Materiais internos revisados pela Reuters indicam que a Meta estimou que até cerca de 10% de sua receita anual poderia vir de publicidade relacionada a golpes e produtos proibidos. A empresa contesta esse número e afirma ter intensificado suas ações de fiscalização. Enquanto isso, uma onda de ações judiciais e regulatórias — dos Estados Unidos ao Brasil, passando por Malásia, Índia e Romênia — mostra que governos estão cada vez menos dispostos a tolerar a demora na remoção de conteúdos quando o jogo ilegal e as fraudes se espalham pelas plataformas sociais.
Documentos apontam a dimensão do problema
Segundo uma investigação da Reuters, avaliações internas da própria Meta desenharam um quadro preocupante. Documentos da empresa, datados entre 2021 e 2025, estimavam que anúncios de “alto risco” — associados a golpes — alcançavam usuários em escala massiva, chegando a cerca de 15 bilhões de impressões por dia. Em determinado momento, a companhia projetou que cerca de 10% de sua receita anual (aproximadamente US$ 16 bilhões) estariam vinculados a publicidade de golpes e outros bens proibidos. Um documento separado, de final de 2024, mencionava US$ 7 bilhões de receita anualizada vinda dessa categoria. A Meta afirmou posteriormente à Reuters que o número real seria menor e que as estimativas tinham como objetivo validar investimentos em integridade, não autorizar abusos.
A Reuters também relatou que apresentações internas discutiam os dilemas da gestão: reduzir anúncios fraudulentos impactaria negativamente as vendas no curto prazo, enquanto não agir poderia gerar multas regulatórias consideradas “certas” — estimadas em até US$ 1 bilhão, bem abaixo do valor da receita potencialmente ligada a anúncios de risco. A empresa reagiu dizendo que combate fraudes de forma agressiva e que reduziu em 58% o número de denúncias de anúncios fraudulentos feitas por usuários nos últimos 18 meses. Segundo a Meta, mais de 134 milhões de conteúdos fraudulentos já foram removidos somente em 2025.
Tribunais e reguladores apertam o cerco
Esses documentos vieram à tona em meio à crescente pressão em várias jurisdições, especialmente no que diz respeito à publicidade de jogos de azar e “cassinos sociais”, que, segundo críticos, confundem a linha entre entretenimento e apostas sem regulamentação.
Nos Estados Unidos, um tribunal federal da Califórnia autorizou recentemente a continuidade de ações coletivas contra Apple, Google e Meta relacionadas a aplicativos de estilo cassino. Em uma decisão de 37 páginas, emitida em 30 de setembro, o juiz Edward Davila rejeitou a principal defesa baseada na Seção 230, argumentando que as empresas não atuavam apenas como “editoras” ao processar pagamentos e facilitar o marketing desses aplicativos.
Na América Latina, o cerco também se fecha. Em julho, a Procuradoria-Geral da República do Brasil deu à Meta 48 horas para remover anúncios de operadores de apostas não autorizados, com base no marco regulatório nacional que limita as apostas de quota fixa a empresas licenciadas com domínios “.bet.br”. A ordem seguiu uma decisão histórica do Supremo Tribunal Federal, que tornou as plataformas responsáveis por conteúdos pagos ilegais, a menos que provem remoção imediata.
Na Malásia, o governo acusou a Meta de demorar na remoção de conteúdo ilegal, destacando que, até 19 de setembro, de 168.774 solicitações de retirada enviadas ao Facebook, cerca de 120.000 estavam relacionadas a jogos ilegais, e milhares de publicações sinalizadas ainda permaneciam ativas. Autoridades afirmam que a lentidão expõe usuários a golpes e causa prejuízos que já ultrapassam MYR 248 milhões desde 2023. Novas regras agora exigem que as plataformas sociais possuam uma licença de Provedor de Serviço de Aplicação (ASP) e cumpram um código de conduta no âmbito da campanha “Internet Segura”.
Na Índia, a Diretoria de Execução (Enforcement Directorate) convocou Google e Meta como parte de uma investigação sobre redes de apostas ilegais, lavagem de dinheiro e transmissões não licenciadas da IPL (Indian Premier League). As autoridades afirmam que espaços publicitários premium e promoção social ajudaram aplicativos de apostas a crescer rapidamente. A investigação rastreou transações por meio de empresas de fachada e canais de hawala, congelando centenas de crores em ativos.
Na Romênia, o órgão regulador de jogos ONJN notificou formalmente Meta e Google após identificar anúncios pagos de operadores proibidos veiculados no Facebook, Instagram, Messenger e Google Search. O regulador alertou sobre possíveis multas, confisco de receitas e exigiu informações detalhadas sobre contas e medidas de monitoramento mais rigorosas.
Governos agora definem a responsabilidade das plataformas não apenas como moderação de conteúdo, mas como participação ativa em um funil comercial. As ações da Califórnia argumentam que Apple, Google e Meta foram mais do que simples hospedeiras, citando destaque de aplicativos nas lojas, segmentação de anúncios voltada a “baleias” (grandes apostadores) e o processamento de pagamentos de fichas dentro dos apps. No caso brasileiro, a ilegalidade é definida em nível de domínio e licença, o que torna a conformidade mais objetiva. Já a abordagem da Malásia mede a eficácia pelas consequências — quantas publicações sinalizadas permanecem online e por quanto tempo.
A Meta, por sua vez, declarou à Reuters que investe pesadamente em segurança, não deseja conteúdos fraudulentos em suas plataformas e que mudanças de política já reduziram significativamente os casos relatados pelos usuários.
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