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Quase R$ 10 bilhões arrecadados: apostas movimentam a economia brasileira

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

O assunto sobre os impactos das apostas online no orçamento das famílias brasileiras não sai das páginas de notícias, tanto nas redes sociais quanto em seus próprios sites. Uma dessas publicações foi bastante incisiva, publicada no portal Intercept Brasil. No texto, a autora do artigo afirma que as apostas já retiram mais recursos das famílias pobres do que os juros e defende que a proibição desse tipo de jogo não deveria ser tratada como tabu.

A análise reúne uma série de dados sobre endividamento, inadimplência e gastos com apostas. O debate, porém, deve ser analisado em contexto, acompanhado da informação completa. Com isso, levamos em consideração o impacto das apostas na economia brasileira

A inadimplência brasileira antecede a expansão das bets

O principal argumento da economista é que as apostas online se tornaram um novo vetor de empobrecimento da população de baixa renda. No entanto, os dados publicados recentemente pelo Serasa indicam que o problema da inadimplência no Brasil é estrutural e antecede a popularização das apostas online.

O levantamento divulgado em março de 2026 mostra que quatro em cada dez brasileiros negativados atualmente já estavam inadimplentes há dez anos. O país soma 81,7 milhões de consumidores com dívidas em atraso, um crescimento de 38,1 por cento desde 2016. Ao todo, existem mais de 332 milhões de dívidas registradas, enquanto a dívida média passou de BRL5.880 ($ 1.164,36) para BRL6.598 ($ 1.306,53) em valores corrigidos pela inflação.

O próprio Serasa aponta que o cartão de crédito e as contas básicas continuam sendo os principais motivos da inadimplência. A empresa atribui o agravamento do cenário aos juros elevados, a pressão inflacionária, o aumento do custo de vida e a expansão do crédito sem planejamento financeiro adequado.

Esses números não eliminam a possibilidade de que as apostas agravem situações individuais de endividamento, mas sugerem que o fenômeno da inadimplência brasileira não pode ser explicado exclusivamente por um mercado que ganhou escala apenas nos últimos anos.

Também é importante considerar que o mercado regulado brasileiro já incorporou mecanismos destinados a reduzir o risco de endividamento associado às apostas. Desde a entrada em vigor da regulamentação federal, os operadores autorizados estão proibidos de aceitar depósitos e pagamentos realizados por meio de cartão de crédito, permitindo apenas métodos vinculados a recursos disponíveis em conta, como transferências bancárias e PIX. A restrição foi imposta justamente para impedir que os consumidores utilizem crédito rotativo ou acumulem dívidas para financiar apostas, uma prática que já havia sido vetada em outros mercados regulados, como o do Reino Unido.

Fluxo financeiro não é o mesmo que perda líquida

Outro ponto levantado na coluna diz respeito ao volume movimentado pelas apostas. Segundo a autora, o Banco Central teria demonstrado que as bets movimentaram cerca de BRL240 bilhões ($ 47,52 bilhões) em 2024. O dado deriva das transferências realizadas por meio do Pix para empresas de apostas.

No entanto, esse montante representa a movimentação financeira bruta entre consumidores e operadores, não o valor efetivamente perdido pelos jogadores. Parte relevante desses recursos retorna aos usuários na forma de prêmios pagos pelas plataformas. A distinção é importante porque utilizar o volume total de apostas como medida direta de empobrecimento pode levar a interpretações imprecisas sobre o impacto líquido do setor na renda das famílias.

Correlação não é necessariamente causalidade

Esses números não eliminam a possibilidade de que as apostas agravem situações individuais de endividamento, mas sugerem que o fenômeno da inadimplência brasileira não pode ser explicado exclusivamente por um mercado que ganhou escala apenas nos últimos anos.

As regras estabelecidas pelo governo federal exigem que as empresas adotem políticas de jogo responsável e monitorem indícios de comportamento de risco. Entre as ferramentas disponíveis aos usuários estão a possibilidade de definir limites de depósito, estabelecer períodos de pausa, solicitar autoexclusão temporária ou permanente e acessar informações sobre o histórico de apostas e perdas. Os operadores também devem disponibilizar canais de atendimento e encaminhamento para serviços de apoio quando identificarem sinais de jogo problemático.

Do ponto de vista regulatório, a exigência de identificação do apostador por meio de procedimentos de verificação de identidade dificulta a abertura de múltiplas contas e permite um acompanhamento mais preciso da atividade dos usuários.

Especialistas em jogo responsável também defendem que a educação financeira e a conscientização do apostador devem estar em primeiro lugar nas políticas de prevenção ao endividamento. A International Center for Responsible Gaming, instituição dedicada à pesquisa sobre comportamento de jogo, diz que medidas de proteção ao consumidor tendem a ser mais eficazes quando combinadas com iniciativas educativas que ajudem os usuários a compreender as probabilidades envolvidas nas apostas, estabelecer limites de gastos e reconhecer sinais de perda de controle.

Regulação ou proibição?

A coluna reconhece que o Brasil avançou na regulamentação do setor desde 2025, restringindo operações ilegais, exigindo licenças federais e criando mecanismos para impedir a participação de beneficiários do Bolsa Família em plataformas autorizadas. Ainda assim, a conclusão é de que a regulação não seria suficiente e sugere que a proibição das apostas deveria ser discutida com maior seriedade.

Trata-se de uma posição legítima no campo das políticas públicas, mas que ultrapassa o escopo dos dados apresentados ao longo do texto. A experiência internacional mostra que diferentes países adotaram caminhos distintos para lidar com os riscos associados ao jogo, incluindo limites de publicidade, restrições ao uso de cartões de crédito, redução do valor máximo das apostas e mecanismos de autoexclusão. A proibição total é apenas uma entre várias alternativas regulatórias possíveis.

O peso econômico das apostas no Brasil

A discussão sobre os impactos sociais das apostas costuma se concentrar nos potenciais riscos do setor, mas a atividade também passou a representar uma nova fonte de arrecadação tributária, investimentos privados e geração de empregos no país. Desde a entrada em vigor da regulamentação federal, em janeiro de 2025, o mercado deixou de operar em uma zona cinzenta e passou a integrar formalmente a economia brasileira, submetido a regras de autorização, fiscalização e tributação.

Em seu primeiro ano completo de operação regulada, 2025, o mercado brasileiro de apostas registrou aproximadamente BRL37 bilhões ($ 7,33 bilhões) em receita bruta de jogos (GGR), indicador que corresponde à diferença entre o valor apostado pelos consumidores e os prêmios devolvidos aos jogadores. O montante coloca o Brasil entre os maiores mercados regulados de apostas online do mundo e deixa muito claro o tamanho de uma atividade que, até poucos anos atrás, operava majoritariamente por meio de empresas sediadas no exterior.

O impacto fiscal também é gigante. Os dados divulgados pelo governo federal revelam que a arrecadação relacionada às apostas chegou a cerca de BRL9,95 bilhões ($ 1,97 bilhão) em 2025, considerando tributos incidentes sobre a atividade, imposto de renda retido sobre premiações, taxas de fiscalização e outras destinações previstas em lei. Além disso, as empresas interessadas em atuar no mercado regulado precisaram investir BRL30 milhões ($ 5,94 milhões) por licença, valor que gerou aproximadamente BRL2,5 bilhões ($ 495,05 milhões) em receitas provenientes das outorgas de autorização.

A regulamentação também estimulou a criação de uma nova cadeia econômica especializada. As operadoras passaram a contratar profissionais das áreas de tecnologia, análise de dados, segurança cibernética, prevenção à lavagem de dinheiro, marketing, compliance, atendimento ao consumidor e jogo responsável. O crescimento do segmento impulsionou também a demanda por fornecedores de meios de pagamento, certificadoras, empresas de monitoramento, escritórios de advocacia e consultorias regulatórias.

Outro efeito econômico relevante está relacionado ao financiamento do esporte. As casas de apostas praticamente dominaram o futebol quando falamos sobre patrocínios, estampando suas marcas em uniformes, campeonatos estaduais e nacionais, além de investir em direitos de transmissão, ativações comerciais e ações promocionais. Esses recursos passaram a representar uma fonte adicional de receita para os clubes, as federações e as organizadores de eventos esportivos.

A presença do Estado no mercado também permitiu a implementação de mecanismos de fiscalização inexistentes durante o período de informalidade. Em 2025, mais de 25 mil sites ilegais foram bloqueados, enquanto as empresas autorizadas passaram a reportar seus dados operacionais à administração pública, possibilitando um acompanhamento mais preciso do comportamento do mercado e da arrecadação gerada pelo setor.

Isso não significa que os benefícios econômicos eliminem as preocupações relacionadas ao endividamento, ao jogo problemático ou aos impactos distributivos das apostas. Porém, os números mostram que o setor produz efeitos que vão além do consumo individual, movimentando receitas públicas, estimulando investimentos privados e criando postos de trabalho em segmentos de alta especialização. Assim, qualquer avaliação sobre o papel das apostas na economia brasileira tende a ser mais completa quando considera simultaneamente seus custos sociais e sua contribuição para a atividade econômica formal.

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