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Reino Unido é alertado sobre cassinos de criptomoedas que driblam proteções do GamStop

David Gravel
Escrito por David Gravel
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

No Reino Unido, muitos apostadores que acreditavam ter dado um fim à sua relação com o jogo estão retornando por meio de cassinos que aceitam apenas criptomoedas e que operam fora do GamStop. Desde sua criação em 2018, o GamStop se tornou um dos pilares da política britânica de jogo responsável. No entanto, operadoras offshore não licenciadas continuam explorando brechas, atraindo jogadores vulneráveis com a promessa de acesso anônimo. Especialistas do setor e ativistas alertam que, se não houver ação para fechar a “brecha dos cassinos cripto fora do GamStop”, o programa corre o risco de perder sua eficácia protetiva.

O alcance limitado do GamStop

O GamStop é obrigatório para todos os operadores licenciados pela Comissão de Jogos do Reino Unido (UKGC). Ao se registrar, o jogador não pode acessar nenhum site ou aplicativo de apostas licenciado no Reino Unido durante o período de autoexclusão escolhido.

De acordo com dados de 2025, o programa já conta com quase 600 mil registros ativos, com um aumento de 31% entre jogadores abaixo dos 25 anos no segundo semestre de 2024, seguido de um salto de 44% no primeiro semestre de 2025. Esses números demonstram por que a brecha dos cassinos cripto é particularmente perigosa para o público mais jovem. A UKGC também divulgou dados detalhados sobre restrições aplicadas pelos próprios jogadores, como limites de depósito e autoexclusão, reforçando a demanda crescente por mecanismos de proteção.

Mas o alcance do GamStop termina nas fronteiras do país. Cassinos baseados em criptomoedas e registrados em jurisdições de regulamentação branda, como Curaçao, não têm obrigação de aderir ao sistema.

Essas plataformas operam em uma zona cinzenta legal: acessíveis aos britânicos, mas sem autorização formal pela Gambling Act. Ao aceitarem tráfego do Reino Unido e operarem sem supervisão da UKGC, contornam completamente as salvaguardas do GamStop.

Como o anonimato no blockchain favorece recaídas

O anonimato proporcionado pela tecnologia blockchain representa outro risco. Enquanto sites licenciados exigem processos de KYC (conheça seu cliente), muitos cassinos cripto ignoram essa etapa, permitindo que jogadores abasteçam contas com carteiras digitais pseudônimas. Isso abre a possibilidade de que alguém autoexcluído pelo GamStop crie uma nova conta e volte a apostar sem ser identificado.

Diferentemente dos métodos tradicionais de pagamento, as carteiras de criptomoedas não exigem dados pessoais para serem abertas. Basta baixar um aplicativo, gerar um endereço – uma sequência de letras e números – e transferir fundos de imediato. Como esses endereços não estão vinculados a nomes ou documentos verificados, os cassinos não conseguem cruzá-los com o banco de dados do GamStop. Na prática, cada carteira criada equivale a uma nova identidade.

Casos reais e riscos documentados

Esses riscos já se materializaram. Um relatório do FinTelegram revelou que um jogador britânico perdeu mais de £20 mil em um cassino cripto poucos meses após aderir à autoexclusão, sem qualquer possibilidade de recuperação do valor.

Estudos acadêmicos apontam a mesma preocupação: uma análise de 40 cassinos exclusivos de criptomoedas mostrou que apenas 60% ofereciam algum tipo de ferramenta de autoexclusão, e nenhum exigia verificação de identidade no cadastro. Pesquisas da Universidade de Bristol destacaram que plataformas populares como Freshbet e Goldenbet não possuíam mecanismos formais de autoexclusão nem solicitavam verificação de identidade. As conclusões reforçam como esses cassinos conseguem driblar as proteções oferecidas pelo GamStop.

O tamanho do setor também preocupa: em 2024, o jogo com criptomoedas movimentou mais de US$ 81 bilhões em receita bruta, cinco vezes mais do que em anos anteriores. Esse crescimento exponencial explica a falta de incentivo das operadoras em adotar salvaguardas voluntárias.

Alguns exemplos ilustram a questão. O Rolletto, por exemplo, aceita depósitos em criptomoedas, mas não aparece na lista de operadores licenciados pela UKGC e, portanto, não é obrigado a integrar o GamStop. Na prática, qualquer jogador autoexcluído pode criar uma conta e apostar livremente usando criptomoedas.

O resultado é a erosão das políticas de jogo responsável e também das regras de combate à lavagem de dinheiro (AML). O processamento de pagamentos adiciona outra camada de opacidade: alguns provedores chegam a mascarar transações de jogo com códigos de estabelecimentos não relacionados, dificultando a fiscalização. Pesquisadores também apontam o uso de estruturas de licenciamento white label, que permitem que plataformas como a Rollbit operem de forma indireta, sem supervisão, complicando ainda mais a aplicação da lei.

Limites legais e pressão regulatória

Um porta-voz do escritório Wiggin LLP explicou à SiGMA News que os poderes de fiscalização da UKGC enfrentam limites claros de jurisdição:

“A Gambling Act possui restrições territoriais, o que significa que as capacidades de aplicação da UKGC contra operadores offshore não licenciados são limitadas.”

“O regulador já tomou medidas proativas para enfrentar o problema, como ordens de cessar e desistir, notificações de bloqueio e pedidos de remoção ao Google. O trabalho com processadores de pagamento para combater o mercado ilegal é contornado, claro, pelos operadores de cripto.”

“Além disso, temos visto a UKGC começar a mirar fornecedores de jogos que licencia quando identifica que seus conteúdos aparecem em sites não autorizados.”

O porta-voz também ressaltou que, embora a legislação contra lavagem de dinheiro seja fundamental, ela não pode ser usada como barreira para impedir que jogadores autoexcluídos voltem a apostar:

“O arcabouço de AML não é uma ferramenta para impedir jogadores autoexcluídos. Não existe exatamente uma brecha.”

“Operadores licenciados precisam observar o GamStop; já os não licenciados, não. A comunidade regulatória tem grande dificuldade em lidar com esse problema, devido à instalação desses operadores no exterior.”

“Um passo claro seria proibir a publicidade dos sites ‘Not-On-GamStop’, que ainda podem ser encontrados facilmente em buscas no Google. As plataformas precisam agir mais nesse ponto.”

Os dados confirmam o desafio: desde a última primavera, a UKGC já emitiu 287 notificações formais, mas os cassinos cripto continuam escapando do cerco.

Limites regulatórios e impacto nos jogadores

Até a própria indústria reconhece o impasse. Os reguladores só conseguem ir até certo ponto. Cassinos offshore ficam fora do alcance da UKGC, os bancos não conseguem rastrear transações feitas por carteiras de criptomoedas, e ferramentas de bloqueio como o Gamban só funcionam se os usuários realmente as instalarem. Muitos sequer sabem que essas ferramentas existem.

Especialistas em jogo responsável alertam que o impacto humano é igualmente urgente.

“Existe o risco de que muitos dos cassinos de criptomoedas operem sem regulamentação e, portanto, não tenham qualquer associação ou mensagem ligada ao GamStop ou a outros serviços de autoexclusão existentes”, afirmou Adrian Sladdin, diretor do Ethical Gambling Forum.

“Em algumas pesquisas que tenho conduzido recentemente, descobri que muitos sites ilegais de apostas são difíceis de diferenciar dos licenciados. Isso representa um risco inerente: jogadores que tentam se autoexcluir podem acabar voltando para o jogo sem perceber, caso não tenham cuidado.”

Sladdin acrescentou: “É como se as comportas fossem reabertas sem culpa do jogador. Se já existe uma frustração acumulada, a remoção de barreiras ao jogo pode levar a comportamentos problemáticos, resultando em perdas financeiras significativas. E o impacto não atinge apenas o jogador, mas também todo o círculo familiar próximo.”

Ele também observou que, embora ferramentas como o Gamban funcionem contra sites regulados, elas não conseguem cobrir todo o espectro de jogos disponível online.

“O jogador precisa realmente querer parar de jogar para que essas ferramentas funcionem”, disse. Segundo Sladdin, muitos autoexcluídos acabam descobrindo cassinos de criptomoedas não regulamentados na dark web. “Leva muito pouco tempo para encontrar esses sites de apostas.”

A tecnologia pode fechar a lacuna?

Apesar dos riscos, há quem veja na tecnologia uma possível solução. Defensores do blockchain argumentam que a mesma tecnologia que hoje impulsiona o jogo anônimo pode, no futuro, reforçar a segurança. Os primeiros testes com estruturas de identidade descentralizada (DID) — credenciais digitais armazenadas em blockchain, em vez de empresas individuais — indicam um caminho promissor.

Na prática, um jogador poderia ter uma única identidade criptograficamente segura que comprovaria sua maioridade ou registro no GamStop, sem precisar compartilhar dados pessoais com cada operador. Em vez de enviar nomes ou cópias de documentos, o sistema forneceria uma prova de conhecimento zero (zero-knowledge proof) confirmando o status.

Se vinculada a um registro nacional de autoexclusão, essa credencial poderia bloquear automaticamente o acesso a cassinos de criptomoedas no nível da própria carteira. Diferente dos sistemas atuais, em que cada cassino mantém seu próprio banco de dados, um DID criaria uma credencial digital universal válida em todas as plataformas.

Testes recentes de empresas como a Sedicii mostram que a verificação de idade baseada em provas de conhecimento zero (ZKP) já está sendo aplicada, permitindo comprovar a idade de um jogador sem revelar informações adicionais. Defensores acreditam que o ZKP pode se tornar uma medida de segurança de curto prazo, embora sua adoção ainda seja limitada na indústria de jogos.

O maior desafio é a adesão. Nenhum regulador exige atualmente o uso de DID no setor, e operadores offshore dificilmente implementarão, por conta própria, ferramentas que restrinjam sua base de clientes. Isso deixa a identidade digital via blockchain mais como uma promessa de longo prazo do que uma solução imediata — eficaz no papel, mas, segundo especialistas, ainda distante e incapaz de substituir reformas regulatórias urgentes.

Respostas em análise na política pública

A pressão sobre formuladores de políticas está crescendo. Consultas realizadas no Reino Unido sobre “apostas de alto risco na era digital” destacaram os cassinos de criptomoedas como uma preocupação crescente e defenderam a modernização das proteções de autoexclusão. Entre as propostas estão softwares de bloqueio pré-instalados e a ampliação das obrigações do GamStop, além de maior rigor sobre pagamentos em criptomoedas.

Paralelamente, a UKGC deve implementar novas regras em 31 de outubro de 2025, incluindo limites obrigatórios de depósito e exigências adicionais de transparência. Embora não tratem diretamente dos cassinos de criptomoedas, as medidas mostram que os reguladores buscam ampliar a proteção aos jogadores.

O desafio, porém, é global. Na Austrália, ferramentas nacionais de bloqueio voluntário tiveram baixa adesão. Já a Holanda endureceu suas regras, exigindo que todos os operadores — inclusive os de cripto — se registrem no esquema de exclusão CRUKS, fechando brechas que ainda permanecem abertas no Reino Unido.

Até julho de 2025, o CRUKS já havia ultrapassado a marca de 100 mil autoexclusões, com todos os operadores vinculados ao DigiD para verificação, criando um sistema universal e obrigatório de exclusão que poderia servir de referência para o Reino Unido.

Sem avanços concretos, ativistas alertam que os cassinos de criptomoedas continuarão atraindo justamente os jogadores que o GamStop foi criado para proteger. Sem medidas rápidas para forçar sua integração ao GamStop e implantar bloqueios universais, os progressos alcançados pelo Reino Unido na autoexclusão podem retroceder — deixando os jogadores vulneráveis expostos a operadores offshore predatórios.

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