Autoridades federais acusam 26 pessoas em investigação sobre manipulação de resultados no basquete da NCAA e da CBA
Promotores federais dos Estados Unidos acusaram 26 pessoas de envolvimento em um esquema internacional de suborno e manipulação de resultados supostamente criado para fraudar partidas do basquete masculino da Divisão I da NCAA e jogos da Associação Chinesa de Basquete (CBA), anunciaram as autoridades americanas.
Durante uma coletiva de imprensa realizada na Filadélfia, o procurador dos EUA para o Distrito Leste da Pensilvânia, David Metcalf, apresentou as denúncias ao lado do vice-diretor do FBI, Andrew Bailey, e do agente especial responsável pelo escritório do FBI na Filadélfia, Wayne Jacobs, após uma investigação de dois anos conduzida pela agência federal.
Segundo os promotores, o esquema envolvia a corrupção do basquete universitário e profissional por meio de pagamento de propinas, estratégias coordenadas de apostas e manipulação deliberada de resultados, com o objetivo de lucrar nos mercados de apostas esportivas.
Acusações de corrupção esportiva internacional
“O que está em jogo aqui é muito maior do que qualquer valor em um bilhete de aposta”, afirmou Metcalf. “Essas acusações apontam para a corrupção criminosa do esporte universitário por meio de uma conspiração internacional envolvendo jogadores da NCAA, ex-alunos e apostadores profissionais. Isso atinge diretamente a confiança do público na integridade do esporte.”
A denúncia afirma que a conspiração foi liderada por um grupo de “fixers” (intermediários especializados em manipulação), incluindo Jalen Smith, Marves Fairley, Shane Hennen, Antonio Blakeney, Roderick Winkler e Alberto Laureano, atuando em vários estados dos EUA e em mercados de apostas no exterior.
De acordo com os promotores, o esquema teve início por volta de setembro de 2022, com foco inicial na Associação Chinesa de Basquete (CBA), onde jogadores teriam sido subornados para atuar abaixo do esperado e, assim, influenciar as linhas de apostas.
Manipulação de pontos na Associação Chinesa de Basquete
Conforme documentos apresentados à Justiça, os intermediários Fairley e Hennen recrutaram e subornaram jogadores da CBA para praticar a chamada manipulação de pontos, garantindo que suas equipes não cobrissem o spread em partidas específicas. Em seguida, apostas de alto valor eram realizadas contra essas equipes.
Um dos principais nomes do esquema seria Antonio Blakeney, um dos principais pontuadores do Jiangsu Dragons na temporada 2022–2023 da CBA. Os promotores alegam que Blakeney aceitou subornos e recrutou companheiros de equipe para participar da fraude. Em abril de 2023, Fairley teria deixado cerca de US$ 200 mil em dinheiro, referentes a pagamentos de propinas e lucros com apostas, em uma unidade de armazenamento pertencente a Blakeney, na Flórida.
Expansão para o basquete universitário da NCAA
Após supostamente lucrar com jogos manipulados da CBA, o grupo teria voltado sua atenção para o basquete masculino da NCAA, recrutando atletas universitários durante as temporadas 2023–2024 e 2024–2025.
A denúncia aponta que mais de 39 jogadores, vinculados a pelo menos 17 programas da Divisão I da NCAA, foram alvos do esquema. Ao todo, mais de 29 partidas teriam sido manipuladas ou alvo de tentativas de manipulação. Os atletas teriam recebido entre US$ 10 mil e US$ 30 mil por jogo para garantir que suas equipes não cobrissem spreads de apostas do primeiro tempo ou do jogo completo.
As autoridades afirmam que os conspiradores escolheram deliberadamente estudantes-atletas cujas oportunidades de remuneração sob as regras de Nome, Imagem e Semelhança (NIL) tornavam os pagamentos de suborno especialmente atraentes.
Milhões apostados e centenas de milhares pagos em propinas
Os intermediários teriam apostado milhões de dólares em jogos manipulados, gerando lucros expressivos. Quando as apostas eram bem-sucedidas, membros do esquema supostamente viajavam até campi da NCAA para entregar propinas em dinheiro aos jogadores envolvidos.
Se condenados, os réus podem enfrentar penas severas. A acusação de suborno prevê pena máxima de cinco anos de prisão, enquanto as acusações de fraude eletrônica e conspiração podem resultar em penas de até 20 anos de prisão, além de multas de até US$ 250 mil por acusação.
NCAA reage e pede regras mais rígidas para apostas
Em resposta à crescente preocupação com a manipulação de apostas esportivas, o presidente da NCAA, Charlie Baker, pediu que comissões estaduais de jogos de azar revisem leis e regulamentos, defendendo especialmente a eliminação de apostas individuais em desempenho (props) e de apostas consideradas de alto risco, como unders no primeiro tempo, que são particularmente vulneráveis à manipulação.
“A Associação tem e continuará a combater agressivamente violações relacionadas a apostas no esporte universitário por meio de um programa de monitoramento de integridade em múltiplas camadas, que cobre mais de 22 mil competições. Ainda assim, precisamos que os estados e reguladores restantes eliminem ameaças à integridade para proteger melhor atletas e ligas contra riscos e apostadores predatórios”, afirmou Baker em comunicado divulgado na quinta-feira.

Baker também reforçou o compromisso da NCAA com o bem-estar dos estudantes-atletas e com a integridade das competições, destacando que a entidade já iniciou ações para protegê-los, incluindo medidas contra assédio e tentativas de influência por meio de apostas. Uma carta foi enviada às comissões estaduais de jogos de azar solicitando proteções mais robustas e maior responsabilização de apostadores que assediam ou tentam influenciar atletas universitários.
Além de defender a retirada de apostas consideradas arriscadas, a NCAA também pediu fiscalização mais rigorosa e leis de apostas que reflitam um arcabouço mais sólido para a proteção da integridade do esporte universitário.
Baker confirmou que a NCAA abriu investigações envolvendo cerca de 40 estudantes-atletas, de 20 instituições, ao longo do último ano. Segundo ele, 11 atletas já perderam definitivamente a elegibilidade por apostar em seu próprio desempenho, compartilhar informações privilegiadas ou participar de manipulação de resultados.
Contexto crescente de escândalos ligados às apostas
O caso se soma a uma série de violações de alto perfil envolvendo apostas no esporte universitário. Em dezembro de 2025, a NCAA baniu permanentemente o ex-armador da Universidade de San Francisco, Marcus Williams, após investigadores constatarem que ele compartilhou informações internas e prestou declarações falsas durante uma apuração.
Recentemente, a NCAA também recuou de uma proposta que permitiria que estudantes-atletas apostassem em esportes profissionais, após forte oposição de conferências, incluindo a SEC, que alertou para o aumento dos riscos à integridade das competições.
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