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“Quando aposto, deixo de existir”: danos do jogo entre mulheres ainda são incompreendidos

David Gravel
Escrito por David Gravel
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

“Quando estou jogando, é como se eu deixasse de existir.” A frase chega de forma discreta — não como uma confissão, mas como uma constatação. É uma linha que Liz Karter, MBE, ouviu inúmeras vezes ao longo de 25 anos de trabalho clínico com mulheres afetadas por danos relacionados ao jogo. Para ela, continua sendo a descrição mais precisa de como a dependência apaga a presença muito antes de esvaziar a conta bancária.

Historicamente, as mulheres sempre foram menos visíveis nos tratamentos e nas discussões públicas — não porque os danos fossem menores, mas porque os prejuízos enfrentados por elas são mais ocultos e mais estigmatizados. Muitas recorrem ao jogo como estratégia para lidar com emoções difíceis e, por isso, têm medo de abrir mão desse recurso. Até pouco tempo atrás, Liz atendia mulheres que ouviam de jogadores homens que elas não tinham “problemas de jogo de verdade”. Como os padrões de jogo entre homens e mulheres são muito diferentes, essa mensagem desdenhosa afastava muitas delas da busca por tratamento.

Essa invisibilidade moldou a forma como o dano é compreendido, medido, reportado e tratado. Apesar dos avanços, ainda há uma compreensão insuficiente da experiência feminina, que permanece abaixo da superfície do debate mais amplo do setor. Liz argumenta que, enquanto as mulheres não puderem falar sem medo de julgamento moral ou de serem mal interpretadas, políticas e práticas continuarão deixando passar sinais essenciais.

O que as mulheres revelam sobre como o dano acontece

O trabalho de Liz expõe um padrão que sempre esteve ali, mas pouco observado. Muitas mulheres não jogam pela excitação, pelo barulho ou pela competição. Jogam pelo silêncio. Jogam para respirar. O objetivo não é adrenalina, e sim pausa — não ganhar mais, mas sentir menos. É aí que se percebe por que os danos vividos por mulheres ainda são tão mal compreendidos. A motivação costuma ser a fuga emocional, e não a busca por risco ou euforia.

Enquanto muitos homens são atraídos pela velocidade, disputa e adrenalina, um grande número de mulheres descreve o jogo como um casulo que oferece distância temporária do cansaço, do medo ou do luto.

Uma das frases que Liz ouve com frequência resume esse sentimento de forma precisa: “Quando eu jogo, eu deixo de existir por um tempo.”

Compreender essa diferença é fundamental. Não se trata de comparar qual dano é maior, mas de reconhecer que as razões que levam alguém ao jogo precisam orientar tanto as estratégias de prevenção quanto a oferta de ajuda. Se o motor é o esgotamento emocional — e não a busca de excitação — a resposta não pode ser construída apenas com lógica. Muitas mulheres atendidas por Liz descrevem o jogo menos como entretenimento e mais como um anestésico emocional.

Salas de bingo, caça-níqueis e mecânicas automatizadas de repetição proporcionam imersão, ritmo e silêncio. O produto deixa de ser lazer e passa a funcionar como um refúgio emocional. Liz destaca que essa forma de jogar não é exclusiva das mulheres.

“Hoje eu também trabalho com jovens que procuram essa mesma sensação, porque a vida tem se tornado cada vez mais difícil e preocupante para eles.”

A partir daí, vergonha e culpa constroem uma segunda armadilha. Quando finalmente falam sobre sua situação, muitas mulheres começam pedindo desculpas. O medo raramente se resume ao dinheiro. Ele envolve a sensação de falhar em papéis que se espera que elas desempenhem: mãe, parceira, gestora, profissional, ponto de apoio emocional. O dano se torna múltiplo. Há o jogo em si — e há a crença de que as consequências fazem dela uma “má mulher”. Essa narrativa interna muitas vezes fere mais do que a perda financeira.

Por isso, a terapia não trata apenas de interromper o jogo. Frequentemente envolve reconstruir a relação da mulher consigo mesma: aprender a ser gentil consigo, a descansar, a dizer não às demandas externas, a acolher suas imperfeições e ainda assim se reconhecer como alguém digna de cuidado. Liz descreve esse processo como um retorno à parte de si que ficou soterrada por obrigações.

Sua visão é simples, mas profundamente poderosa:

“As mulheres não jogam porque não se importam. Muitas jogam porque se importaram demais, por tempo demais, sem ter onde colocar o peso dessa responsabilidade.” Liz resume isso em uma de suas observações clínicas mais marcantes: “É por se importar tanto — colocando todos acima de si mesma e se esgotando com responsabilidades esmagadoras — que ela acaba buscando no jogo uma forma de escapar.”

Por que os danos enfrentados por mulheres ainda são mal compreendidos

Durante anos, os modelos usados para identificar e responder ao dano no jogo foram construídos com base em comportamentos tipicamente masculinos: escalada financeira, risco visível, perseguição de perdas e aumento rápido nos gastos. Esses indicadores continuam relevantes — mas não são universais. Como explica Liz, os danos que atingem mulheres ainda são mal compreendidos não porque sejam novos, mas porque nunca foram examinados a partir de sua própria lógica.

Elas podem distribuir pequenas quantias em sessões longas, em vez de gastar agressivamente. Podem jogar tarde da noite, em casa com os filhos dormindo, no trabalho, ou a caminho de casa — e não em ambientes sociais. Um risco igualmente sério é o tempo perdido. Muitas são articuladas, funcionam bem e mantêm boa aparência. Convivem com o sofrimento e o disfarçam. Conseguem explicar seu comportamento e passar por verificações de risco que dependem quase exclusivamente de alertas financeiros.

Isso não é uma crítica a profissionais, operadores ou reguladores. É um reflexo de como modelos de saúde comportamental costumam surgir: moldados pelo perfil majoritário das pessoas que chegam ao tratamento primeiro. No jogo, esse grupo era formado principalmente por homens. Mas quando o modelo é construído com base em um único perfil, todos os demais passam a ser avaliados por um filtro distorcido.

Houve progresso. Estão surgindo espaços de tratamento exclusivos para mulheres, redes de apoio baseadas em experiências reais e práticas informadas por trauma. Mas o sistema ainda está correndo atrás da realidade que Liz observa há décadas: quando buscamos sinais que não correspondem ao que as mulheres realmente sentem, deixamos de enxergar justamente quem mais precisa de apoio.

Quando as palavras que deveriam ajudar acabam ferindo

Se a causa e a consequência da dependência em jogos estão enraizadas no sofrimento emocional e mental, a linguagem deixa de ser um detalhe e se torna parte da intervenção. Liz observa como termos comuns do setor podem aprofundar vergonha e culpa de forma involuntária — e como o dano enfrentado por mulheres ainda é mal compreendido também no nível do discurso, não apenas da política pública.

Expressões como “jogo responsável” ecoam de forma distinta para alguém que já se sente falhando em todos os papéis que exerce. O oposto implícito — irresponsável — vira mais uma lembrança de inadequação enquanto mãe, parceira, colega ou cuidadora.

As “verificações de acessibilidade financeira” geram reação semelhante: não porque as mulheres rejeitem proteção, mas porque a expressão remete a exposição, julgamento e ao medo de serem “descobertas”.

Para muitas, o jogo não é busca de emoção. É anestesia. Uma forma de desaparecer, de silenciar o tumulto, de não sentir — em vez de sentir demais. Dizer a alguém nesse estado que seja “responsável” é como entregar uma bússola a quem já está submerso.

Liz defende que a linguagem precisa validar o terreno emocional, não apenas mencionar dinheiro ou risco. Palavras que reconheçam estresse, saúde mental e histórias de vida criam segurança, não defesa. Quando uma mulher ouve algo como “Você merece apoio e um espaço seguro para falar sobre o que a trouxe até aqui”, as chances de ela buscar ajuda aumentam.

Quando mudamos a linguagem, não diluímos responsabilidade. Abrimos caminho para ela.

O que a indústria ainda não enxerga — e por que danos sutis seguem despercebidos

Grande parte das práticas de proteção do setor ainda gira em torno de indicadores financeiros e sinais de risco mais visíveis. No entanto, Liz destaca que os danos relacionados ao jogo entre mulheres muitas vezes evoluem de forma silenciosa, sem os picos dramáticos que muitos sistemas estão programados para identificar.

Enquanto alguns homens tendem a buscar ganhos, fazer apostas de forma agressiva ou alternar entre vários produtos, muitas mulheres estendem pequenas quantias ao longo de longas sessões, em busca de entorpecimento emocional — não de emoção financeira. Nesse cenário, o tempo dedicado ao jogo se torna um indicador muito mais preciso de risco do que o valor perdido. Liz aponta que muitas dessas mulheres são introvertidas extremamente sensíveis, o que dificulta ainda mais que falem abertamente sobre o que estão vivendo.

Ela compartilha um caso que expõe esse ponto cego. Uma cliente em intenso sofrimento emocional conseguiu convencer um atendente de que estava bem porque ainda tinha um saldo alto na conta bancária. Esse dinheiro vinha de um acordo de divórcio — em um momento de luto profundo. Ela era articulada, profissional e conseguiu mascarar o sofrimento naquela conversa única. Dois dias depois, todo o valor havia desaparecido.

Uma abordagem diferente poderia ter reduzido o dano — não um formulário rígido, não uma postura de desconfiança, mas um tipo de curiosidade genuína: perguntas sobre mudanças na vida, estado emocional, alterações súbitas de comportamento. Em outras palavras, não apenas “Você pode pagar por isso?”, mas “Como você está segurando tudo isso?”

Essa diferença não é sentimental. É clínica. E significativa. E pode mudar trajetórias — não apenas estatísticas.

Por que a autocompaixão importa — e como a empatia transforma a recuperação

Se há um ponto recorrente nos 25 anos de trabalho terapêutico de Liz Karter, é este:

A culpa é a maior barreira à recuperação de uma mulher.

Quando o jogo para, o ruído cessa. Logo após o alívio inicial, surge uma enxurrada de tudo o que ela acredita ter falhado — com os filhos, o parceiro, a casa, o trabalho, consigo mesma. Liz chama isso de “fase da compensação excessiva”: mulheres gastam cada gota de energia tentando devolver o que acham que tiraram. É insustentável — e inevitavelmente as quebra. O cansaço se transforma em ressentimento, o ressentimento vira vergonha, e a vergonha abre caminho direto para a recaída.

O padrão é previsível — e profundamente humano: ela jogava para escapar de responsabilidades esmagadoras. Para fugir de tudo. Quando para de jogar, sente que precisa assumir responsabilidade por absolutamente tudo. E se destrói sob o peso de tentar reparar o passado.

Para Liz, o ponto de virada é sempre o mesmo. Autocompaixão não é um conceito “suave”. É uma intervenção clínica. Ela orienta as mulheres a voltarem mentalmente ao momento anterior à escalada do jogo — à versão delas mesmas que estava exausta, assustada, sobrecarregada ou emocionalmente afundando. Quando passam a olhar para essa versão com gentileza, e não com julgamento, algo muda por dentro. A culpa afrouxa. O ciclo se rompe. A recuperação se torna possível.

É aqui que a linguagem usada pelo setor também faz diferença. Quando operadores reforçam uma narrativa baseada em culpa — “jogo responsável”, “capacidade financeira”, “controle” — reforçam exatamente o tipo de mentalidade que prolonga o dano. Quando a linguagem reconhece a carga emocional, o contexto de vida e a vulnerabilidade humana, as mulheres se sentem muito mais à vontade para buscar ajuda cedo.

Empatia não reduz padrões. Não significa passar a mão na cabeça ou justificar comportamentos de jogo. Significa entender o que levou aquela pessoa até ali.

Empatia eleva.

Porque cria as condições necessárias para que a mudança, de fato, aconteça.

Um desafio para a European Safer Gambling Week

Para o ciclo de campanhas deste ano, Liz traz um desafio simples, porém transformador: contar mais histórias de mulheres. Contá-las por inteiro.

Não apenas sobre o colapso financeiro.

Não apenas sobre manchetes de choque.

Não apenas sobre o momento da crise.

Ela defende que prevenção real e intervenção precoce só são possíveis quando o caminho até o problema é iluminado com a mesma clareza que o caminho para fora dele. Quando mulheres ouvem outras falando abertamente sobre exaustão, solidão, pressão de cuidado, depressão silenciosa, colapso de identidade ou traumas não resolvidos — muito antes de a conta bancária zerar — elas se reconhecem mais cedo. É aí que a compreensão mais ampla sobre os danos do jogo entre mulheres precisa começar: não no momento do colapso, mas no acúmulo silencioso que ninguém vê.

Pode ser a diferença entre pedir ajuda no segundo mês, em vez do quinto ano. Histórias não são apenas ferramentas de conscientização. Elas são espelhos, mapas, alertas e convites.

Se o setor quer alcançar mulheres antes que o dano escale, a comunicação precisa evoluir de “Veja o que aconteceu comigo” para “Veja como cheguei até aqui — e por que isso pode acontecer com outras mulheres”.

Essa mudança narrativa não apenas ajuda mulheres a se sentirem vistas. Ajuda também familiares, colegas, educadores e operadores a detectarem sinais mais cedo, antes do ponto de ruptura. Redes de tratamento recentes apontam que mulheres costumam buscar ajuda mais tarde, após longos períodos de agravamento — reforçando a urgência de caminhos específicos para cada gênero.

Um futuro baseado em empatia — não em suposições

O dano relacionado ao jogo entre mulheres sempre existiu — mas só recentemente começou a ser expressado com sua própria voz. A principal lição do trabalho de Liz não é apenas que mulheres vivem o vício de maneira diferente, mas que seus caminhos até o dano — e para fora dele — precisam ser compreendidos sob suas próprias realidades, não sob suposições do setor.

Se “jogo mais seguro” quiser ser mais do que uma expressão de compliance, precisa reconhecer nuances: O dano nem sempre é barulhento, visível ou financeiro. Para muitas mulheres, ele é silencioso, emocional, mascarado por responsabilidades. Perguntas melhores, um tom mais cuidadoso e maior sensibilidade cultural podem incentivar pessoas a buscar ajuda muito antes do colapso.

Houve avanços — mas o próximo passo não é aumentar o volume dos alertas.

É ouvir mais cedo.

A European Safer Gambling Week oferece um holofote anual. O trabalho de Liz Karter MBE lembra que empatia, cuidado técnico e suporte com recorte de gênero não podem desaparecer quando a campanha termina. O desafio real é garantir que mulheres cheguem ao tratamento como parte da história — não como exceções dentro dela.

O futuro do jogo mais seguro não será medido apenas por ferramentas ou regras, mas por nossa capacidade de fazer com que as pessoas se sintam compreendidas antes que o dano escale.

Este é o terceiro artigo exclusivo da série da SiGMA News para a European Safer Gambling Week. Nos anteriores, Craig Cornforth, da EPIC Global Solutions, discutiu como experiências vividas podem atuar como inteligência operacional, reforçando que a prevenção começa muito antes do dano se tornar visível. Já Grainne Hurst, do Betting and Gaming Council, abriu a série com uma análise direta sobre proteção ao consumidor, intervenção precoce e a realidade por trás das narrativas públicas sobre danos do jogo.

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