Algumas pessoas crescem respirando pressão da mesma forma que outras respiram ar. Vencer vira pertencimento, o silêncio vira armadura, e a identidade passa a depender daquilo que gera aplausos. Vista de fora, essa jornada parece heroica — mas pode se transformar numa crise silenciosa quando os aplausos cessam. É aí que se abre a porta oculta entre desempenho e saúde mental no contexto do jogo, uma realidade em que muitos se voltam para dentro porque foram treinados para suportar, não para expressar.
Na terceira parte da série especial da European Safer Gambling Week para a SiGMA News, Liz Karter MBE destacou as realidades clínicas do dano relacionado ao jogo e suas diferenças entre gêneros. Agora, na quarta parte, a psicoterapeuta esportiva Lauren Vickery, que atua na interseção entre performance, identidade e regulação emocional, descreve com precisão o padrão psicológico que se repete:
“O valor próprio passa a ser associado ao ato de vencer e ultrapassar limites muito antes de a pessoa construir um senso de identidade.”
“Existe um motivo para essas pessoas chegarem ao topo”, explica Lauren. “A pressão não apenas fazia parte do ambiente — ela moldou quem eles eram. Tornou-se identidade muito antes de a identidade se tornar uma escolha.”
Para alguns, ela diz, essa pressão vira fonte de validação; para outros, uma forma de criar confiança ou esconder dores profundas. O resultado é uma identidade apoiada em controle, disciplina e conquistas.
Às vezes, os mesmos hábitos que construíram resiliência se tornam os hábitos que escondem vulnerabilidade. O que começa como disciplina pode, silenciosamente, virar autoexílio emocional.
Quando o “lidar” vira camuflagem
Quando alguém aprende a empurrar, aperfeiçoar e performar — em vez de pausar, acalmar-se ou pedir ajuda — tende a recorrer a estratégias de enfrentamento que são familiares, não necessariamente saudáveis. Lauren explica que as pessoas não caem em padrões prejudiciais por acaso; elas se aproximam de comportamentos que refletem o ritmo emocional que sempre viveram.
“Quando a pessoa não aprende a se autorregular emocionalmente ou a buscar apoio, é aí que vemos o surgimento de mecanismos de enfrentamento.”
As pessoas não se envolvem em padrões prejudiciais de forma aleatória.
“Athletes e apostadores frequentemente buscam comportamentos que recriam ritmos emocionais já conhecidos: risco, adrenalina, foco e um desfecho claro de vitória ou derrota”, afirma.
Elas se aproximam daquilo que se parece com o que já viveram — não necessariamente do que é mais seguro a longo prazo.
Por isso, o jogo pode oferecer o mesmo foco intenso, distração, anestesia emocional e rápida regulação interna que performers de alta pressão utilizam durante a vida inteira. É essa compatibilidade que torna impossível dissociar saúde mental de condicionamento emocional no contexto do jogo.
“O jogo pode oferecer o mesmo impulso rápido de dopamina, distração ou sensação de controle”, explica Lauren, especialmente em momentos de sobrecarga emocional.
“As pessoas tentam resolver problemas internos com soluções externas — e é por isso que, no longo prazo, esses comportamentos nem sempre ajudam.”
Esses mecanismos não são escolhidos por prazer, mas por alívio, familiaridade e sobrevivência emocional.
Por que o silêncio parece mais seguro do que a honestidade
As pessoas não se calam por falta de coragem. Elas se calam porque acreditam que o mundo ao redor não pode suportar o que elas precisam dizer. Essa crença nasce muito antes da primeira aposta. O silêncio vira uma espécie de armadura emocional. Protege a identidade construída — mesmo que, aos poucos, machuque quem está por baixo.
Lauren observa esse padrão tanto nos esportes quanto no jogo. Algumas pessoas crescem lidando com tudo sozinhas, em ambientes onde vulnerabilidade é algo raro, desencorajado ou até julgado. Quando uma vida inteira é moldada por controle, desempenho, reputação e “manter-se firme”, vulnerabilidade parece uma ameaça — não uma saída. Por isso a saúde mental no jogo ainda é tão difícil de abordar: o silêncio é o caminho mais fácil, e a vergonha é o silenciador mais eficiente.
“A vergonha isola profundamente”, diz Lauren, acrescentando que a baixa autoestima funciona como um filtro invisível que convence a pessoa de que todos os outros merecem ajuda — menos ela.
“Quando a vergonha aparece, a pessoa deixa de se ver como alguém digno de cuidado. A sobrevivência substitui a expressão.”
O silêncio vira um lugar conhecido. Falar é como abrir uma porta sem saber se há algo seguro do outro lado. E se alguém passou a vida inteira provando que consegue lidar sozinho, pedir ajuda parece quebrar um pacto pessoal.
Mas o mesmo padrão que silencia também pode abrir caminho para a mudança. “O que finalmente leva alguém a falar geralmente é exatamente o oposto do que o manteve calado”, observa.
Quando a dificuldade é normalizada, e não patologizada; quando a reação de quem ouve é firme, e não chocada; e quando pedir ajuda não coloca em risco a identidade ou as oportunidades de alguém — a segurança retorna. As pessoas se abrem quando acreditam que suas confissões não vão redefinir quem elas são aos olhos dos outros. O silêncio não é o ferimento — é o curativo que nunca deveria ser permanente.
O plano emocional que acaba falhando
Coping não é aleatório. O corpo guarda o que funcionou muito antes de a mente entender o motivo. Quando a pressão vira identidade, a tendência é buscar hábitos que pareçam controle, não segurança. No esporte e no jogo, isso pode significar perseguir foco, distração ou uma sensação rápida de ordem quando as emoções se tornam grandes demais para lidar.
Lauren explica que, sem aprender a regular emoções ou pedir apoio, a pessoa é muito mais propensa a recorrer a mecanismos que oferecem alívio imediato — em vez de proteção duradoura. Esses comportamentos refletem padrões de sobrevivência aprendidos: intensidade, recompensa, hiperfoco e alívio rápido.
É por isso que o jogo se encaixa tão facilmente nesse “mapa emocional”. O problema não é a diversão nem a impulsividade. O jogo oferece uma descarga rápida de dopamina, distração ou controle — aliviando temporariamente o barulho interno. Não é que as pessoas queiram apostar; é que o jogo combina com o estado do qual elas tentam escapar, administrar ou silenciar.
Essas decisões não são irresponsáveis. São familiares. O perigo não é o sentimento — é o acreditarem que precisam lidar com ele sozinhas.
Quando um comportamento parece saudável — até machucar
O que aparenta força por fora pode, aos poucos, virar autonegligência por dentro. A mentalidade que um dia rendeu medalhas, carreiras ou admiração não desaparece quando a vida fica instável — ela apenas se adapta. Muitas vezes, de formas que continuam parecendo disciplina, produtividade ou até virtude.
O excesso de treino vira estratégia de enfrentamento.
O controle vira forma de proteção.
O silêncio vira rotina.
O jogo deixa de ser busca por emoção e passa a funcionar como um “botão interno de reinício”.
Lauren explica que esses padrões surgem muito antes de qualquer sinal evidente de dano. Eles são aprendidos por repetição, reforçados por elogios e sustentados pela identidade — não pelo desejo.
Quando alguém foi ensinado a “saber a hora de forçar e a hora de parar”, essa linha fica turva se pausar é visto como fraqueza e vulnerabilidade como fracasso.
As pessoas não buscam caos. Elas buscam regulação, clareza e uma sensação breve de ordem. É por isso que a saúde mental no contexto do jogo precisa ser entendida muito antes de a história envolver dinheiro ou perdas.
“Sustentabilidade emocional vive no longo prazo — no ritmo, no autoconhecimento, nos limites, na recuperação e na conexão honesta”, diz Lauren. O dano começa quando a mente acredita que resistir é a solução e sentir é a ameaça.
A pergunta silenciosamente muda de:
“Como eu continuo?”
para:
“Como eu continuo inteiro sem me perder no silêncio?”
Reconstruindo a identidade sem o placar
Identity built on performance is powerful, but fragile. When worth has been measured by outcomes, applause, or discipline, the silence that follows can feel like freefall.
Lauren explains that rebuilding identity after a high-pressure life doesn’t begin with achievement. It starts with rediscovery. It means working out who you are without the metrics that once told you your worth. She describes the process as shifting from external worth to internal truth.
That involves exploring interests beyond outcomes, reflecting on strengths that are not tied to winning, and building relationships where the measure is connection rather than performance. “Exploring interests and values outside performance” becomes not a hobby, but a lifeline.
Lauren notes that self-compassion sits at the centre of this transition. “Practising self-compassion and self-validation” helps people recognise that effort, growth, and courage count, even when no one is watching.
A grounded identity becomes multidimensional, flexible, and human, allowing someone to face uncertainty without reverting to old survival patterns. This is where mental health in gambling finds its strongest prevention: not in rules alone, but in helping people build a sense of self that does not fracture under pressure.
Como deve ser o suporte eficaz na prática
Uma identidade baseada em performance é poderosa — mas frágil. Quando o valor próprio é medido por resultados, aplausos ou disciplina, o silêncio que vem depois pode parecer queda livre.
Lauren explica que reconstruir a identidade depois de uma vida sob alta pressão não começa pela conquista — começa pela redescoberta. É descobrir quem você é sem os indicadores que antes definiam seu valor. Esse processo é uma transição do valor externo para a verdade interna.
Isso envolve explorar interesses que não dependam de resultados, refletir sobre forças que não estejam atreladas a vencer e criar relações em que a medida seja conexão, não desempenho. “Explorar interesses e valores além da performance” deixa de ser hobby e passa a ser linha de vida.
Lauren destaca que a autocompaixão é o centro dessa virada. “Praticar a autocompaixão e a autovalidação” ajuda a reconhecer que esforço, crescimento e coragem contam — mesmo quando ninguém está assistindo.
Uma identidade sólida se torna multidimensional, flexível e humana, permitindo enfrentar incertezas sem recorrer a antigos padrões de sobrevivência. É aqui que a saúde mental no jogo encontra seu pilar mais forte de prevenção: não apenas em regras, mas em ajudar pessoas a construírem um senso de si mesmas que não se quebra sob pressão.
Por que a prevenção precisa começar muito antes da crise
A prevenção não pode depender de limites financeiros, sinais visíveis de declínio ou tentativas de “salvar” alguém na última hora. As pessoas chegam ao ponto de crise porque nunca aprenderam a reconhecer quando estão em dificuldade — ou porque acreditam que pedir ajuda significaria perder espaço, respeito ou pertencimento.
Para Lauren Vickery, a saúde mental no contexto do jogo só estará protegida quando a educação emocional fizer parte da vida muito antes de qualquer aposta, e não apenas depois que os alertas aparecerem. Ela destaca que o suporte precisa ajudar as pessoas a entender como elas se sentem, não apenas como se comportam. A prevenção funciona quando pedir ajuda é visto como um ato que fortalece a identidade, e não como um risco para ela. Como ela mesma resume:
“Pessoas sob pressão não prosperam porque conseguem resistir indefinidamente, mas porque sabem que são vistas, apoiadas e valorizadas como seres humanos por inteiro.”
Prevenção não é uma operação de resgate. É uma cultura, uma linguagem e um ambiente onde a honestidade já é segura muito antes de qualquer dano acontecer. Quando indivíduos orientados por desempenho finalmente entendem que buscar apoio não exige fracasso, o processo de cura deixa de ser escondido — e o cuidado chega antes, não depois.
A verdade silenciosa por trás da saúde mental no jogo é simples: as pessoas se quebram no silêncio — e se reconectam ao se sentirem amparadas.Durante a European Safer Gambling Week, uma cobertura especial da SiGMA News apresentou Craig Cornforth, da EPIC Global Solutions, que falou sobre como a experiência vivida pode orientar estratégias operacionais e por que a prevenção começa muito antes de qualquer sinal visível de risco. Já Grainne Hurst, do Betting and Gaming Council, abriu a série com uma análise direta sobre proteção ao consumidor, intervenção precoce e o que realmente está por trás das narrativas públicas sobre danos relacionados ao jogo.
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