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Como a evolução das relações B2C–B2B está transformando as parcerias no iGaming

Rajashree Seal
Escrito por Rajashree Seal
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Após vários anos de transformações estruturais, a indústria de iGaming entra agora em uma fase de crescimento sustentado, impulsionada por regulamentação, avanços tecnológicos e mudanças no comportamento do consumidor. Estimativas do setor indicam que o mercado global de jogos de azar online foi avaliado em cerca de US$ 78,66 bilhões em 2024 e deve alcançar aproximadamente US$ 153,57 bilhões até 2030, puxado pela expansão contínua das plataformas de cassino online e apostas esportivas.

Essa expansão vem sendo apoiada por plataformas orientadas ao mobile, maior uso de análises de dados e atualizações graduais na infraestrutura tecnológica. Ao mesmo tempo, os operadores estão investindo mais em computação em nuvem e monitoramento de desempenho à medida que a concorrência se intensifica.

Com o crescimento do mercado, a cooperação entre operadores, fornecedores e provedores de plataforma tornou-se cada vez mais central para o desempenho comercial. Analistas apontam de forma consistente que uma maior integração entre as funções B2C e B2B influencia diretamente a relevância dos produtos, a eficiência operacional e a competitividade no longo prazo.

Os avanços regulatórios também estão redefinindo o foco do mercado. O movimento do Brasil para licenciar oficialmente as apostas online em 2025 aumentou o interesse de operadores e fornecedores, mas também trouxe novas exigências de conformidade e certificação. Nesse contexto, e durante a ICE Barcelona, a SiGMA News conversou com Kate Romanenko, diretora comercial da Kendoo, sobre como essas mudanças estruturais estão remodelando as relações e estratégias do setor.

Entender os dois lados do mercado

À medida que a indústria de iGaming se torna mais competitiva e operacionalmente complexa, a relação entre operadores e fornecedores passa a ser analisada com mais atenção. Para Kate, ter experiência nos dois lados do mercado deixou de ser um diferencial e se tornou uma vantagem prática.

Com trajetória tanto em B2C quanto em B2B, ela acredita que compreender como ambos funcionam é essencial para o sucesso de longo prazo. “É muito importante entender o panorama completo, o que costumamos chamar de a ‘cozinha interna’ dos dois lados”, afirma.

Para os fornecedores, isso significa reconhecer as pressões e os desafios enfrentados pelas empresas B2C. Segundo Kate, ter “uma compreensão muito clara do que pode ser um problema para os negócios B2C” ajuda a desenvolver produtos e serviços mais relevantes. Mesmo atuando no B2B, ela mantém atenção constante ao funcionamento dos operadores. “Nosso trabalho é garantir que a vida dos nossos clientes fique mais fácil ao trabalhar conosco”, diz.

Como a relação entre fornecedores e operadores mudou

Kate ingressou no setor de iGaming há cerca de dez anos, quando o número de estúdios de jogos era muito menor do que hoje. Naquele período, o sucesso era medido de outra forma, e o conteúdo não ocupava um papel tão central.

“Não era tanto sobre o conteúdo”, lembra, destacando que o desempenho era impulsionado principalmente pela nostalgia e pelos hábitos offline dos jogadores. Embora esses hábitos ainda existam, já não dominam as decisões como antes.

O mercado atual é bastante diferente. O número de estúdios cresceu significativamente e a tecnologia evoluiu junto. Hoje, a análise de dados sustenta o desenvolvimento, a promoção e a avaliação dos jogos.

Kate observa que os sistemas de dados do passado eram básicos se comparados aos atuais. “Hoje temos muitas ferramentas que nos ajudam a melhorar o conteúdo, aprimorar a forma como fazemos promoções e tomar decisões mais assertivas”, afirma.

Ela acrescenta que os dados se tornaram um fator crítico para melhorar o desempenho. “Os dados são enormes hoje em dia. Sou muito grata por isso, porque nos ajudam a fazer nosso trabalho melhor.”

Kate Romanenko, Commercial Director at Kendoo, with SiGMA Head of News Shirley Pulis Xerxen at ICE Barcelona.
Kate Romanenko, Diretora Comercial da Kendoo, com Shirley Pulis Xerxen, Diretora de Notícias da SiGMA, na ICE Barcelona.

O que faz uma parceria funcionar

Com a concorrência cada vez mais acirrada, as parcerias entre empresas B2C e B2B tornaram-se mais importantes — e também mais complexas. Kate descreve as parcerias genuínas como algo que parece complicado, mas que, na essência, é simples.

“O que você precisa é que os dois lados queiram trabalhar juntos, queiram gerar bons resultados juntos, ganhar dinheiro e performar”, afirma.

Embora a experiência técnica seja relevante, ela não vê a falta de histórico no setor como um obstáculo absoluto. Segundo Kate, é importante que ambos os lados compreendam o que estão fazendo ao se unirem e que entendam, ao menos em parte, o modelo de negócio do outro. Ainda assim, isso não é um requisito rígido. Parcerias podem prosperar mesmo quando uma das partes tem pouca experiência ou é nova no mercado.

“O mais importante é o objetivo”, diz. “O objetivo é construir um negócio. É uma parceria mútua.”

Além do conhecimento técnico, ela destaca a importância da comunicação. Habilidades técnicas sozinhas não são suficientes. “Sem soft skills, a comunicação se torna mais difícil e sujeita a mal-entendidos”, explica. Boas habilidades interpessoais aumentam significativamente as chances de sucesso.

Por que a conexão humana ainda importa

Apesar da crescente dependência de tecnologia e dados, Kate afirma que a interação humana continua sendo fundamental. “Conexões, comunicação e uma abordagem genuína nos negócios” ainda são centrais, segundo ela.

A motivação também é decisiva. Ter interesse real no trabalho impulsiona o progresso, enquanto a falta de engajamento pode frear não apenas indivíduos, mas toda a empresa.

Estratégia de portfólio em um mercado saturado

Com novos jogos sendo lançados em ritmo acelerado, a estratégia de portfólio se tornou um tema-chave para operadores e fornecedores. Kate observa que a diversificação costuma ser discutida em termos de quantidade.

“A quantidade é importante, mas a qualidade continua sendo a rainha”, afirma.

Isso não significa limitar o número de estúdios ou jogos. Para ela, há espaço no mercado para todos os desenvolvedores que buscam construir negócios sustentáveis. No entanto, qualidade exige tempo, talento, orçamento e expertise.

Kate ressalta que a diversificação deve equilibrar quantidade e qualidade, mas sem esperar desempenho uniforme em todo o portfólio. “Todos temos alguns grandes sucessos e também conteúdos que não performam tão bem”, explica. Segundo ela, isso é normal e faz parte do mercado, exigindo esforço contínuo e experimentação.

Equilibrando inovação e familiaridade

A estratégia de produto também envolve equilibrar inovação e elementos familiares. Kate descreve o produto como o centro das decisões comerciais. “O produto que levamos ao mercado para nossos clientes é a chave”, afirma.

A familiaridade ainda influencia o comportamento dos jogadores. “Os jogadores confiam mais no que reconhecem”, observa, seja um jogo, uma marca ou uma plataforma.

Ao mesmo tempo, ela não vê a familiaridade como motivo para evitar inovação. Para Kate, inovar é evoluir gradualmente, e não promover mudanças radicais. “Torne sua tecnologia, seus recursos ou sua interface melhores do que ontem”, diz.

Ela explica que a inovação precisa ser conduzida com cuidado e testes, pois envolve riscos. Mudanças podem impactar negativamente a experiência do jogador, mas também podem gerar novas oportunidades. “Algo pode não funcionar, ou pode se tornar o próximo grande sucesso”, afirma. Para ela, inovar é testar novas ideias, reaproveitar elementos do passado e manter espaço tanto para oportunidades quanto para riscos.

Lançar um estúdio em um mercado competitivo

Ao falar sobre o primeiro ano da Kendoo como estúdio independente, Kate diz que entrar no mercado trouxe vantagens e desafios. Embora a marca seja nova, a equipe já tinha experiência no desenvolvimento de jogos antes de operar sob identidade própria.

“Nossa principal vantagem é que já sabíamos como criar jogos”, diz, lembrando o histórico do estúdio no desenvolvimento de slots antes de se tornar independente. No entanto, lançar-se no mercado com marca própria exigiu tempo de adaptação.

Ser novo traz benefícios e desvantagens. Construir identidade e confiança não acontece de imediato, especialmente junto aos jogadores, que Kate define como os principais clientes da indústria. Essa confiança é construída gradualmente, por meio de parcerias e desempenho dos produtos.

Por isso, testes e mudanças graduais tornaram-se centrais na estratégia do estúdio. A equipe continua usando mecânicas já comprovadas no mercado, ao mesmo tempo em que introduz novos elementos com cautela. Um exemplo recente foi o lançamento de 4 Egypt Scarabs, o primeiro jogo com quatro potes no portfólio da Kendoo, após o sucesso dos formatos com três potes.

“Isso é algo realmente novo que adicionamos ao nosso processo de criação”, afirma Kate. Nem toda mudança vai funcionar, mas isso não torna a experimentação desnecessária. “Se você acredita na ideia e acha que ela pode funcionar, vale a pena tentar”, diz, ressaltando a importância de estar atento aos riscos.

Regulação e foco de mercado

As questões regulatórias continuam moldando a forma como estúdios e fornecedores planejam sua expansão. Kate descreve o ambiente regulatório como dinâmico, com regras em constante mudança, novos mercados se abrindo e outros se tornando mais restritivos.

As decisões sobre onde operar são, em última instância, escolhas comerciais feitas por cada empresa. Cada negócio avalia os riscos e decide seu caminho, sem existir uma abordagem única correta ou incorreta.

Entrar em mercados regulados, porém, exige grande preparação. Kate cita o Brasil como exemplo, onde a criação de um marco regulatório aumentou o interesse dos fornecedores, mas também elevou as exigências de entrada. Certificações, requisitos legais e processos de conformidade precisam ser concluídos antes do início das operações.

“É muito trabalho, muita preparação, e você ainda nem começou a operar”, afirma.

Para Kate, a expansão só faz sentido quando há uma estratégia clara e uma compreensão sólida do motivo pelo qual aquele mercado é relevante. Ao mesmo tempo, ela destaca que mercados não regulados continuam desempenhando um papel importante globalmente e seguem integrando o ecossistema mais amplo do iGaming.

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