Os cassinos físicos estão explorando cada vez mais ferramentas de proteção ao jogador baseadas em inteligência artificial, segundo especialistas do setor. No entanto, dados da indústria indicam que a adoção da tecnologia ainda ocorre de forma desigual, enquanto os mecanismos de governança seguem em desenvolvimento e muitas operadoras ainda tentam entender como transformar pontuações automatizadas de risco em estratégias eficazes de intervenção.
Durante sua participação na G2E Asia, em Macau, Yardena Almagor, Customer Success Lead da Mindway AI, explicou como modelos comportamentais baseados em IA estão sendo utilizados para ir além dos sistemas tradicionais de monitoramento por limites pré-definidos, embora tenha reconhecido as limitações estruturais das abordagens atuais adotadas pela indústria.
“Quando as pessoas ouvem falar em IA, pensam imediatamente em algo complicado, sofisticado e até um pouco mágico”, afirmou. “Mas, na realidade, é algo muito mais simples do que isso.”
As declarações surgem em um momento em que o setor global de jogos ainda se encontra nos estágios iniciais de maturidade em inteligência artificial. De acordo com o relatório State of AI in Gaming 2026, desenvolvido pelo International Gaming Institute da Universidade de Nevada, Las Vegas (UNLV), em parceria com a KPMG LLP, o setor registra uma pontuação média de maturidade em IA de apenas 45 em uma escala de 0 a 100, indicando adoção inicial e lacunas significativas de governança.
O relatório da UNLV foi baseado em respostas de 83 empresas de jogos e 113 órgãos reguladores em todo o mundo. O estudo concluiu que, embora a maioria das operadoras tenha ambições estratégicas relacionadas à IA, muitas ainda não possuem infraestrutura e expertise suficientes para ampliar a implementação da tecnologia de forma eficiente. O documento também apontou que os operadores físicos estão atrás das plataformas online nesse processo de transformação.
Segundo o levantamento, o uso de IA está concentrado principalmente em tecnologia, segurança e inovação de produtos, áreas que representam quase metade de todas as iniciativas do setor. Embora a IA generativa já seja amplamente utilizada — com mais de 80% das empresas aplicando a tecnologia para produção de conteúdo e geração de insights —, os modelos mais avançados de IA “agentic” ainda têm adoção limitada devido a preocupações relacionadas à conformidade regulatória e à segurança do jogador.
Sistemas baseados em limites enfrentam desafios
Almagor destacou um dos principais desafios compartilhados por diversas operadoras: a forte dependência de sistemas baseados em limites, como tetos de gastos, gatilhos de autoexclusão e picos de comportamento. Segundo ela, apesar de amplamente utilizados, esses mecanismos não conseguem captar toda a complexidade dos danos relacionados ao jogo.
“Sabemos que apenas 20% das pessoas com problemas de jogo realmente recorrem à autoexclusão”, afirmou. “E também sabemos que apenas 30% daqueles que se autoexcluem são, de fato, jogadores problemáticos.”
“O jogo problemático não surge a partir de uma única ação”, explicou. “Ele é resultado de uma combinação de mudanças comportamentais ao longo do tempo, muitas vezes extremamente sutis.”
O relatório da UNLV IGI também aponta que muitas organizações enfrentam dificuldades para definir o que caracteriza sucesso em sistemas impulsionados por IA. Apenas uma em cada cinco empresas relatou retorno significativo sobre investimento em um período de dois anos. Além disso, uma em cada quatro companhias não possui um processo estruturado de avaliação das ferramentas de IA, o que dificulta a mensuração de desempenho.
Dados de cassinos físicos revelam complexidade comportamental
Almagor citou uma análise realizada em parceria com uma operadora de cassino físico da Austrália, na qual modelos comportamentais foram aplicados a quase 200 mil jogadores ao longo de quatro meses. O conjunto de dados incluiu atividades de sessão, perfis de jogadores e registros de autoexclusão.
O estudo concluiu que o volume de gastos, isoladamente, oferece uma visão limitada sobre o risco de comportamento problemático. Dois clientes “platinum” de alto valor, por exemplo, apresentavam movimentações financeiras semelhantes, mas padrões de jogo completamente diferentes.
“Um dos jogadores demonstrava comportamento errático e intenso em múltiplos jogos”, afirmou Almagor, “enquanto o outro apresentava um padrão mais consistente e estável.”
Lacunas de governança e responsabilidade ainda persistem
Apesar do crescente interesse em monitoramento baseado em IA, o relatório State of AI in Gaming 2026 destaca falhas importantes na implementação responsável da tecnologia em todo o setor.
Quase um terço das empresas de jogos afirmou não possuir qualquer estrutura formal de IA responsável, enquanto apenas cerca de 2% declararam ter práticas plenamente integradas em suas operações. Outro terço classificou seus esforços como “iniciais” ou “básicos”.
O estudo também revelou que menos de 20% das organizações contam com cargos específicos dedicados à governança de IA, sendo que a supervisão costuma ser fragmentada ou compartilhada entre diferentes departamentos. Em alguns casos, sequer existe uma estrutura formal de responsabilização.
A confiança regulatória também segue limitada. Segundo o relatório, muitos reguladores ainda têm pouca visibilidade sobre a forma como as licenciadas utilizam IA, criando um descompasso entre a percepção e os casos reais de uso da tecnologia. Enquanto os reguladores tendem a focar em aplicações voltadas ao consumidor, a maior parte da atividade relacionada à IA está concentrada em sistemas internos de tecnologia, segurança e produto.
Supervisão humana continua essencial
Almagor ressaltou que sistemas de IA devem servir como apoio — e não substituição — à tomada de decisão humana dentro das políticas de jogo responsável. Um jogador classificado como de baixo risco pode receber mensagens gerais sobre jogo seguro, enquanto perfis considerados de maior risco exigem abordagem direta das equipes responsáveis.
“Esse jogador de alto risco precisa que alguém entre em contato pessoalmente e converse com ele”, afirmou.
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