo comportamento das pessoas, não apenas pelas políticas.
“O sucesso está nos resultados, não nos relatórios”, afirma. “Significa mais jogadores usando ferramentas de proteção, mais intervenções precoces diante de sinais de risco e maior conhecimento sobre serviços como GamCare e GamStop.”
Esse foco em resultados reflete uma mudança mais ampla na Europa: da promessa para a comprovação. O statutory levy agora garante financiamento de longo prazo para pesquisa, educação e tratamento. Estruturas aprimoradas de compartilhamento de dados permitem intervenções mais rápidas. Um ambiente regulatório mais maduro torna as regras mais previsíveis e consistentes.
Mas o impacto ainda depende da confiança do público. Sem confiança, a tecnologia desperta desconfiança. Sem confiança, a regulamentação parece punitiva. Sem confiança, as ferramentas de jogo responsável ficam esquecidas. O grande teste para o setor, a longo prazo, é descobrir se consegue oferecer uma proteção que soe intuitiva em vez de invasiva, proativa em vez de reativa — e humana, não mecânica.
Para onde vai essa conversa
Este artigo abre uma série especial que, ao longo da semana, analisará essas questões desde diferentes perspectivas. Nos próximos dias, a SiGMA News trará relatos de quem viveu o problema, especialistas clínicos, representantes do esporte, redes de tratamento e reguladores. São vozes que mostram como o jogo responsável funciona na prática — e não apenas no papel.
Por agora, o BGC estabelece a mensagem central: responsabilidade não tem temporada. É o padrão, a estrutura e a expectativa que sustentam o futuro do setor regulado.
Amanhã, continuamos a cobertura da European Safer Gambling Week, com foco na vivência real — onde a prevenção começa com o relato de quem já enfrentou as consequências.
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