Singapura pode estar silenciosamente se posicionando para ultrapassar Macau — não por meio de expansão em escala, mas ao redefinir a experiência dos resorts integrados (IR) com inovação, exclusividade e alinhamento de marca, segundo o especialista do setor Aydemir Yuksel. Em uma entrevista exclusiva à SiGMA News, Aydemir Yuksel — que tem ampla experiência nos ecossistemas de IR tanto de Macau quanto de Singapura — compartilhou sua visão sobre por que o prestígio nesse mercado pode estar deixando de ser medido apenas pelo volume de apostas, focando mais no valor da experiência a longo prazo.
Singapura vs Macau: a disputa entre dois gigantes
Macau continua sendo o maior mercado de cassinos do mundo em receita bruta de jogos (GGR). Os números falam por si: em 2023, Macau gerou cerca de MOP 183,06 bilhões (US$ 22,7 bilhões), enquanto os dois resorts integrados de Singapura arrecadaram SGD 5,25 bilhões. No entanto, a forte dependência de Macau em jogos VIP e de massa, sua relação delicada com Pequim e o aumento da fiscalização regulatória expuseram fragilidades. Apesar de grandiosos, os IRs da região muitas vezes priorizam volume, não experiência.

Apesar de Macau ainda liderar em volume bruto de jogos, segundo Yuksel, o Marina Bay Sands (MBS) e o Resorts World Sentosa (RWS), em Singapura, vêm construindo uma reputação global baseada na discrição, no luxo e na estabilidade regulatória. Singapura aposta na precisão — o que Yuksel descreve como uma abordagem “relógio suíço”. É “limpa, segura e hiper-eficiente. Para indivíduos de alta renda da China, Índia, Indonésia ou Malásia, Singapura já funciona como um segundo lar. Ela oferece discrição, luxo e credibilidade sustentável.“
Em vez de competir com o tamanho das áreas de jogo ou quantidade de caça-níqueis, Cingapura aposta em experiências completas para seus visitantes. O MBS hoje fatura cerca de 30% de sua receita com atividades não ligadas a jogos, incluindo hospedagem, lojas de luxo, MICE (feiras, congressos, eventos corporativos) e alta gastronomia. No primeiro trimestre de 2025, o MBS registrou taxa de ocupação de cerca de 95%, com diária média acima de US$ 900.
Em comparação, os IRs de Macau ainda geram entre 90% e 95% de sua receita exclusivamente com jogos. Isso apesar dos esforços do governo para incentivar investimentos em áreas não relacionadas a apostas, estabelecendo a meta ambiciosa de que essas atividades representem 60% do PIB até 2028. Embora o modelo atual garanta receitas fortes no curto prazo, ele é frágil diante de mudanças políticas e riscos reputacionais associados ao controle regulatório de Pequim. Yuksel observa que Macau está sempre a “uma mudança de política” da instabilidade. Restrições de viagem, investigações anticorrupção ou escândalos podem comprometer os negócios da noite para o dia — especialmente considerando que mais de 90% dos visitantes vêm da Grande China, o que a torna vulnerável a riscos geopolíticos e econômicos.
O impacto da proibição geral de publicidade em Macau
A recente proibição total de anúncios de apostas em Macau gerou debate sobre uma possível perda de competitividade da região. Mas Yuksel acredita que o impacto está sendo superestimado. “Jogadores VIP e de alto poder aquisitivo não se guiam por publicidade — o que importa para eles são benefícios exclusivos, não outdoors,” afirmou. “As regras de publicidade em Singapura são ainda mais rígidas. Nem caixas eletrônicos existem dentro dos cassinos.”
Essa regulamentação rígida de Singapura, longe de ser um obstáculo, é seu maior trunfo. Yuksel chama isso de “excelência regulatória”. Enquanto Macau permanece vulnerável a decisões políticas súbitas, Cingapura oferece previsibilidade. Yuksel ressalta que Macau vive sob constante interferência política. Um único escândalo ou operação pode desestabilizar todo o ecossistema.
Segundo Yuksel, o que realmente atrai clientes de alto valor não é propaganda, mas valor agregado real: voos em primeira classe, culinária estrelada Michelin, bebidas raras, anfitriões privados e suítes exclusivas. Nesse cenário, Singapura vem se consolidando discretamente como a “Suíça da Ásia” — neutra, confiável e atrativa para as elites de toda a região.
Singapura pode superar Macau como o destino de IR mais prestigiado da Ásia?
Olhando para o futuro, Yuksel acredita que Singapura pode se tornar o primeiro destino de resort integrado “pós-jogos” do mundo, onde o principal atrativo vai além dos cassinos. “O Marina Bay Sands já obtém quase metade de sua receita de áreas não ligadas a jogos. O IR do futuro não eliminará os cassinos, mas os transformará em opções secundárias.”
“Macau continua imbatível em volume de apostas, mas prestígio vai além do tamanho do cassino — trata-se de percepção, experiência e confiança duradoura.”
– Consultor de iGaming Aydemir Yuksel
Yuksel é direto: “Um IR ‘pós-jogos’ não significa excluir o cassino — significa torná-lo apenas uma parte opcional da experiência.” A principal atração passa a ser todo o resto: estilo de vida, entretenimento, bem-estar, cultura. Ele imagina um ecossistema que combina Hyatt, Live Nation e o Museu de Arte Moderna (MoMA):
- Hotel de luxo ao estilo Park Hyatt com residências para estadias longas, centros de bem-estar e serviços personalizados com inteligência artificial.
- Parceria com a Live Nation para sediar residências artísticas de artistas globais — Coldplay, Jay Chou, Blackpink e até torneios de eSports.
- Zona cultural inspirada no MoMA com arte contemporânea, exposições imersivas e parcerias com museus e universidades internacionais.
Os IRs de Singapura já estão investindo fortemente nessa direção. A Las Vegas Sands Corp., proprietária do MBS, deu início oficialmente à tão esperada segunda fase do complexo Marina Bay Sands. A expansão — vista como um passo ousado no turismo de luxo — deve ser concluída até junho de 2030, com inauguração pública prevista para janeiro de 2031. De forma similar, o Resorts World Sentosa inaugurou recentemente o Singapore Oceanarium, como parte de seu plano de expansão de SGD 6,8 bilhões. Localizado na Ilha de Sentosa, o espaço agora é três vezes maior que o anterior, oferecendo uma experiência mais imersiva e educativa sobre a vida marinha e preservação dos oceanos.
O diferencial estratégico
No fim das contas, segundo Yuksel, a disputa por prestígio entre Singapura e Macau não será decidida por quantidade de visitantes ou densidade de caça-níqueis. O que vai definir o vencedor será quem entregar as experiências mais profundas, sofisticadas e seguras para os visitantes de alto poder aquisitivo.
“Não é sobre quantas pessoas você atrai — é sobre quem elas são, quanto gastam e quanto tempo permanecem,” diz Yuksel. “E nesse aspecto, Singapura tem a base estratégica para ultrapassar Macau — especialmente se continuar apostando em inovação ousada e centrada na experiência.”
A mudança da Ásia para além do modelo centrado em cassinos
À medida que o cenário de IRs na Ásia evolui, cada vez mais países estão se afastando do modelo centrado em cassinos, priorizando investimentos não relacionados a jogos para criar resorts mais sustentáveis e focados na experiência. Singapura segue liderando essa transformação, com grandes investimentos em entretenimento, varejo e hospitalidade. Macau comprometeu mais de US$ 16 bilhões com iniciativas não relacionadas ao jogo, incluindo zonas culturais e atrações voltadas para famílias.
O futuro IR de Osaka, no Japão, tem como foco exposições, bem-estar e herança cultural. Na Coreia do Sul, os resorts estão integrando arenas de K-pop, galerias de arte e centros de compras. Nas Filipinas, a Entertainment City está se transformando em um destino de lazer multifuncional, enquanto o Vietnã aposta em resorts voltados para o turismo de praia e experiências ecológicas. Essa mudança regional marca uma virada estratégica em busca de prestígio duradouro, menor risco regulatório e apelo internacional ampliado.

