Uma nova pesquisa realizada nos Estados Unidos mostra que adolescentes estão sendo expostos a conteúdos relacionados a jogos de azar na internet com uma frequência sem precedentes. Redes sociais, recomendações algorítmicas e ambientes de games surgem como os principais canais dessa exposição.
O estudo, conduzido pela organização sem fins lucrativos Common Sense Media, revelou que 36% dos meninos entre 11 e 17 anos nos EUA relataram ter apostado no último ano. A pesquisa ouviu uma amostra nacionalmente representativa de 1.017 meninos e destacou que grande parte do contato com conteúdos de apostas ocorre em espaços digitais que os jovens frequentam diariamente.
Intitulado “Betting on Boys: Understanding Gambling Among Adolescent Boys” (“Apostas entre adolescentes do sexo masculino: um panorama do comportamento de jogo”), o relatório mostrou que a exposição ao jogo não se limita às plataformas tradicionais de apostas. Quase um em cada quatro meninos afirmou participar de atividades ligadas a apostas dentro de jogos eletrônicos, como loot boxes, skins cases ou mecânicas do tipo gacha, que reproduzem a lógica do jogo de azar nos videogames. A maioria desses jovens gasta dinheiro real nessas atividades.
Exposição digital e feeds algorítmicos
A prevalência do jogo cresce de forma significativa com a idade: passa de 32% entre os meninos de 11 anos que relataram ter apostado no último ano para 49% entre os de 17 anos. Essa diferença reflete padrões mais amplos do desenvolvimento adolescente, já que os mais velhos tendem a ter maior acesso a amigos, recursos financeiros e ferramentas online que podem incentivar o comportamento de aposta.

De acordo com o relatório, boa parte da exposição dos adolescentes a conteúdos sobre apostas vem de feeds algorítmicos em redes sociais e plataformas de vídeo. Entre os meninos que apostaram no último ano, 45% disseram ter visto conteúdo relacionado a jogos de azar na internet. Desses, 59% afirmaram que esse tipo de material “simplesmente começou a aparecer” em seus feeds, indicando que não o procuraram ativamente.

O estudo também apontou que meninos que veem conteúdos de apostas “às vezes ou com frequência” têm probabilidade muito maior de gastar além do planejado em jogos de azar do que aqueles que não consomem esse tipo de conteúdo. Entre os que assistem a esse material, 28% disseram ter gasto mais do que pretendiam, contra apenas 5% entre os que não tiveram essa exposição. O gasto médio anual foi de US$ 72 para quem consome conteúdo de apostas, frente a US$ 33 para quem não consome.
Além da exposição passiva por meio dos algoritmos, 24% dos meninos afirmaram que tiveram o primeiro contato com esse tipo de conteúdo por meio do compartilhamento de amigos, enquanto 14% disseram ter buscado ativamente ou seguido perfis que publicam material relacionado a apostas.
Influência de amigos e da família
O estudo da Common Sense Media também identificou o comportamento dos colegas como um fator central associado às apostas entre jovens. Meninos cujos amigos apostam regularmente apresentam uma probabilidade muito maior de também apostar: 84% deles relataram ter jogado, em comparação com apenas 17% entre aqueles cujos amigos não apostam.
O ambiente familiar também exerce influência. Um terço dos meninos que apostam declarou já ter jogado junto com membros da família, o que sugere que, em alguns lares, o jogo pode ser apresentado como algo normal ou socialmente aceitável.
Os pesquisadores observaram que meninos com amigos que apostam e aqueles expostos a conteúdos de apostas na internet tendem a gastar mais no total, apontando para uma combinação de influências sociais e algorítmicas que pode reforçar comportamentos de jogo durante a adolescência.
Saturação de publicidade nas plataformas digitais
O estudo revelou ainda que a publicidade de apostas está amplamente presente nas plataformas mais usadas por adolescentes. Cerca de 60% dos meninos entrevistados disseram ter visto anúncios de jogos de azar em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram. Apesar disso, a maioria afirmou que esses anúncios não os levaram diretamente a apostar.
Jogos como porta de entrada
Muitos adolescentes entram em contato com o jogo de azar enquanto passam tempo em mundos virtuais. Os videogames frequentemente incluem mecanismos baseados em sorte que se assemelham ao jogo tradicional. Entre eles estão as mecânicas gacha, que estimulam gastos recorrentes com retornos imprevisíveis, e as loot boxes, que oferecem recompensas aleatórias em troca de dinheiro real.

Um relatório de 2025 da TrustPlay, plataforma de avaliação de marketplaces e serviços de games, ouviu 1.530 jogadores sobre suas experiências com sites de apostas envolvendo skins de terceiros. O levantamento mostrou que 47,1% dos jogadores que possuíam itens negociáveis dentro dos jogos, como skins, os utilizaram para apostar em jogos de estilo cassino ou em apostas de eSports. Além disso, 43,5% desses apostadores começaram antes dos 18 anos, alguns com apenas 13 anos.
A pesquisa da TrustPlay também indicou que 79,4% dos apostadores com skins apresentavam ao menos um marcador comportamental associado ao jogo problemático clínico, como tentar recuperar perdas (chasing losses) ou precisar apostar skins cada vez mais valiosas para obter o mesmo nível de excitação.
Essa alta incidência de comportamentos problemáticos entre jovens envolvidos com apostas por meio de skins sugere um caminho que vai das mecânicas baseadas em sorte dentro dos jogos — incluindo sistemas semelhantes às loot boxes — para atividades mais amplas de apostas.
Preocupações psicológicas e comportamentais
O relatório também analisou os impactos comportamentais associados ao jogo. Entre os meninos que relataram ter apostado no último ano, mais de um em cada quatro afirmou ter vivenciado estresse ou conflitos relacionados às apostas, especialmente entre os que jogam com frequência e aqueles cujos amigos também apostam. Ainda assim, a maioria negou ter sofrido danos graves.
Outro estudo, publicado pela Springer Nature Link sobre apostas na adolescência, mostra que os meninos, em geral, apresentam níveis mais altos de comportamentos problemáticos relacionados ao jogo. Fatores como idade, desempenho escolar e ambiente familiar estão associados a desfechos psicológicos, sociais e financeiros negativos. Isso reforça os riscos potenciais do jogo entre menores de idade, que podem não ser plenamente captados apenas por pesquisas baseadas em autorrelato.
Essas conclusões surgem em um momento de maior atenção regulatória em diversos países sobre publicidade de apostas, loot boxes e outros recursos baseados em sorte, especialmente em contextos nos quais menores de idade podem ser expostos. À medida que plataformas digitais, redes sociais e videogames se tornam cada vez mais integrados, o estudo se alinha a um foco mais amplo das políticas públicas em compreender e enfrentar as formas pelas quais os jovens entram em contato com conteúdos relacionados a jogos de azar nos ambientes online que utilizam diariamente.
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