A operadora de mercados de previsão Kalshi teria recuado de seus planos de permitir a negociação sobre a entrada ou saída de atletas individuais da NCAA no portal de transferências do esporte universitário, após forte reação contrária da própria NCAA e críticas generalizadas nos setores esportivo e de apostas.
De acordo com registros regulatórios, a Kalshi havia protocolado junto à Commodity Futures Trading Commission (CFTC) um pedido de autocertificação de uma série de contratos de eventos vinculados à atividade do portal de transferências. Os contratos propostos, que estavam previstos para entrar no ar a partir de 17 de dezembro, permitiriam que usuários negociassem com base nas decisões de transferência de estudantes-atletas específicos.
A iniciativa provocou reação imediata da National Collegiate Athletic Association (NCAA), que alertou que mercados atrelados às decisões individuais de atletas poderiam exercer pressão indevida sobre os jogadores e comprometer a integridade do esporte universitário.
NCAA classifica mercados do portal de transferências como “absolutamente inaceitáveis”
O presidente da NCAA, Charlie Baker, condenou publicamente a proposta, classificando-a como “absolutamente inaceitável” e alertando que ela exporia estudantes-atletas a níveis ainda maiores de assédio e abusos.
The @NCAA vehemently opposes college sports prediction markets. It is already bad enough that student-athletes face harassment and abuse for lost bets on game performance, and now Kalshi wants to offer bets on their transfer decisions and status — this is absolutely unacceptable…
— Charlie Baker (@CharlieBakerMA) December 18, 2025
“Já é ruim o suficiente que estudantes-atletas enfrentem assédio e abusos por apostas perdidas relacionadas ao desempenho em jogos”, escreveu Baker na plataforma X. “Suas decisões e seu futuro não devem ser objeto de apostas, especialmente em um mercado não regulamentado que não segue nenhuma das regras aplicáveis aos operadores legítimos de apostas esportivas.”
Posteriormente, a NCAA confirmou à SiGMA News que não teria comentários adicionais além da declaração de Baker.
Kalshi recua após reação negativa
Poucas horas após as críticas, a Kalshi informou que não daria continuidade aos contratos, ao menos por enquanto. Em comunicado compartilhado pelo repórter da ESPN David Payne Purdum, a empresa afirmou que costuma autocertificar mercados que, no fim das contas, nunca chegam a ser listados.
“Certificamos mercados o tempo todo que acabam não sendo listados; apesar de nossos concorrentes manterem esses mercados ativos, não temos planos imediatos de listar esses contratos”, afirmou a Kalshi.
Segundo o registro da Kalshi junto à CFTC, os contratos seriam liquidados com base na entrada ou retirada pública de um jogador no portal de transferências da NCAA dentro de um período previamente definido. As fontes de verificação incluiriam dados oficiais do portal de transferências da NCAA, comunicados de departamentos esportivos das universidades, publicações verificadas em redes sociais e reportagens da mídia esportiva nacional.
A Kalshi destacou que declarações públicas feitas pelos próprios atletas seriam consideradas sinais válidos, enquanto especulações da mídia, por si só, não seriam suficientes.
Salvaguardas de integridade apresentadas pela Kalshi
A bolsa afirmou que teria proibido a negociação por parte de atletas, treinadores, funcionários de departamentos esportivos, agentes, familiares diretos e qualquer pessoa com acesso a informações internas ou não públicas.
Respondendo às preocupações sobre supervisão regulatória, a Kalshi declarou à SiGMA News: “É incorreto dizer que somos não regulamentados. Somos uma bolsa regulamentada em nível federal, regida pela Commodity Exchange Act e por centenas de normas. Como empresa, também contamos com políticas internas abrangentes para lidar com questões de integridade e responsabilidade nas negociações, incluindo sistemas de monitoramento internos e de terceiros que acompanham a atividade de trading. Realizamos verificações de Know Your Customer (KYC) com todos os usuários que negociam em nossa plataforma.”
A Kalshi também enfatizou que sua plataforma funciona de maneira diferente dos produtos tradicionais de apostas. “A Kalshi opera como o mercado de ações, e não como um cassino. Em cassinos, a casa sempre ganha. Na Kalshi, não há ‘casa’. Nós não ganhamos quando nossos clientes perdem”, afirmou um porta-voz.
Tensões recorrentes entre NCAA e Kalshi sobre marca e implicações
A controvérsia envolvendo o portal de transferências ocorre após episódios anteriores de atrito entre a Kalshi e a NCAA. Em novembro, a entidade solicitou que a Kalshi deixasse de sugerir qualquer tipo de relação institucional entre as duas organizações.
Em uma carta datada de 30 de outubro, compartilhada com a SiGMA News, o vice-presidente sênior e diretor jurídico da NCAA, Scott Bearby, contestou o uso da expressão “Outcome verified from NCAA” (“Resultado verificado pela NCAA”), que continha um link direcionando para o site NCAA.com.
“A NCAA está preocupada que essa linguagem leve o público consumidor a acreditar que existe algum tipo de relação entre a NCAA e a Kalshi, envolvendo uma suposta ‘verificação’ ou ‘aprovação’ de dados por parte da NCAA”, escreveu Bearby.
A NCAA solicitou que a Kalshi alterasse a redação para “Outcome sourced from NCAA.com” (“Resultado obtido a partir de NCAA.com”) e incluísse um aviso esclarecendo que não há qualquer afiliação entre as duas entidades. A Kalshi afirmou que estava trabalhando para ajustar a linguagem.
Parcerias com ligas evidenciam contrastes regulatórios
Diferentemente da NCAA, a National Hockey League (NHL) mantém uma parceria oficial com a Kalshi e com a plataforma concorrente Polymarket. Anunciado em outubro de 2025, o acordo concede acesso a dados oficiais e ao uso da marca da NHL.
A Kalshi também possui uma afiliação de mídia com a NFL por meio da FOX, embora sua relação com outras ligas tenha sido marcada por controvérsias. No início deste ano, a NFL e a NFL Players Association confirmaram que não possuem qualquer relação comercial com a Kalshi, após questionarem o uso não autorizado de imagens da liga.
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