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Allwyn enfrenta pressão regulatória após relatório da GambleAware sobre a Loteria Nacional

David Gravel
Escrito por David Gravel
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Mais de 600 mil pessoas com comportamento de jogo problemático participam semanalmente da Loteria Nacional do Reino Unido — uma escala que, segundo o novo relatório da GambleAware sobre a Loteria Nacional, representa um risco regulatório e comercial crescente para a operadora Allwyn UK. Baseado em uma pesquisa nacional com mais de 18 mil adultos, o estudo aponta um apoio público esmagador por mensagens mais fortes de redução de danos: 74% querem alertas nos bilhetes e raspadinhas, e 69% defendem orientações mais claras nas propagandas.

A GambleAware, principal entidade beneficente dedicada à redução de danos relacionados ao jogo no Reino Unido, está pedindo que a Allwyn UK inclua informações de apoio diretamente em seus produtos e campanhas. Apesar de seu amplo alcance e da confiança pública conquistada, a Loteria Nacional não direciona seus jogadores para serviços como a Linha Nacional de Apoio ao Jogador, algo que já é comum em outras loterias beneficentes. Como mostra uma matéria da SiGMA News sobre os 30 anos da Loteria, a percepção pública sobre seu papel e seu potencial de causar danos está mudando rapidamente.

GambleAware pressiona Allwyn por mudanças imediatas

Embora a Loteria financie setores como arte, patrimônio e esportes, críticos argumentam que esses benefícios não justificam o aumento dos danos, sem que existam proteções equivalentes. Segundo o relatório, 84% da população reconhece a Loteria Nacional como uma forma de jogo, desafiando a visão histórica de que se trata apenas de uma brincadeira inofensiva.

Quase metade dos entrevistados (46%) discorda da ideia de que os produtos lotéricos são inofensivos. Os dados revelam taxas significativamente mais altas de jogo problemático entre determinados tipos de jogadores:

  • 3,9% entre compradores de bilhetes tradicionais
  • 7,7% entre jogadores de raspadinhas
  • 8,2% entre usuários de jogos instantâneos online

Esse dado final indica uma conexão crescente entre formatos digitais gamificados e comportamentos de maior risco. Ao extrapolar para a população do Reino Unido, isso pode representar mais 500 mil jogadores sendo afetados por danos relacionados ao jogo.

Relatos pessoais incluídos no estudo escancaram o impacto humano da questão. Uma mulher em processo de recuperação contou que gastou £450 em raspadinhas durante uma recaída. Outra relatou ter passado uma semana sem se alimentar adequadamente após usar todo o dinheiro das compras em jogos online.

“Fiquei sem dinheiro para comprar comida porque gastei o que tinha com raspadinhas.”

— Participante da pesquisa, relatório GambleAware

Resposta regulatória ao relatório da GambleAware

A Loteria Nacional ainda é exceção no que diz respeito à sinalização de apoio ao jogador. Outras loterias beneficentes e de apostas incluem mensagens mais claras apontando para serviços de ajuda, mas o produto de jogo mais amplamente utilizado no Reino Unido ainda não cumpre esse padrão. Ao contrário da maioria dos operadores, a Loteria Nacional ainda não atingiu o nível mínimo de proteção ao jogador — uma lacuna cada vez mais insustentável no cenário regulatório atual.

Em 2022, o Comitê de Cultura, Mídia e Esporte recomendou mensagens mais rigorosas de prevenção. A recomendação foi ignorada.

Desde a transição da Camelot para a Allwyn em 2024, as expectativas públicas vêm aumentando. Embora a Allwyn afirme que “a segurança dos jogadores é nossa principal prioridade”, a ausência de informações visíveis de apoio tem gerado críticas. Antes de deixar a operação, a Camelot foi multada por ter direcionado campanhas a consumidores vulneráveis durante períodos de autoexclusão. A multa de £3,15 milhões em 2022 agora serve como alerta direto à nova operadora. Após a penalidade, a Camelot adotou filtros mais rígidos de alcance e passou por uma auditoria que redefiniu sua abordagem à proteção do consumidor.

A Allwyn reforça seu compromisso com o jogo responsável, destacando investimentos contínuos em salvaguardas ao jogador e treinamentos para varejistas. No entanto, ativistas alegam que a ausência de alertas diretamente nos produtos representa uma falha crítica. Isso ocorre em um cenário de desempenho comercial sólido, com a Allwyn registrando receita de €2,24 bilhões no primeiro trimestre, levantando questionamentos sobre o equilíbrio entre crescimento e responsabilidade.

Embora esteja sujeita a um marco regulatório próprio, a Loteria Nacional frequentemente escapa ao mesmo rigor aplicado a outros produtos de aposta — uma diferença que agora está sendo amplamente questionada. A próxima fase da revisão da Lei de Jogos deve abordar práticas de marketing, rotulagem e sinalização, colocando também as loterias no centro desse debate.

A Loteria Nacional é regida por sua própria legislação — o National Lottery Act — e não pela Lei de Jogos, sendo regulada separadamente pela Comissão de Jogos do Reino Unido. A Allwyn afirma que “os jogos da Loteria Nacional são muito diferentes daqueles oferecidos pelo setor de jogos em geral”, defendendo que essa distinção justifica abordagens regulatórias e preventivas diferenciadas.

Em nota enviada à SiGMA News, um porta-voz da Allwyn declarou:

“Sinalizamos uma variedade de serviços de apoio ao jogador em nosso site, comunicações, produtos e materiais de marketing. Todos os bilhetes de raspadinhas e jogos por sorteio trazem informações do GamCare e da Linha Nacional de Apoio, operada pelo GamCare e financiada pela GambleAware.”

“Além disso, também mencionamos o GamSTOP e o GamBan em nosso site, com links diretos para uma página dedicada ao ‘jogo responsável’, que reúne detalhes de outros 11 serviços de apoio, incluindo a GambleAware.”

“O jogo responsável na Loteria Nacional já gerou enormes benefícios sociais no Reino Unido, com £50 bilhões arrecadados para Boas Causas desde 1994. Continuaremos colaborando com a GambleAware por meio do nosso compromisso anual de £1,6 milhão para apoiar pesquisas, tratamento e prevenção dos danos relacionados ao jogo.”

Marketing sob crítica e exposição infantil

Críticos também levantaram preocupações sobre o marketing da Loteria, especialmente no que diz respeito ao público jovem. Já foram lançadas raspadinhas com apelos como:

  • Aroma de chocolate
  • Sons musicais
  • Temática de etiquetas de presente para o Natal

Segundo a GambleAware, esses formatos borram a linha entre o jogo e a brincadeira — especialmente para crianças. Pesquisas anteriores mostram que dois em cada cinco jovens já viram publicidade da Loteria Nacional. A exposição precoce está associada a maior risco de danos futuros relacionados ao jogo — o chamado “efeito porta de entrada”. Aqueles em recuperação muitas vezes relatam que seu primeiro contato com o jogo foi por meio da Loteria.

A Allwyn afirma que todos os jogos passam por avaliação rigorosa de risco com ferramentas como Gamgard e ASTERIG, para garantir que não atraiam públicos vulneráveis. A empresa também ressalta que, nos casos em que jovens acessam jogos da Loteria, “na grande maioria das vezes isso ocorre por meio da compra realizada por um adulto”. A operadora destaca ações educativas para coibir compras por procuração e a campanha “Presenteie com Responsabilidade”, além de treinamentos para que varejistas exijam identificação de qualquer pessoa que aparente ter menos de 25 anos.

Soluções em saúde pública com base em evidências

A GambleAware pede que alertas simples e claros sejam impressos diretamente em bilhetes, raspadinhas e produtos digitais, com sugestões como:

  • “Apostar tem seu preço.”
  • “Jogo pode ser viciante.”
  • “O jogo pode pegar qualquer um.”

Segundo o relatório, essas mensagens são mais eficazes que slogans da indústria, como “Tire um tempo para pensar”. A redução de danos não é mais opcional — é uma exigência para manter licenças, preservar reputações e garantir a confiança de stakeholders.

A Allwyn afirma que a raspadinha citada no relatório — “£500 Selection” — foi inspirada em caixas de chocolate voltadas para adultos, com símbolos como grãos de cacau e cestas de presente. A empresa utiliza várias ferramentas de avaliação de risco e retira os produtos de circulação quando identificados riscos elevados.

Outros países já adotaram medidas semelhantes. A França, por exemplo, exige alertas de vício nos bilhetes de loteria, uma prática que se tornou padrão entre os reguladores europeus. À medida que mais países da UE integram políticas de redução de danos às regulamentações, a abordagem do Reino Unido parece cada vez mais ultrapassada. A GambleAware também pede restrições à publicidade antes do horário nobre, especialmente durante programas voltados ao público jovem. Em vez de apenas seguir o movimento, a Allwyn poderia liderar — mas só se agir com firmeza.

Profissionais de tratamento também pedem reformas

A pressão por mudanças não vem apenas dos reguladores, mas também de quem está na linha de frente do atendimento.

Andy Boucher, presidente do conselho da GambleAware, disse que a missão da Loteria de gerar benefícios à comunidade precisa vir acompanhada de proteção real aos jogadores:

“A Loteria existe para fazer o bem, e isso inclui cuidar de quem participa.”

O financiamento de boas causas é apenas metade da equação — a outra metade é evitar o dano antes que ele ocorra.

Ian Semel, CEO da organização de apoio Breakeven, revelou que 11% de seus atendidos em 2024 sofreram danos ligados a raspadinhas ou jogos da Loteria:

“O suporte deve estar visível no momento do jogo. É quando as pessoas mais precisam.”

Com 11% dos usuários da Breakeven relatando problemas com produtos da Loteria, o argumento por uma reforma urgente se torna claro. A Breakeven, integrante da Rede Nacional de Apoio ao Jogo, oferece tratamento gratuito e imediato, mas Semel defende que a sinalização deve ocorrer muito antes. À medida que vozes políticas, clínicas e de consumidores se alinham, a pressão sobre a Allwyn deixa de ser um apelo moral para se tornar uma inevitabilidade regulatória.

A Allwyn vai agir?

O relatório da GambleAware chega em um momento decisivo. A próxima fase da revisão da Lei de Jogos deve focar ainda mais em branding, marketing e mensagens ao jogador — especialmente em relação à exposição infantil.

A Loteria Nacional ocupa um lugar único na vida britânica — e uma oportunidade igualmente única de liderar pelo exemplo. No entanto, o escrutínio recente sobre metas não cumpridas reforça os desafios operacionais da Allwyn diante da crescente expectativa por medidas de proteção.

Com centenas de milhares de jogadores vulneráveis toda semana, melhorar a sinalização de riscos não é mais uma escolha — é uma necessidade de saúde pública.

Antes vista como um patrimônio comunitário, a Loteria agora enfrenta os mesmos questionamentos que qualquer outro operador, especialmente no que se refere à proteção de pessoas em situação de risco. A Allwyn pode alinhar seu impacto social com a proteção aos jogadores — ou enfrentar um aumento de pressão em um setor onde reduzir danos se tornou parte do próprio modelo de negócio.

Outros operadores atentos a esse cenário devem ver não apenas um alerta, mas uma prévia do que está por vir. Isso não é apenas uma questão de conformidade. É o próximo teste de confiança pública, licença social e sustentabilidade operacional.

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