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Após a Venezuela, mercados de previsão observam o próximo movimento de Trump

Neha Soni
Escrito por Neha Soni
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

A atividade nos mercados de previsão disparou após a operação dos Estados Unidos na Venezuela, com traders mudando rapidamente o foco para onde a agenda de política externa do presidente norte-americano Donald Trump pode se voltar em seguida.

Plataformas como Kalshi e Polymarket registraram um aumento expressivo em contratos ligados a possíveis escaladas geopolíticas envolvendo os EUA, incluindo cenários relacionados à Groenlândia, ao Canal do Panamá e até a ações militares em outras partes da América Latina.

Em entrevista à SiGMA News, o veterano diretor de sportsbook de Nevada, Robert Walker, afirmou que essas mudanças rápidas refletem mais um movimento especulativo do que uma capacidade real de previsão. “Seja [o presidente Nicolás] Maduro na Venezuela, o Canal do Panamá ou a Groenlândia, esses mercados não estão ‘prevendo’ nada no sentido tradicional; eles apenas refletem um impulso especulativo movido por manchetes — e, muitas vezes, essas manchetes acabam sendo antecipadas por pessoas com informação privilegiada.”

Contratos sobre Groenlândia e Panamá ganham tração

Na Kalshi, traders elevaram significativamente as probabilidades associadas a vários desfechos geopolíticos de grande repercussão nos últimos dias. Dados recentes de preços mostram uma mudança acentuada no sentimento do mercado ao longo da última semana. Na plataforma, a probabilidade implícita de Trump “retomar o controle do Canal do Panamá” subiu de pouco menos de 30% na semana passada para cerca de 36,6%, sinalizando uma confiança crescente entre os traders. Analistas, no entanto, alertam que altas de preço costumam refletir negociações guiadas por manchetes, e não avaliações fundamentadas da realidade política.

Outro mercado da Kalshi, que pergunta “Os EUA assumirão o controle de alguma parte da Groenlândia?”, avançou ainda mais rapidamente. As chances de os Estados Unidos assumirem o controle de qualquer parte do território saltaram de aproximadamente 33% para quase 41,8% no mesmo período, reforçando o interesse especulativo elevado em cenários de expansão geopolítica americana.

(Fonte: Polymarket)

Movimento semelhante é observado na Polymarket, plataforma de previsão baseada em blockchain que permite apostas em resultados binários de eventos do mundo real. As probabilidades para “Trump vai adquirir a Groenlândia antes de 2027?” subiram para cerca de 15%, ante aproximadamente 6% na semana anterior. A Polymarket também oferece contratos como “Os EUA vão assumir o Canal do Panamá antes de 2027?”, refletindo o crescente interesse especulativo em ativos territoriais e estratégicos.

Mercados ligados à Venezuela atraem milhões em volume

O aumento ocorre após um período de negociações intensas em mercados relacionados à Venezuela, depois que a Polymarket abriu contratos permitindo que usuários especulassem sobre um eventual engajamento militar dos EUA e a remoção do presidente Nicolás Maduro.

À medida que as tensões aumentaram, traders direcionaram milhões de dólares para mercados ligados à saída de Maduro do poder e a uma possível intervenção norte-americana. Em diversos contratos, as probabilidades implícitas saltaram de níveis de um dígito para mais de 99% em questão de horas, após a operação se tornar pública.

Walker comentou: “Veja o caso da captura de Maduro: um trader anônimo transformou cerca de US$ 32 mil em mais de US$ 400 mil ao apostar em um resultado que o resto do mercado avaliava com menos de 10% de probabilidade.”

(Fonte: Truth Social)

Mercados relacionados a um engajamento militar entre EUA e Venezuela foram negociados praticamente como certeza, com volumes variando de aproximadamente US$ 926 mil a quase US$ 3 milhões, evidenciando a profundidade de liquidez direcionada a mercados de previsão geopolítica.

Em contraste, cenários mais extremos, como uma invasão formal dos EUA ou uma declaração oficial de guerra, continuaram sendo negociados com probabilidades relativamente baixas, geralmente entre 2% e 9%. Mercados auxiliares ligados a apreensões marítimas, esforços de combate ao tráfico de drogas e atividades de transporte vinculadas à Venezuela oscilaram entre 50% e 66%, sugerindo expectativas de ações contínuas, porém limitadas.

Questionamentos sobre apostas em conflitos

A Polymarket já havia chamado atenção anteriormente por listar mercados ligados a conflitos armados. Em novembro de 2025, a plataforma abriu contratos permitindo apostas sobre a probabilidade de um confronto militar entre Índia e Paquistão após um atentado com carro-bomba perto do Forte Vermelho, em Déli.

“Em um ambiente peer-to-peer, [essas plataformas de previsão] se preocupam com volume e movimentação financeira, não com integridade.”

– Robert Walker, veterano diretor de apostas de Nevada

Alguns pesquisadores argumentam que esses mercados refletem sentimento especulativo, e não previsões relevantes. “Quando as pessoas começam a apostar em guerras, perde-se de vista o custo humano envolvido”, afirmou Ananay Jain, especialista em políticas públicas e direito dos jogos da Grant Thornton Bharat LLP, em declaração anterior à SiGMA News.

Walker alerta que o problema vai muito além da geopolítica. “Essas plataformas estão buscando aceitar apostas em temas como portais de transferência de atletas universitários, que são absolutamente férteis em informação privilegiada.”

Uma aposta de US$ 30 mil vira um ganho de US$ 400 mil

A pressão regulatória aumentou após revelações de que uma conta recém-criada na Polymarket fez apostas significativas sobre a saída de Maduro pouco antes da operação dos EUA. Para Walker, essa atividade expõe profundas assimetrias de informação, e não uma suposta sabedoria do mercado. “As apostas finais foram feitas às 21h58 (horário do leste) de sexta-feira, poucas horas antes de a operação dos EUA se tornar pública. Isso não é uma ‘previsão’. É um vazamento.”

No fim de dezembro de 2025, a conta apostou mais de US$ 30 mil em contratos que previam que Maduro estaria fora do cargo até 31 de janeiro de 2026, quando a probabilidade implícita era de cerca de 5,5%. Após a captura de Maduro e de sua esposa em sua residência, o trader faturou US$ 436.759,61, obtendo um lucro superior a US$ 400 mil em menos de uma semana — um retorno de mais de 1.200%.

(Fonte: Polymarket)

Agora, a Polymarket enfrenta críticas de traders após se recusar a liquidar milhões de dólares em apostas ligadas a uma suposta invasão dos EUA à Venezuela, alegando que a captura de Maduro não se enquadra na definição de invasão adotada pela plataforma. No centro da controvérsia está o fato de que, apesar de forças americanas terem capturado Maduro em uma operação militar surpresa, a Polymarket decidiu que o evento não atendia aos termos contratuais que caracterizam uma invasão.

Preocupações com uso de informação privilegiada

A controvérsia envolvendo a Polymarket reacendeu preocupações sobre o uso de informação privilegiada em plataformas de previsão. Analistas apontaram comportamentos incomuns on-chain, incluindo compras concentradas feitas por carteiras recém-criadas focadas exclusivamente em mercados ligados à Venezuela. Walker afirmou: “Em eventos geopolíticos de alto impacto como esse, alguém sempre sabe antes — e essa informação está sendo usada para se antecipar ao resto do mercado.”

O empreendedor e investidor Joe Pompliano também alimentou o debate ao escrever nas redes sociais que “o uso de informação privilegiada não apenas é permitido em mercados de previsão; ele é incentivado”, comentário que ganhou ampla repercussão.

Walker acrescentou ainda que “a NCAA já classificou esses contratos como ‘absolutamente inaceitáveis’, porque eles transformam em jogo decisões privadas de estudantes — decisões que técnicos, colegas de equipe e familiares conhecem semanas antes do público”.

Avanço regulatório nos Estados Unidos

Diante desse cenário, o deputado federal Ritchie Torres, democrata de Nova York, anunciou planos para apresentar o Public Integrity in Financial Prediction Markets Act of 2026. A proposta legislativa proibiria membros do Congresso, indicados políticos e funcionários do Poder Executivo de negociar contratos de mercados de previsão ligados a resultados políticos ou ações governamentais quando tiverem acesso a informações não públicas.

Walker acredita que “os legisladores finalmente despertaram” por causa das “apostas envolvendo Maduro”. Segundo ele, “o projeto busca proibir funcionários e autoridades federais de usar informações relevantes e não públicas para apostar em desfechos políticos. Se as plataformas não se autorregularem, o governo terá de fazer isso por elas”.

Enquanto isso, o CEO da Kalshi, Tarek Mansour, vem usando a atual controvérsia sobre informação privilegiada para traçar uma linha clara entre o modelo regulado da Kalshi e os mercados de previsão offshore, além de declarar apoio explícito ao novo projeto de lei dos EUA que restringiria a atuação de agentes governamentais nessas plataformas.

Nos Estados Unidos, os mercados de previsão estão sob a supervisão regulatória da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), já que muitos desses mercados operam de forma semelhante a contratos futuros ou de opções, considerados derivativos. Walker conclui com ironia: “Talvez a CFTC regule isso. Brincadeira.”

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