O mercado de jogos na África já deixou de ser apenas apostas. Em diversos países do continente, o setor vem se transformando rapidamente em uma indústria de entretenimento impulsionada por tecnologia mobile, estratégias de localização e mudanças no comportamento dos jogadores. Além disso, o segmento também começa a assumir um papel relevante como motor de atividade econômica e inovação digital.
Essa transformação está redefinindo inclusive a forma como os usuários acessam plataformas de jogos e apostas. Um dos exemplos mais claros é o crescimento dos chamados sistemas de “dados grátis” — conhecidos também como reverse billing — modelo em que as operadoras assumem os custos de internet móvel dos usuários para tornar o acesso ao gaming online mais acessível.
Esse foi um dos principais pontos destacados por Sasha Boerma, diretora comercial para África da Split The Pot, durante entrevista exclusiva concedida na conferência SiGMA Africa. Ao comentar sobre o ritmo acelerado de crescimento dos mercados africanos, Boerma explicou como a indústria de gaming evoluiu rapidamente nos últimos anos.
“Os jogos explodiram em popularidade na África”, afirmou. “Os jogos se tornaram muito mais do que apenas apostas — hoje é entretenimento.” Boerma contou ainda que, inicialmente, o conceito de reverse billing parecia totalmente ilógico até mesmo para ela. “No começo, aquilo não fazia sentido algum para mim”, admitiu. “Eu pensava: ‘Se a pessoa não consegue pagar pelos dados móveis, por que gastaria dinheiro apostando?’”
No entanto, segundo ela, o modelo se torna muito mais compreensível quando analisado sob a perspectiva da infraestrutura local e dos custos de transporte em algumas regiões africanas. “Imagine alguém vivendo em uma township onde a casa de apostas mais próxima fica a dois quilômetros de distância”, explicou. “Essa pessoa precisa gastar dinheiro com transporte apenas para comprar um voucher e fazer uma aposta. O reverse billing basicamente substitui esse custo de deslocamento ao oferecer acesso gratuito aos dados móveis.”
De acordo com Boerma, inovações desse tipo estão ajudando a transformar os jogos em um ecossistema mais amplo de entretenimento digital em todo o continente. “Isso abre um universo completamente novo de oportunidades”, afirmou, “seja para experiências peer-to-peer ou para novos conceitos de entretenimento.”
Mercado demonstra alto nível de engajamento
As declarações de Boerma acompanham novos dados da indústria que apontam para um crescimento acelerado do engajamento com jogos na África. Segundo o mais recente relatório de mercado da SiGMA Africa, baseado em dados compilados pela Blask, os mercados regulados já representam entre 85% e 90% de toda a atividade mensurável de gaming no continente, além de responderem por aproximadamente 80% a 85% da receita estimada total da indústria.
O relatório também mostrou a África do Sul liderando o continente em engajamento dos consumidores, atingindo um pico de aproximadamente 90,7 milhões no índice Blask. Tanzânia, Nigéria, Moçambique e Quênia também apareceram entre os mercados de jogos mais fortes do continente.
África não é um “mercado único”
Boerma também destacou que um dos maiores equívocos sobre a África é tratar o continente como um mercado uniforme. “Muita gente assume que ‘África é África’, mas definitivamente não é assim”, explicou. Segundo ela, o comportamento dos jogadores varia drasticamente de um país para outro, obrigando as operadoras a repensarem completamente estratégias de design, marketing e localização dos jogos.
“As empresas já fizeram os cálculos e construíram os modelos. Agora começam a explorar mercados usando tecnologias completamente novas.”
– Sasha Boerma, diretora comercial para a África, Split The Pot
Ela citou Botswana como exemplo de mercado em que as operadoras inicialmente acreditavam que as preferências dos jogadores seriam semelhantes às da vizinha África do Sul. “Nós acreditávamos nisso no começo”, disse. “Mas acabou sendo totalmente diferente. Os jogadores de Botswana gostam justamente de jogos que inicialmente considerávamos fracos porque eles não performavam bem na África do Sul.”
Já a Nigéria, segundo Boerma, funciona quase como um mercado completamente distinto. “Os nigerianos apresentam um comportamento de gaming surpreendentemente parecido com o dos jogadores dos Estados Unidos”, afirmou. “Tudo muda dependendo do mercado — visual, experiência, sons, estilo.”
Desenvolvedores continuam indispensáveis
Boerma também destacou o crescimento do setor de desenvolvimento de jogos na África do Sul, classificando os estúdios locais como altamente qualificados e, ao mesmo tempo, bastante competitivos em termos de custo. A inteligência artificial também começa a impactar o desenvolvimento de jogos, embora ela tenha alertado para os riscos de depender exclusivamente da automação.
“Se três estúdios diferentes pedirem para a IA criar um jogo com temática viking, provavelmente todos acabarão parecidos”, afirmou. “Por isso ainda é fundamental contar com desenvolvedores experientes e profissionais criativos trabalhando junto da IA.”
Apesar das incertezas envolvendo regulamentação, tributação e restrições publicitárias em diversos mercados africanos, Boerma afirmou continuar otimista em relação ao futuro do setor. “Vai haver muita mudança”, destacou. “Mas a indústria de jogos é incrível. Somos criativos, resilientes e sempre encontramos novas formas de adaptação.”
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