Mais de 600 mil pessoas com comportamento de jogo problemático participam semanalmente da Loteria Nacional do Reino Unido — uma escala que, segundo o novo relatório da GambleAware sobre a Loteria Nacional, representa um risco regulatório e comercial crescente para a operadora Allwyn UK. Baseado em uma pesquisa nacional com mais de 18 mil adultos, o estudo aponta um apoio público esmagador por mensagens mais fortes de redução de danos: 74% querem alertas nos bilhetes e raspadinhas, e 69% defendem orientações mais claras nas propagandas.
A GambleAware, principal entidade beneficente dedicada à redução de danos relacionados ao jogo no Reino Unido, está pedindo que a Allwyn UK inclua informações de apoio diretamente em seus produtos e campanhas. Apesar de seu amplo alcance e da confiança pública conquistada, a Loteria Nacional não direciona seus jogadores para serviços como a Linha Nacional de Apoio ao Jogador, algo que já é comum em outras loterias beneficentes. Como mostra uma matéria da SiGMA News sobre os 30 anos da Loteria, a percepção pública sobre seu papel e seu potencial de causar danos está mudando rapidamente.
GambleAware pressiona Allwyn por mudanças imediatas
Embora a Loteria financie setores como arte, patrimônio e esportes, críticos argumentam que esses benefícios não justificam o aumento dos danos, sem que existam proteções equivalentes. Segundo o relatório, 84% da população reconhece a Loteria Nacional como uma forma de jogo, desafiando a visão histórica de que se trata apenas de uma brincadeira inofensiva.
Quase metade dos entrevistados (46%) discorda da ideia de que os produtos lotéricos são inofensivos. Os dados revelam taxas significativamente mais altas de jogo problemático entre determinados tipos de jogadores:
- 3,9% entre compradores de bilhetes tradicionais
- 7,7% entre jogadores de raspadinhas
- 8,2% entre usuários de jogos instantâneos online
Esse dado final indica uma conexão crescente entre formatos digitais gamificados e comportamentos de maior risco. Ao extrapolar para a população do Reino Unido, isso pode representar mais 500 mil jogadores sendo afetados por danos relacionados ao jogo.
Relatos pessoais incluídos no estudo escancaram o impacto humano da questão. Uma mulher em processo de recuperação contou que gastou £450 em raspadinhas durante uma recaída. Outra relatou ter passado uma semana sem se alimentar adequadamente após usar todo o dinheiro das compras em jogos online.
“Fiquei sem dinheiro para comprar comida porque gastei o que tinha com raspadinhas.”
— Participante da pesquisa, relatório GambleAware
Resposta regulatória ao relatório da GambleAware
A Loteria Nacional ainda é exceção no que diz respeito à sinalização de apoio ao jogador. Outras loterias beneficentes e de apostas incluem mensagens mais claras apontando para serviços de ajuda, mas o produto de jogo mais amplamente utilizado no Reino Unido ainda não cumpre esse padrão. Ao contrário da maioria dos operadores, a Loteria Nacional ainda não atingiu o nível mínimo de proteção ao jogador — uma lacuna cada vez mais insustentável no cenário regulatório atual.
Em 2022, o Comitê de Cultura, Mídia e Esporte recomendou mensagens mais rigorosas de prevenção. A recomendação foi ignorada.
Desde a transição da Camelot para a Allwyn em 2024, as expectativas públicas vêm aumentando. Embora a Allwyn afirme que “a segurança dos jogadores é nossa principal prioridade”, a ausência de informações visíveis de apoio tem gerado críticas. Antes de deixar a operação, a Camelot foi multada por ter direcionado campanhas a consumidores vulneráveis durante períodos de autoexclusão. A multa de £3,15 milhões em 2022 agora serve como alerta direto à nova operadora. Após a penalidade, a Camelot adotou filtros mais rígidos de alcance e passou por uma auditoria que redefiniu sua abordagem à proteção do consumidor.
A Allwyn reforça seu compromisso com o jogo responsável, destacando investimentos contínuos em salvaguardas ao jogador e treinamentos para varejistas. No entanto, ativistas alegam que a ausência de alertas diretamente nos produtos representa uma falha crítica. Isso ocorre em um cenário de desempenho comercial sólido, com a Allwyn registrando receita de €2,24 bilhões no primeiro trimestre, levantando questionamentos sobre o equilíbrio entre crescimento e responsabilidade.
Embora esteja sujeita a um marco regulatório próprio, a Loteria Nacional frequentemente escapa ao mesmo rigor aplicado a outros produtos de aposta — uma diferença que agora está sendo amplamente questionada. A próxima fase da revisão da Lei de Jogos deve abordar práticas de marketing, rotulagem e sinalização, colocando também as loterias no centro desse debate.
A Loteria Nacional é regida por sua própria legislação — o National Lottery Act — e não pela Lei de Jogos, sendo regulada separadamente pela Comissão de Jogos do Reino Unido. A Allwyn afirma que “os jogos da Loteria Nacional são muito diferentes daqueles oferecidos pelo setor de jogos em geral”, defendendo que essa distinção justifica abordagens regulatórias e preventivas diferenciadas.
Em nota enviada à SiGMA News, um porta-voz da Allwyn declarou:
“Sinalizamos uma variedade de serviços de apoio ao jogador em nosso site, comunicações, produtos e materiais de marketing. Todos os bilhetes de raspadinhas e jogos por sorteio trazem informações do GamCare e da Linha Nacional de Apoio, operada pelo GamCare e financiada pela GambleAware.”
“Além disso, também mencionamos o GamSTOP e o GamBan em nosso site, com links diretos para uma página dedicada ao ‘jogo responsável’, que reúne detalhes de outros 11 serviços de apoio, incluindo a GambleAware.”
“O jogo responsável na Loteria Nacional já gerou enormes benefícios sociais no Reino Unido, com £50 bilhões arrecadados para Boas Causas desde 1994. Continuaremos colaborando com a GambleAware por meio do nosso compromisso anual de £1,6 milhão para apoiar pesquisas, tratamento e prevenção dos danos relacionados ao jogo.”
Marketing sob crítica e exposição infantil
Críticos também levantaram preocupações sobre o marketing da Loteria, especialmente no que diz respeito ao público jovem. Já foram lançadas raspadinhas com apelos como:
- Aroma de chocolate
- Sons musicais
- Temática de etiquetas de presente para o Natal
Segundo a GambleAware, esses formatos borram a linha entre o jogo e a brincadeira — especialmente para crianças. Pesquisas anteriores mostram que dois em cada cinco jovens já viram publicidade da Loteria Nacional. A exposição precoce está associada a maior risco de danos futuros relacionados ao jogo — o chamado “efeito porta de entrada”. Aqueles em recuperação muitas vezes relatam que seu primeiro contato com o jogo foi por meio da Loteria.
A Allwyn afirma que todos os jogos passam por avaliação rigorosa de risco com ferramentas como Gamgard e ASTERIG, para garantir que não atraiam públicos vulneráveis. A empresa também ressalta que, nos casos em que jovens acessam jogos da Loteria, “na grande maioria das vezes isso ocorre por meio da compra realizada por um adulto”. A operadora destaca ações educativas para coibir compras por procuração e a campanha “Presenteie com Responsabilidade”, além de treinamentos para que varejistas exijam identificação de qualquer pessoa que aparente ter menos de 25 anos.
Soluções em saúde pública com base em evidências
A GambleAware pede que alertas simples e claros sejam impressos diretamente em bilhetes, raspadinhas e produtos digitais, com sugestões como:
- “Apostar tem seu preço.”
- “Jogo pode ser viciante.”
- “O jogo pode pegar qualquer um.”
Segundo o relatório, essas mensagens são mais eficazes que slogans da indústria, como “Tire um tempo para pensar”. A redução de danos não é mais opcional — é uma exigência para manter licenças, preservar reputações e garantir a confiança de stakeholders.
A Allwyn afirma que a raspadinha citada no relatório — “£500 Selection” — foi inspirada em caixas de chocolate voltadas para adultos, com símbolos como grãos de cacau e cestas de presente. A empresa utiliza várias ferramentas de avaliação de risco e retira os produtos de circulação quando identificados riscos elevados.
Outros países já adotaram medidas semelhantes. A França, por exemplo, exige alertas de vício nos bilhetes de loteria, uma prática que se tornou padrão entre os reguladores europeus. À medida que mais países da UE integram políticas de redução de danos às regulamentações, a abordagem do Reino Unido parece cada vez mais ultrapassada. A GambleAware também pede restrições à publicidade antes do horário nobre, especialmente durante programas voltados ao público jovem. Em vez de apenas seguir o movimento, a Allwyn poderia liderar — mas só se agir com firmeza.
Profissionais de tratamento também pedem reformas
A pressão por mudanças não vem apenas dos reguladores, mas também de quem está na linha de frente do atendimento.
Andy Boucher, presidente do conselho da GambleAware, disse que a missão da Loteria de gerar benefícios à comunidade precisa vir acompanhada de proteção real aos jogadores:
“A Loteria existe para fazer o bem, e isso inclui cuidar de quem participa.”
O financiamento de boas causas é apenas metade da equação — a outra metade é evitar o dano antes que ele ocorra.
Ian Semel, CEO da organização de apoio Breakeven, revelou que 11% de seus atendidos em 2024 sofreram danos ligados a raspadinhas ou jogos da Loteria:
“O suporte deve estar visível no momento do jogo. É quando as pessoas mais precisam.”
Com 11% dos usuários da Breakeven relatando problemas com produtos da Loteria, o argumento por uma reforma urgente se torna claro. A Breakeven, integrante da Rede Nacional de Apoio ao Jogo, oferece tratamento gratuito e imediato, mas Semel defende que a sinalização deve ocorrer muito antes. À medida que vozes políticas, clínicas e de consumidores se alinham, a pressão sobre a Allwyn deixa de ser um apelo moral para se tornar uma inevitabilidade regulatória.
A Allwyn vai agir?
O relatório da GambleAware chega em um momento decisivo. A próxima fase da revisão da Lei de Jogos deve focar ainda mais em branding, marketing e mensagens ao jogador — especialmente em relação à exposição infantil.
A Loteria Nacional ocupa um lugar único na vida britânica — e uma oportunidade igualmente única de liderar pelo exemplo. No entanto, o escrutínio recente sobre metas não cumpridas reforça os desafios operacionais da Allwyn diante da crescente expectativa por medidas de proteção.
Com centenas de milhares de jogadores vulneráveis toda semana, melhorar a sinalização de riscos não é mais uma escolha — é uma necessidade de saúde pública.
Antes vista como um patrimônio comunitário, a Loteria agora enfrenta os mesmos questionamentos que qualquer outro operador, especialmente no que se refere à proteção de pessoas em situação de risco. A Allwyn pode alinhar seu impacto social com a proteção aos jogadores — ou enfrentar um aumento de pressão em um setor onde reduzir danos se tornou parte do próprio modelo de negócio.
Outros operadores atentos a esse cenário devem ver não apenas um alerta, mas uma prévia do que está por vir. Isso não é apenas uma questão de conformidade. É o próximo teste de confiança pública, licença social e sustentabilidade operacional.



