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Relatório da UKGC aponta ausência de retomada dos esquemas VIP no setor de apostas

David Gravel
Escrito por David Gravel

Os programas VIP no setor de jogos sofreram uma queda média de 95% por operador desde 2020 — e não houve retomada. Essa é a principal conclusão do mais recente relatório de monitoramento da Comissão de Jogos do Reino Unido (UK Gambling Commission), que aponta que os esquemas para Clientes de Alto Valor (High Value Customer – HVC) seguem sob forte controle, sem indícios de retorno.

Se antes alguns poucos apostadores de alto gasto podiam sustentar o faturamento de um operador, hoje sua presença é muito menor, seu monitoramento mais rígido e sua influência mais limitada. De acordo com os novos dados de 2024, divulgados no relatório executivo de monitoramento de clientes de alto valor e programas VIP da Comissão, tanto o número de membros quanto a receita seguem muito abaixo dos níveis anteriores à reforma.

Cinco anos depois, a dúvida já não é se as medidas foram eficazes — mas se o setor conseguirá manter esse novo patamar.

Como os programas VIP mudaram após 2020

A transformação começou com uma reforma regulatória em outubro de 2020. As novas regras entraram em vigor em 31 de outubro, após um período de transição de seis meses. Após consulta com o Betting and Gaming Council, a Comissão passou a exigir verificações obrigatórias de acessibilidade financeira, origem dos fundos e vulnerabilidade financeira. Clientes com menos de 25 anos foram impedidos de participar, e os operadores passaram a ser obrigados a nomear um executivo sênior com licença de gestão pessoal para supervisionar toda a atividade VIP.

Ao vincular a responsabilidade a executivos individuais, as reformas alinharam pela primeira vez os riscos operacionais com consequências pessoais. Desde então, a Comissão vem ampliando o foco para verificações mais amplas de risco financeiro, testando novas abordagens com base nos mesmos princípios de responsabilização introduzidos para os esquemas VIP.

Membros caem 95% e receita se reequilibra

O relatório de monitoramento de 2025 detalha o colapso na participação. Segundo a pesquisa com operadores da UKGC no relatório executivo de 2025, havia 42.349 clientes VIP em 22 operadores no período 2019–2020. Em 2023–2024, esse número caiu para apenas 1.616 em 18 empresas. Isso representa uma queda de 95% por operador, com a média de VIPs por empresa passando de 1.924,95 para 89,77. A receita bruta de jogos (GGY) seguiu a mesma tendência. VIPs agora representam apenas 3% da GGY entre os operadores avaliados (n=12). Entre grandes operadores online (GGY ≥£100 milhões), o número costuma ser inferior a 1% (n=5).

Entre 2022 e 2024, a receita total vinculada a VIPs caiu de £22,19 milhões (€25,87 milhões) para £10,88 milhões (€12,68 milhões), uma redução de 51% em dois anos.

Mas enquanto os programas tradicionais encolhem, novas frentes começam a surgir. Especialistas alertam que cassinos com criptoativos, plataformas de apostas com skins e redes white-label estão testando os limites dos modelos de incentivo VIP de maneiras que ainda escapam da regulamentação. Essas abordagens buscam atingir grandes apostadores, mas sem o mesmo nível de controle exigido dos sistemas VIP convencionais.

“Esses programas não são mais comuns hoje do que eram em 2021,” disse David Taylor, chefe de Garantia de Evidências e Avaliação da Comissão de Jogos.

Os dados mostram que o setor se reestruturou — mas se essa estabilidade vai se manter diante dos novos incentivos ainda é incerto.

Casas físicas ainda dependem de clientes de alto valor

Enquanto os operadores online praticamente abandonaram os programas VIP, os cassinos físicos ainda dependem bastante deles. Para três em cada quatro estabelecimentos presenciais avaliados, os clientes de alto valor representam mais de 10% da receita.

Isso não representa uma falha na reforma, mas sim um reflexo de modelos de negócio que continuam baseados em atendimento personalizado e clientes de alto poder aquisitivo. Cassinos de luxo frequentemente recebem visitantes internacionais, muitos dos quais são indivíduos com grande patrimônio e perfis de risco bem definidos. Esses jogadores continuam a receber serviços sob medida — mas agora estão sujeitos a controles regulatórios mais rígidos.

Para reforçar esse controle, a Comissão implementou recentemente novas diretrizes de penalidade, que entram em vigor em 10 de outubro de 2025, vinculando multas diretamente à GGY dos operadores como forma de coibir infrações em maior escala.

Operadores migram para gestão VIP mais segura

Hoje não há mais espaço para suposições. Os dados mostram que os operadores realmente reformularam os programas VIP no setor de jogos — e não apenas no papel. Todos os programas ativos são supervisionados por um executivo sênior com licença pessoal. A maioria das empresas faz revisões trimestrais das finanças dos VIPs, monitora indicadores adicionais de risco e usa algoritmos para identificar mudanças no comportamento.

As estratégias de recrutamento também evoluíram. A maioria das empresas deixou de usar afiliados ou intermediários para atrair clientes de alto valor. As comissões de funcionários agora geralmente não estão mais atreladas aos gastos dos VIPs, com apenas dois operadores mantendo metas não relacionadas a volume de apostas para expansão de membros.

Menos reclamações e processos mais limpos desde 2020

Os casos analisados pela Comissão refletem a mudança cultural no setor. Os programas VIP já não aparecem com frequência como causa de violações regulatórias. As reclamações de consumidores caíram, e os feedbacks de terceiros não apresentam preocupações recorrentes sobre conduta dos clientes de alto valor.

É uma mudança nítida em relação ao cenário de alguns anos atrás. Antes da reforma, sete em cada dez ações de fiscalização (2018–2019) envolviam falhas relacionadas a programas VIP. Hoje, essas práticas aparecem mais como um contexto secundário do que como causa principal.

O que o regulador vai monitorar a seguir

A Comissão confirmou que não há mudanças de política previstas no momento, mas seu foco já está voltado para os próximos passos. A dependência dos cassinos físicos segue sob observação, principalmente por conta de seus modelos operacionais distintos e maior exposição da GGY a esquemas de alto valor.

O cenário mais amplo também merece atenção. O crescimento dos cassinos com criptoativos, as apostas com skins e estratégias agressivas de white-label estão criando riscos que escapam dos limites dos antigos programas VIP. Essas práticas passarão por monitoramento futuro, dentro da implementação do white paper da Lei de Jogos, que poderá definir a próxima fase da reforma do setor no Reino Unido.

Por que essa reforma ainda importa — e o que vem a seguir

O cerco aos programas VIP nunca foi apenas sobre criar regras — mas sobre reequilibrar prioridades, colocando a proteção do consumidor acima do lucro imediato. Hoje, os programas VIP no setor de jogos são menores, mais lentos e mais seguros. As reformas mudaram as estruturas de incentivo e promoveram uma transformação cultural no centro dessas operações. Em 2025, problemas relacionados a VIPs aparecem em menos de 0,5% das ações de fiscalização da UKGC — uma queda drástica em relação à era pré-reforma.

Com o surgimento de novos riscos, o verdadeiro desafio será saber se o setor manterá sua cautela — e se o modelo regulatório será ágil o suficiente para responder. O próximo passo talvez não seja punir, mas evoluir. O Reino Unido continua sendo um exemplo de como uma regulação rigorosa pode gerar mudanças culturais e operacionais duradouras. Essa evolução já está moldando como os programas VIP são concebidos, gerenciados e justificados.

Dados e cronologia

Outubro de 2020

Reformas nos programas VIP são anunciadas após consulta com o Betting and Gaming Council. As novas regras exigem checagens de acessibilidade financeira, proíbem menores de 25 anos e exigem a responsabilização de executivos por meio de licenças de gestão pessoal.

31 de outubro de 2020

Implementação formal das regras para programas VIP, após período de transição de seis meses.

Referência 2019–2020 (antes da reforma)

  • 42.349 clientes VIP em 22 operadores
  • Média de VIPs por operador: 1.925
  • GGY de VIPs: não disponível, mas considerada significativa pela UKGC

Período de Relato 2023–2024

  • Total de clientes VIP: 1.616 em 18 empresas
  • Média de VIPs por operador: 89
  • GGY de VIPs: £10,88 milhões
  • VIPs representam agora apenas 3% da GGY total da amostra
  • Entre grandes operadores online: GGY dos VIPs frequentemente <1%

Queda na Receita (2022–2024)

  • Receita de clientes VIP caiu de £22,19 milhões para £10,88 milhões (€25,87 milhões–€12,68 milhões)
  • Redução de 51% em dois anos

Contexto Regulatória

  • Antes da reforma, 7 em cada 10 ações da UKGC envolviam falhas relacionadas a VIPs
  • Em 2025, casos envolvendo VIPs representam <0,5% das ações

Atualização no Modelo de Penalidades

  • Outubro de 2025: novas diretrizes de multas entram em vigor
  • Penalidades passam a ser proporcionais à GGY do operador
  • Infrações de Nível 5 podem gerar multas de até 15% da receita relevante

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