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Recorde de apostas no Super Bowl não significa mais danos relacionados ao jogo, afirma especialista

Neha Soni
Escrito por Neha Soni
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Enquanto os americanos se preparam para apostar um recorde de US$ 1,76 bilhão no Super Bowl LX, o aumento no volume de apostas não deve ser interpretado automaticamente como um sinal de crescimento dos danos relacionados ao jogo, segundo Keith Whyte, fundador e presidente da Safer Gambling Strategies LLC.

Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Whyte contestou a ideia de que recordes de apostas necessariamente resultem em níveis mais elevados de jogo problemático, ressaltando que o comportamento e a motivação dos apostadores são indicadores muito mais relevantes do que o valor total apostado.

“Em nível populacional, o volume de apostas não está automaticamente associado ao aumento das taxas de danos”, afirmou Whyte. “Se o volume fosse menor neste ano, ninguém presumiria que os problemas relacionados ao jogo teriam diminuído de repente.”

A Associação Americana de Jogos (AGA) prevê que o Super Bowl LX registrará o maior volume de apostas legais da história do evento, refletindo a expansão contínua do mercado regulado de apostas esportivas nos Estados Unidos. O presidente e CEO da AGA, Bill Miller, destacou que o Super Bowl segue impulsionando um engajamento sem precedentes entre os apostadores, ao mesmo tempo em que reforçou a importância das casas de apostas legalizadas e regulamentadas.

Por que a motivação importa mais do que o dinheiro

Whyte explicou que o verdadeiro risco está em compreender por que e como as pessoas estão apostando no jogo, e não apenas em observar o número absoluto divulgado nos noticiários.

“Grande parte do risco depende do motivo e da forma como cada indivíduo aposta no Super Bowl”, disse. “Eles estão apostando por diversão ou para pagar o aluguel? Estão jogando com amigos ou sozinhos? Estão tentando recuperar perdas de uma temporada ruim ou fazem apenas uma aposta pontual no show do intervalo?”

Segundo Whyte, essas diferenças são fundamentais para avaliar o potencial de dano, especialmente durante grandes eventos esportivos que atraem apostadores ocasionais e estreantes.

Sinais de alerta em torno do Super Bowl

Com tanta atividade concentrada em um único evento, alguns sinais de risco se tornam mais evidentes nesse período. “Um deles são as expectativas irreais”, afirmou Whyte. “Por exemplo, pessoas que acreditam que apostar no Super Bowl é um bom investimento.”

(Fonte: Super Bowl)

Outra preocupação é o excesso de empolgação, sobretudo em ambientes sociais onde o consumo de álcool e a atmosfera festiva podem estimular decisões impulsivas. “As pessoas se empolgam em festas, talvez bebendo além da conta, e acabam fazendo apostas grandes, impulsivas e mal pensadas, muito acima do que normalmente fariam”, explicou.

Proibição da NFL a anúncios de mercados de previsão

A NFL proibiu anúncios de mercados de previsão (prediction markets) na transmissão do Super Bowl deste ano, incluindo-os em sua lista de categorias publicitárias vetadas. Para Whyte, a decisão representa uma medida concreta de proteção ao consumidor, e não apenas um gesto simbólico.

“É uma boa decisão por dois motivos principais”, afirmou. “Primeiro, o status legal dos mercados de previsão em eventos esportivos é um tema altamente controverso. Além disso, muitos desses operadores praticamente não oferecem mecanismos de proteção ao consumidor.”

Ele acrescentou que, embora empresas de apostas que oferecem mercados de previsão geralmente estendam a essas plataformas suas políticas de jogo responsável, outras não fazem o mesmo, o que aumenta o risco de confusão para o público — um ponto também destacado pela AGA em pesquisas recentes.

Apesar da proibição, plataformas de mercados de previsão como a Kalshi permitiram que residentes apostassem nos resultados do Super Bowl LX, o que chamou a atenção de parlamentares da Califórnia, tribos indígenas ligadas ao setor de jogos e da própria NFL. A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, também alertou os nova-iorquinos antes do Super Bowl sobre os riscos desse tipo de plataforma, afirmando que elas não contam com as proteções ao consumidor exigidas dos operadores regulamentados.

Mensagens sobre jogo responsável ainda ficam em segundo plano

Mesmo com os investimentos massivos em publicidade durante o Super Bowl, Whyte criticou o fraco compromisso da indústria com mensagens de jogo responsável (RG – responsible gambling). “O Super Bowl é sempre uma grande oportunidade para a liga e para as empresas de apostas demonstrarem um compromisso real com o jogo responsável”, disse. “Infelizmente, a maioria dos anúncios trata esse tema como um detalhe de rodapé.”

Ele também chamou atenção para a ausência de uma abordagem nacional unificada sobre informações de linhas de ajuda. “Até que todos os envolvidos adotem um número nacional único para apoio, os espectadores continuarão vendo dezenas de números diferentes em letras minúsculas por apenas alguns segundos no final dos anúncios”, afirmou. “Isso acaba ridicularizando um dos princípios centrais do jogo responsável: mensagens claras e acionáveis para o consumidor.”

Preocupações com danos do jogo no Super Bowl LX

As preocupações levantadas por Whyte vêm sendo cada vez mais compartilhadas por reguladores e organizações de jogo responsável em toda a América do Norte. Diversos estados têm incentivado os torcedores a refletirem sobre os riscos antes de apostar no Super Bowl, com campanhas públicas focadas em limites, segurança das plataformas e expectativas realistas.

O Virginia Council on Problem Gambling recentemente alertou os fãs para pensarem com cuidado antes de apostar. “Antes de apostar em qualquer aspecto do Super Bowl, é importante considerar os riscos”, afirmou a Dra. Carolyn Hawley, presidente do Conselho. “Estabeleça limites para o tempo que você pretende passar em um terminal de apostas ou no celular, e também para o valor que está disposto a perder.”

Em Michigan, os reguladores intensificaram suas mensagens antes do jogo. O Michigan Gaming Control Board (MGCB) divulgou um comunicado público incentivando os moradores a apostar de forma segura e apenas por meio de operadores autorizados.

“O fim de semana do Super Bowl traz entusiasmo e energia para os fãs de futebol americano em todo o estado”, disse Henry Williams, diretor executivo do MGCB. “Queremos que todos aproveitem o jogo de forma segura e responsável, e a melhor maneira de fazer isso é apostando apenas com operadores licenciados e aprovados pelo MGCB.”

Pesquisas reforçam preocupações semelhantes

Essas preocupações também estão alinhadas a pesquisas recentes realizadas no Canadá. Um levantamento do Responsible Gambling Council revelou que 42% dos apostadores esportivos de Ontário pretendem apostar no Super Bowl, enquanto 38% dos adultos acreditam que seu conhecimento esportivo lhes dá vantagem — um excesso de confiança que pode levar a apostas acima do que é financeiramente sustentável.

Essa percepção foi mais comum entre pessoas de 18 a 34 anos, faixa etária que também se mostrou significativamente mais influenciada por amigos e familiares. Cerca de 72% dos apostadores desse grupo afirmaram que suas decisões foram influenciadas por outras pessoas, em comparação com 40% entre aqueles com mais de 55 anos.

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