O cenário das apostas na Austrália entrou em uma fase de intensa fiscalização, à medida que autoridades públicas, especialistas em saúde e líderes da indústria alertam que o jogo problemático está se tornando o próximo grande desafio nacional. A mudança ocorre em meio ao forte crescimento das apostas online, ao endurecimento das regulamentações e à preocupação generalizada com a frequência dos anúncios de apostas em diversos meios de comunicação. Para muitos analistas, o país está chegando a um momento decisivo em relação à proteção do consumidor.
Pesquisadores do setor preveem que o segmento de apostas online na Austrália continuará em expansão, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 5,9% entre 2025 e 2033, segundo projeções do IMARC Group. O setor deve crescer de US$ 5,2 bilhões em 2024 para quase US$ 8,9 bilhões até o final do período analisado. Embora as apostas esportivas e loterias ainda façam parte da cultura local, o comportamento cada vez mais digital dos consumidores transformou a maneira como os australianos se relacionam com produtos de apostas.
Pesquisas recentes mostram que, pela primeira vez, as apostas online superaram as realizadas em locais físicos, impulsionadas principalmente pelo uso de dispositivos móveis. Operadoras que investiram em ferramentas de jogo responsável, verificação de identidade e sistemas de conformidade capturaram grande parte desse crescimento, enquanto empresas baseadas em modelos presenciais têm enfrentado dificuldades de adaptação. Analistas avaliam que essa diferença reflete uma transição tecnológica ampla, e não apenas uma tendência passageira.
O avanço do setor digital levou a uma resposta regulatória mais rigorosa. As autoridades introduziram exigências mais detalhadas sobre protocolos de combate à lavagem de dinheiro, verificação de clientes e padrões de publicidade. O governo também implementou uma medida que proíbe o uso de redes sociais por menores de 16 anos, como parte de um esforço para reduzir a exposição de adolescentes ao ambiente de apostas.
As penalidades também se tornaram mais severas. No início deste ano, a Tabcorp foi multada em AUD 4,6 milhões (US$ 3 milhões) por reincidência em violações das regras de jogo. Reguladores justificam essas medidas com base em indicadores crescentes de danos relacionados ao jogo, especialmente entre públicos mais jovens.
Publicidade de apostas no centro do debate
No centro do debate nacional, está a publicidade de apostas. Grupos de campanha, comissões parlamentares e organizações de saúde pública alertam que a exposição constante em transmissões esportivas ao vivo, placas de estádio, redes sociais, canais de influenciadores e plataformas de streaming tem apagado as fronteiras entre entretenimento e apostas. Críticos afirmam que essa saturação visual pode normalizar o comportamento de aposta e reforçar a percepção de que o jogo faz parte intrínseca da cultura esportiva.
Em resposta, o governo federal avalia a implementação gradual de um banimento da publicidade de apostas, o que pode incluir a suspensão de patrocínios esportivos e restrições durante transmissões ao vivo. Alguns estados já saíram na frente, impondo limites de horário para anúncios em faixas tradicionalmente voltadas a famílias e crianças.
Contudo, as propostas enfrentam forte resistência. Representantes do setor afirmam que restrições abruptas podem empurrar apostadores para sites offshore não regulamentados, que operam fora do alcance das leis de proteção ao consumidor da Austrália. Essas plataformas — alertam os críticos da proibição — não exigem verificação de identidade, não oferecem mecanismos de resolução de disputas e não pagam impostos. Já as organizações esportivas temem que a redução drástica nas receitas de patrocínio prejudique programas de base e a sustentabilidade financeira de ligas profissionais. As redes de mídia, como a Nine Entertainment, chegaram a sugerir que os contribuintes australianos poderiam ser chamados a compensar as emissoras caso o governo imponha uma proibição total dos anúncios.
O impacto do jogo problemático
Pesquisas apontam que cerca de 73% dos adultos australianos apostaram ao menos uma vez no último ano, e 38% o fazem semanalmente. A proporção de adultos que atendem aos critérios de jogo problemático varia entre 0,7% e 1% — um número aparentemente pequeno, mas com impactos significativos. Entre os jogadores mensais, os indicadores de comportamento de alto risco também estão em ascensão.
Dados mais recentes da empresa de pesquisa Roy Morgan revelam que cerca de 3,5 milhões de australianos já se enquadram nas categorias de jogadores problemáticos ou em risco, sendo que mais de 600 mil apresentam padrões de comportamento compulsivo. Os números representam um aumento de 22% em apenas um ano, com base em respostas de quase 17 mil adultos. Pesquisadores também identificaram sinais preocupantes de danos relacionados ao jogo entre menores de 12 a 17 anos, o que tem intensificado os apelos por medidas mais firmes de intervenção.
Equilíbrio nas políticas: o desafio do momento
Embora várias operadoras tenham declarado apoio ao fortalecimento das medidas de controle, muitas destacam que a formulação das políticas precisa manter o equilíbrio. Segundo elas, restrições excessivas podem desestabilizar plataformas reguladas e estimular a migração para o setor ilegal. Ainda assim, especialistas defendem que a proteção à saúde pública deve prevalecer.
Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Monica Shafaq, ex-diretora-executiva da instituição de apoio Gordon Moody, afirmou que o jogo problemático não está necessariamente ligado à frequência das apostas. Segundo ela, o problema surge quando o jogo “passa a dominar os pensamentos, decisões ou emoções de uma pessoa”.
“O jogo problemático prospera no silêncio. Quanto mais falarmos abertamente sobre o assunto, mais fácil será para as pessoas buscarem ajuda,”
– Monica Shafaq, ex-CEO, Gordon Moody
Shafaq explicou que, embora a maioria das pessoas jogue de forma social e dentro de limites claros de gasto, algumas acabam desenvolvendo uma compulsão mesmo quando relações pessoais, desempenho profissional e finanças começam a se deteriorar. “Quando o equilíbrio se perde e o jogo passa a controlar a pessoa — em vez de o contrário —, é aí que o problema se torna grave”, observou. Ela acrescentou que o vício costuma se desenvolver de maneira discreta, muitas vezes escondido pela vergonha ou pela negação, motivo pelo qual a intervenção precoce e o diálogo aberto são fundamentais.
A especialista também reconheceu a influência da exposição constante, especialmente quando o jogo é “glamourizado” ou apresentado como parte natural da cultura esportiva. “A publicidade pode, sim, exercer influência — sobretudo quando transforma o jogo em algo glamouroso ou o faz parecer parte do cotidiano do esporte e do entretenimento. A exposição contínua, principalmente entre os jovens, tende a normalizar o comportamento de aposta e a borrar a linha entre diversão e risco.”
No entanto, Shafaq ressaltou que o problema não se resume à publicidade. “Não podemos colocar toda a culpa nas campanhas. O jogo problemático existe há décadas, muito antes do nível atual de promoção. O fato é que o vício em apostas é complexo. Assim como outros tipos de dependência, ele costuma estar enraizado em fatores mais profundos — estresse, solidão, pressões financeiras, traumas ou problemas de saúde mental. Para alguns, o jogo se torna uma forma de fuga ou enfrentamento, e não apenas uma resposta a um anúncio”, explicou.
Ela defendeu que os formuladores de políticas invistam em educação, recursos de intervenção precoce e campanhas de conscientização pública. “É preciso entender que o jogo é desenhado para manter você engajado — as probabilidades nunca estão a seu favor”, alertou. “Definir limites de tempo e de dinheiro, usar ferramentas de bloqueio ou autoexclusão e fazer pausas regulares são medidas práticas que ajudam a manter o controle.”
Por fim, concluiu: “Se você perceber que está jogando para fugir de outro problema, esse é o momento de parar e procurar ajuda. O jogo problemático prospera no silêncio.”
Com a participação em alta, a publicidade cada vez mais integrada à cultura esportiva e o aumento dos sinais de risco entre os mais jovens, cresce a pressão sobre o governo em Canberra. O desafio dos legisladores será proteger os consumidores mais vulneráveis sem incentivar o uso de plataformas ilegais no exterior. À medida que as consultas avançam e o debate político ganha força, os próximos meses poderão definir se a Austrália seguirá por um caminho de reformas graduais — ou por uma revisão completa do seu sistema de jogos.
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