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Como os dados e a IA estão moldando o futuro dos eSports – Parte I

Sudhanshu Ranjan
Escrito por Sudhanshu Ranjan
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

O setor de eSports está passando por uma transformação impulsionada pela análise de dados e pela inteligência artificial (IA). Essas tecnologias já se tornaram parte essencial do ecossistema competitivo, desde torneios de base até ligas profissionais. Segundo a The Business Research Company, o mercado global de eSports alcançou US$ 2,53 bilhões em 2024 e deve crescer para US$ 4,8 bilhões até 2025, representando uma taxa média anual de crescimento (CAGR) superior a 19%. Paralelamente, o mercado de IA aplicada aos esportes foi avaliado em US$ 7,73 bilhões em 2025 e deve atingir US$ 39,65 bilhões até 2032, com CAGR de 26,3%.

A aplicação da IA nos eSports já vai muito além do simples acompanhamento de estatísticas. Algoritmos de aprendizado de máquina analisam o comportamento dos jogadores, seus padrões de movimento e decisões em tempo real. Soluções baseadas em nuvem passaram a dominar o setor, respondendo por 55,6% da fatia de mercado da IA esportiva em 2025. A interpretação e análise de dados representam 40,6% das aplicações, evidenciando uma tendência em direção a insights de desempenho cada vez mais sofisticados e instantâneos.

O NIP Group, empresa de entretenimento digital sediada nos Emirados Árabes Unidos e apoiada pelo Abu Dhabi Investment Office (ADIO), anunciou recentemente a nomeação de Grant Rousseau como Diretor de Operações (COO) da Divisão de eSports. Rousseau atuou nos últimos dois anos como Diretor Global de eSports da Team Falcons, liderando a organização na conquista de dois títulos da Esports World Cup e expandindo o elenco da equipe para mais de 20 modalidades diferentes.

Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Rousseau compartilhou suas percepções sobre a evolução do cenário de eSports, destacando a rápida ascensão da região MENA (Oriente Médio e Norte da África) e a mudança de foco para o desenvolvimento holístico de talentos. Ele comentou ainda sobre o impacto da saturação de torneios, o potencial das Olimpíadas para legitimar os eSports, a estratégia da NIP em mercados diversos e como tecnologias emergentes, como a IA, estão redefinindo tanto o desempenho competitivo quanto a eficiência operacional.

A ascensão da MENA como potência dos eSports

SiGMA News: Como você enxerga a rápida ascensão do Oriente Médio como potência dos eSports influenciando as estruturas competitivas globais? Quais fatores, além do investimento, estão impulsionando essa transformação?

Grant Rousseau, COO da NIP Esports Division: Quando falamos da região MENA, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos são os principais protagonistas. A Arábia Saudita, com os Falcons anteriormente, e agora com o que vem fazendo com a NIP e outras equipes — com a Copa do Mundo de eSports, a Nations Cup, o desenvolvimento de jogos, a publicação de títulos —, tudo indica que o país reconhece o potencial dos jogos eletrônicos e dos eSports como um importante motor de crescimento para o PIB nacional. Esse reconhecimento mostra que eles estão dispostos a investir tudo nisso — e têm capital para isso.

Os Emirados Árabes, em parceria com a NIP, vivem um momento empolgante, pois nos permite atuar com força como uma das principais organizações de eSports do país. É muito positivo ver esse avanço lado a lado com a Arábia Saudita. Trata-se de um desenvolvimento extremamente significativo.

“Está muito claro que a região MENA reconhece os jogos e os eSports como um importante motor de crescimento para o PIB — e tem capital para sustentar esse avanço.”

– Grant Rousseau, COO da NIP Esports Division

sses países têm um clima extremamente quente. Praticar esportes tradicionais ou se envolver neles é mais difícil devido às altas temperaturas. Some-se a isso o fato de que seus povos — especialmente os sauditas e os emiratis, como aprendi — são naturalmente muito competitivos. Isso já se reflete no futebol e em outras modalidades esportivas, mostrando o quanto valorizam a competição.

Eles querem competir, mas participar diretamente de esportes tradicionais nem sempre é viável. Os eSports oferecem a possibilidade de competir em alto nível e canalizar essa energia competitiva de forma acessível a todos. É algo muito benéfico para a população, pois fornece um foco saudável e uma forma positiva de engajamento social e pessoal.

Além disso, é extremamente vantajoso para o crescimento econômico, especialmente em termos de PIB. Esses países identificaram uma indústria que podem abraçar, liderar e dominar — o que é fantástico. Mas um dos pontos mais importantes, e que raramente é discutido, é o impacto positivo que isso traz para as pessoas, para a sociedade como um todo.

Saturação e sustentabilidade dos torneios

SiGMA News: O sucesso consecutivo da Esports World Cup evidencia o crescimento dos megatorneios, mas até que ponto o atual nível de saturação de competições em diferentes títulos é sustentável? Já estamos nos aproximando de uma superexposição em algumas regiões?

Rousseau: Bem, isso varia muito de jogo para jogo. Vamos pegar alguns exemplos — como Counter-Strike ou Dota. Nos circuitos mais abertos, há realmente uma saturação significativa. Muitas organizadoras terceiras entraram no mercado e estabeleceram suas próprias competições. A maioria delas faz um trabalho excelente, com produções incríveis, o que é ótimo para o setor. Por outro lado, começamos a ver sinais de esgotamento. Há momentos em que certos grupos de produção não conseguem atrair as equipes que desejam porque há conflitos de calendário com outros torneios ou títulos.

O famoso sistema RMR do Counter-Strike é um bom exemplo de algo que ainda está sendo ajustado. Mesmo no Dota, tivemos de adaptar a rotina: nossos jogadores de Counter-Strike na NIP chegaram a passar cerca de 260 a 270 dias na estrada por ano — ou seja, quase 78% do ano em viagens. E agora ainda há a World Cup, a Nations Cup e outras competições que continuam surgindo.

Portanto, nesses dois jogos em particular, é justo dizer que há saturação. Ainda assim, mais competição nunca é algo ruim — apenas chegamos a um ponto em que é preciso escolher em quais torneios participar. E, para nós, isso não é um problema: é uma boa posição para estar.

Já nos circuitos mais fechados ou em títulos menores, não há essa superexposição. A World Cup não chegou a conflitar com outros calendários. Na prática, reunir todos os títulos em um mesmo período é um desafio, já que cada modalidade tem seu próprio ritmo.

Mas, no fim das contas, fora dois ou três jogos — como Counter-Strike e Dota —, esse aumento de competições ajudou o cenário a sobreviver, crescer e se revitalizar. Podemos citar jogos menores, como StarCraft, que provavelmente foi salvo pela Esports World Cup. Os torneios de luta também tiveram ótimos momentos. E até títulos como Rocket League, que já contavam com grandes eventos, ganharam um novo impulso. Então, o que a EWC e a Nations Cup estão fazendo é um sucesso. E, desde que exista equilíbrio nos jogos mais populares, tudo tende a ser positivo.

SiGMA News: As Olimpíadas de 2027 serão realizadas em Riade. Você gostaria de ver os eSports incluídos também em outras regiões, como América do Norte ou América do Sul?

Rousseau: Os eSports nas Olimpíadas são quase outro debate. Eu diria que a Nations Cup e as Olimpíadas oferecem experiências muito semelhantes. A diferença é que, caso as Olimpíadas realmente incluam os eSports — o que ainda pode levar algum tempo —, isso traria um nível de legitimidade que nenhuma outra iniciativa conseguiu até agora. A possibilidade de conquistar uma medalha olímpica alcançará públicos fora do universo gamer — empresas, fãs e pessoas que nunca se envolveram com eSports, mas que certamente se interessarão de alguma forma. Isso abrirá uma nova onda de audiência que os eSports tradicionais dificilmente atingiriam. E, para ser sincero, nem sempre estamos tentando alcançar esse público. 

Se passássemos todos os dias discutindo se “os eSports são um esporte ou não”, ninguém sairia ganhando. Não precisamos desse debate — mas a presença nas Olimpíadas, por si só, já elevaria o reconhecimento da modalidade a outro patamar.

Participe da SiGMA Sul da Ásia, de 30 de novembro a 2 de dezembro de 2025, em Colombo. O evento transformará a cidade no epicentro mundial do setor, reunindo 5.000 participantes, mais de 100 palestrantes e 1.000 operadores sob o mesmo teto. Com tráfego qualificado, insights estratégicos e networking de alto nível, este é o encontro onde novos mercados se abrem para novas oportunidades.