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O que a campanha anti-bets não mostra sobre regulação e tratamento da ludopatia

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

Criada em junho de 2026 pelo coletivo 342 Artes, a campanha Block no Tigrinho rapidamente ganhou visibilidade nas redes sociais ao reunir artistas, influenciadores e milhares de apoiadores com a proposta de combater todas as apostas online e cassinos virtuais no Brasil. A campanha anti-bets recebeu apoio de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Camila Pitanga, Letícia Sabatella, Emicida, Baco Exu do Blues e Anitta. Em poucos dias, o portal Correio Braziliense informou que o grupo havia ultrapassado 27 mil assinaturas em seu manifesto.

Mas, além das celebridades e vídeos compartilhados nas redes, a campanha também opera uma estrutura de mobilização digital. Após realizar um cadastro no site oficial, os participantes são direcionados para grupos estaduais de WhatsApp, onde os administradores distribuem conteúdos, enquetes e “missões” para ampliar o alcance da iniciativa.

Um grupo destinado ao estado de São Paulo reunia 690 participantes no momento em que foi acessado pela reportagem.

A descrição apresenta o espaço como uma “Central de Conteúdo do Block no Tigrinho”. Entre as atividades propostas estão comentaços, compartilhamentos em massa e ações de pressão direcionadas a políticos e influenciadores. “Nosso objetivo é oferecer para nossa comunidade os melhores materiais e argumentos para fazermos pressão organizada nos políticos e nos hubs de influenciadores”.

A estratégia bem comum em outros mercados. Organizações ambientais, sindicatos, associações empresariais e movimentos sociais utilizam estruturas semelhantes para engajar apoiadores. Ainda assim, a forma como o movimento se apresenta levanta questionamentos sobre a narrativa adotada, principalmente em relação ao mercado regulado de apostas.

O movimento não distingue operadores licenciados de plataformas ilegais

Questionados sobre o posicionamento da campanha em uma publicação do Instagram, também comentada pelo Ministério da Saúde, os representantes do Block no Tigrinho responderam:

“Nossa campanha é contra todas as bets e cassinos online. O nome Block no Tigrinho foi escolhido porque o Tigrinho se tornou o símbolo mais conhecido desse mercado.”

A declaração esclarece um ponto importante. Embora o nome faça referência ao Fortune Tiger, jogo popularmente conhecido como “Tigrinho”, a campanha não se limita a denunciar operadores ilegais ou influenciadores envolvidos em fraudes. Seu objetivo declarado é combater todas as plataformas de apostas online, incluindo empresas autorizadas pelo governo federal.

Essa abordagem confronta o modelo regulatório adotado pelo Brasil desde a implementação das apostas de quota fixa. Os operadores licenciados são submetidos a exigências de identificação de usuários, verificação de idade, certificação de jogos, políticas de prevenção à lavagem de dinheiro, ferramentas de autoexclusão, limites de depósito e monitoramento de comportamento de risco. As entidades representativas do setor regulado dizem que equiparar empresas autorizadas a plataformas clandestinas pode gerar confusão nos consumidores.

Em nota publicada em junho de 2026, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirmou que a campanha deveria concentrar esforços nas apostas ilegais e criticou materiais divulgados pelo movimento por não estabelecer distinções entre os diferentes segmentos do mercado. O diretor-presidente do IBJR, Fernando Vieira, já afirmou em diferentes ocasiões que restringir excessivamente a publicidade das empresas licenciadas pode produzir um efeito inverso ao desejado, dificultando a identificação de operadores legalizados e abrindo espaço para o avanço do mercado clandestino. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) se posiciona de forma semelhante, defendendo que campanhas publicitárias permitem ao consumidor reconhecer marcas submetidas à supervisão da Secretaria de Prêmios e Apostas, enquanto operadores ilegais continuam atuando sem licença, sem mecanismos de jogo responsável e sem recolhimento de tributos.

Dados utilizados pela campanha precisam de contextualização

Outro ponto que merece atenção são os números apresentados pelo Block no Tigrinho. Entre as estatísticas mencionadas estão afirmações de que 1,8 milhão de brasileiros teriam se endividado por causa das apostas online em 2024 e que 1,4 milhão apresentariam algum transtorno relacionado ao jogo. Especialistas em pesquisa de comportamento costumam fazer uma distinção importante entre correlação e causalidade. O psiquiatra Hermano Tavares, referência brasileira no estudo do transtorno do jogo, diz que “Nem toda pessoa que aposta desenvolve dependência, assim como nem toda pessoa endividada chegou a essa situação por causa do jogo”, destacando a necessidade de cautela ao atribuir causalidade direta entre jogo e dificuldades financeiras.

Uma pessoa endividada pode apostar, assim como alguém que aposta pode desenvolver dificuldades financeiras. No entanto, demonstrar que as apostas foram a causa direta do endividamento exige metodologias específicas e acompanhamento longitudinal. A mesma cautela vale para estimativas sobre transtorno do jogo.

Estudos internacionais indicam que apenas uma parcela dos apostadores desenvolve comportamentos problemáticos, enquanto a maioria utiliza produtos de apostas de forma recreativa. Isso não significa minimizar os impactos da ludopatia, reconhecida como transtorno pela Organização Mundial da Saúde, mas reforça a necessidade de contextualizar estatísticas utilizadas em campanhas de conscientização.

Também é importante ressaltar que, desde a entrada em vigor do mercado regulado, o governo federal adotou diversas medidas para reduzir os riscos de endividamento e jogo problemático. Entre elas está a proibição do uso de cartões de crédito para financiar apostas, uma prática associada ao aumento do endividamento em outras jurisdições.

As regras brasileiras também vedam bônus de entrada, exigem identificação biométrica dos usuários, permitem a autoexclusão voluntária, determinam a criação de limites financeiros e de tempo de jogo, obrigam operadores a monitorar padrões de comportamento considerados de risco e mais recentemente foi publicada a proibição das instituições financeiras e de pagamento de processar transações destinadas a plataformas não autorizadas. Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu que os beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) utilizem plataformas de apostas, posteriormente incorporada ao sistema de fiscalização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).

Embora algumas pessoas discutam se essas medidas são suficientes, elas colocam o Brasil entre os mercados que optaram por um modelo de mitigação de danos em vez da proibição total das apostas.

O que fazer em caso de comportamento de risco

A regulamentação brasileira das apostas de quota fixa não se limita à arrecadação de tributos e ao licenciamento de operadores. As empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas são obrigadas a disponibilizar ferramentas voltadas à proteção do consumidor, incluindo limites de depósito, restrições de tempo de sessão, pausas temporárias e mecanismos de autoexclusão.

Os apostadores devem observem os sinais de alerta como utilizar recursos destinados ao pagamento de contas, tentar recuperar perdas com novas apostas, ocultar gastos de familiares ou sentir ansiedade e irritação quando não conseguem jogar. A adoção de limites financeiros rígidos e a interrupção temporária das apostas são algumas das medidas sugeridas para evitar o agravamento do comportamento de risco.

Quem percebe dificuldades em controlar a atividade também pode buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) podem realizar o primeiro acolhimento e encaminhar pacientes para acompanhamento especializado nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem atendimento multiprofissional para pessoas com transtornos relacionados ao jogo, álcool e outras dependências. O aplicativo Meu SUS Digital também reúne informações sobre serviços de saúde disponíveis em cada município.

Além da rede pública, organizações da sociedade civil e grupos de apoio têm ampliado a oferta de orientação psicológica e acolhimento a pessoas afetadas pela ludopatia. Embora o debate sobre os impactos das apostas continue polarizado entre defensores da proibição e da regulamentação, especialistas concordam que ampliar o acesso à informação, estimular o jogo responsável e facilitar a busca por tratamento são medidas essenciais para reduzir danos entre consumidores mais vulneráveis.

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