Novos detalhes vieram à tona na investigação sobre as atividades da Papara, o maior provedor de pagamentos da Turquia, acusada de criar o maior esquema de lavagem de dinheiro do país, vinculado a apostas ilegais que teriam envolvido cerca de 40 milhões de cidadãos turcos.
As acusações fazem parte de uma investigação de grande escala conduzida pelo Gabinete do Procurador-Chefe de Istambul, que pede penas de até 28 anos de prisão para o fundador da Papara, Ahmet Faruk Karslı, e outros quatro executivos. Segundo os promotores, a empresa teria facilitado grandes transferências financeiras para casas de apostas ilegais, disfarçadas como transações legítimas.
Papara teria atendido mais de 100 plataformas ilegais
Em maio, a Papara — uma das principais fintechs turcas, com cerca de uma década de operação — passou a ser o foco central de uma investigação de alto perfil. O fundador e vários executivos da empresa foram presos, e o controle da Papara foi transferido para o Fundo de Seguro de Depósitos da Turquia (TMSF). O motivo: suspeitas de envolvimento com apostas ilegais e violações das políticas de combate à lavagem de dinheiro (AML).
A Papara é licenciada pelo Banco Central da República da Turquia (CBRT) para oferecer serviços de pagamentos e moeda eletrônica, e até então era reconhecida por atuar em conformidade com padrões internacionais. Por meio das aquisições da Rebellion Pay, na Espanha, e da SadaPay, no Paquistão, a empresa expandiu sua presença para além da Turquia, alcançando milhões de usuários em diversos mercados.
Entretanto, de acordo com a denúncia — sustentada por um relatório de auditoria do CBRT —, entre 2021 e 2023, 102 sites de apostas ilegais utilizaram mais de 26 mil contas da Papara, movimentando cerca de 12 bilhões de liras turcas (aproximadamente US$ 287 milhões).
A investigação aponta que os fundos dessas contas foram transferidos para 274 contas bancárias dentro do país e, posteriormente, para cinco carteiras de criptomoedas associadas a redes de apostas ilegais. A promotoria afirma que a Papara atuou como intermediária financeira em cooperação com os chamados “barões das apostas” — termo usado na Turquia para se referir a operadores que atuam à margem da lei.
Vazamento de dados teria afetado 30 milhões de pessoas
Novos depoimentos incluídos recentemente no processo ajudam a dimensionar a amplitude da operação clandestina. Segundo uma testemunha, sites ilegais de apostas utilizam ativamente plataformas de pagamento locais para receber depósitos de jogadores e transferir fundos a operadores.
Intermediários cobrariam comissões entre 4% e 15% por cada transação, conforme divulgado pelo portal Turkiye Today. “Esse ecossistema não pode funcionar sem intermediários de pagamento locais”, afirmou a testemunha, apontando a Papara como o principal elo dessa rede.
Mesmo possuindo licenças da Agência de Regulação e Supervisão Bancária e do Banco Central da Turquia, algumas plataformas de pagamento ainda prestam serviços a redes ilegais de apostas, segundo informações da agência Milliyet.
O vazamento de dados pessoais associado ao caso é descrito como “alarmante”. A testemunha afirma que cerca de 40 milhões de jogadores participaram direta ou indiretamente do sistema ilegal, e que dados de 30 milhões de pessoas — incluindo números de identificação, informações bancárias e senhas — foram transferidos para redes criminosas sediadas na Armênia e no Reino Unido.
Faturamento anual teria ultrapassado US$ 1 bilhão
De acordo com novos depoimentos, a Papara estaria ligada a canais de apostas ilegais com faturamento anual de 50 bilhões de liras turcas, o equivalente a US$ 1,19 bilhão. A empresa foi descrita como um dos principais financiadores das operações de jogos ilegais no país.
O relatório também cita o envolvimento de um ex-funcionário do Departamento de Crimes Cibernéticos, que teria ingressado na Papara como gerente sênior de relações públicas e usado sua influência anterior para aumentar o poder de mercado da empresa.
Sob a liderança de Ahmet Faruk Karslı, a Papara teria criado uma estrutura integrada com o setor de apostas ilegais, utilizando sistemas técnicos e financeiros para lavar dinheiro proveniente do jogo.
A investigação permanece em andamento. Se a denúncia for aceita, os executivos da Papara e outros suspeitos irão a julgamento sob acusações de formação de organização criminosa, lavagem de dinheiro e violação das leis turcas de jogos de azar.
Se condenados, os réus poderão cumprir longas penas de prisão, além de serem proibidos de exercer atividades financeiras e terem seus bens confiscados.
O artigo original foi publicado em russo em 21 de outubro de 2025.
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