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Jogo online e menores de idade: Bruxelas mira Snapchat, YouTube, Apple e Google

Tony Colapinto
Escrito por Tony Colapinto
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

O Digital Services Act (DSA) inaugura uma nova era de responsabilização das gigantes da tecnologia. O jogo não se limita a cartas ou cassinos virtuais. Há uma forma mais sutil e difundida, que infiltra feeds de redes sociais, plataformas de vídeo e aplicativos móveis. É a aposta na falsa sensação de segurança — a ilusão de proteção que as grandes empresas de tecnologia prometem, mas raramente cumprem. É justamente nesse ponto que a Comissão Europeia decidiu intervir, lançando uma investigação inédita sobre Snapchat, YouTube, Apple e Google, acusadas de não proteger menores de idade online.

Estas são as primeiras investigações oficiais conduzidas com base nas diretrizes de proteção infantil estabelecidas pelo Digital Services Act — o marco regulatório pelo qual Bruxelas busca responsabilizar legalmente as plataformas digitais pelo cuidado com jovens usuários.

Sistemas de verificação de idade sob análise

No centro da investigação estão os mecanismos de verificação etária, criados para impedir que crianças acessem conteúdo inadequado. Na prática, porém, esses sistemas muitas vezes funcionam apenas como barreiras simbólicas: uma data de nascimento falsa ou alguns cliques rápidos são suficientes para contorná-los.

A Comissão solicitou ao Snapchat que explique como aplica a proibição de menores de 13 anos, prevista em seus termos de serviço, e quais medidas adota para evitar a promoção de produtos proibidos, como cigarros eletrônicos e substâncias controladas. O YouTube, por sua vez, deve detalhar o funcionamento de seu algoritmo de recomendações, acusado de direcionar usuários jovens a conteúdos prejudiciais ou perturbadores.

Estudos anteriores já mostraram que buscas simples relacionadas a fitness ou dieta podem levar adolescentes a vídeos que promovem distúrbios alimentares ou comportamentos de autolesão. A linha entre entretenimento e exposição ao risco, portanto, é perigosamente tênue.

Apple e Google no foco: o risco escondido nos apps

A atenção da UE vai além das redes sociais. Apple App Store e Google Play, principais portas de entrada para download de aplicativos móveis, também estão sob escrutínio.

Bruxelas quer entender como essas plataformas impedem que menores baixem aplicativos ilegais ou nocivos: não apenas conteúdos violentos ou sexualizados, mas também apps que simulam jogos de azar ou permitem a criação de imagens sexuais não consensuais, conhecidas como apps de “nudify”.

O problema mais alarmante envolve aplicativos de estilo cassino disfarçados de jogos inofensivos. Por trás de interfaces coloridas e gamificadas, esses programas replicam mecanismos de cassinos online — recompensas instantâneas, microtransações e prêmios aleatórios — incentivando padrões de comportamento baseados em risco e recompensa, ensinando crianças a jogar sem que o jogo seja explicitamente identificado como tal.

“A segurança de menores não é opcional”

“A Comissão fará o que for necessário para garantir o bem-estar físico e mental de crianças e adolescentes online”, declarou Henna Virkkunen, Vice-Presidente Executiva para Soberania Tecnológica.

Com o DSA, a UE transformou a proteção infantil de um dever moral em obrigação legal. As plataformas devem provar que possuem sistemas de prevenção eficazes e verificáveis, não apenas políticas simbólicas ou caixas de seleção preenchidas automaticamente. A era da autorregulação, quando as gigantes tecnológicas definiam suas próprias regras, chega ao fim.

A nova face do jogo digital

A investigação abre um debate mais amplo sobre a evolução do jogo na era digital. Mesmo fora dos ambientes tradicionais de apostas, as plataformas expõem menores a formas ocultas de wagering, seja por meio de publicidade, loot boxes em jogos ou mecânicas baseadas em prêmios.

É uma zona cinzenta onde entretenimento e risco se sobrepõem, e os mesmos gatilhos psicológicos que mantêm o engajamento dos usuários — notificações, bônus, níveis, streaks — reproduzem o princípio da recompensa variável, que sustenta o vício em jogos de azar.

Europa entre inovação e proteção

Bruxelas enfrenta não apenas um desafio regulatório, mas também cultural. A UE quer mostrar que é possível equilibrar inovação e proteção, evitando tanto o pânico moral quanto a liberalidade excessiva. O objetivo é criar um ecossistema digital baseado em transparência e responsabilidade, onde grandes plataformas não possam mais se esconder atrás de complexidade técnica ou liberdade do usuário.

O desafio é imenso. Verificar a idade de milhões de usuários em um ambiente global e amplamente anônimo exige inovação tecnológica e mudança cultural. Nenhum algoritmo, por mais avançado, pode substituir a responsabilidade humana.

Novo modelo de responsabilidade digital

A Comissão anunciou planos de trabalhar com autoridades nacionais para identificar plataformas que apresentam maiores riscos para menores, intensificando monitoramento e fiscalização. Mas, além da conformidade, trata-se de um ponto de virada político.

Ao exigir responsabilidade de Snapchat, YouTube, Apple e Google, Bruxelas sinaliza uma transição para a responsabilidade digital compartilhada, onde crescimento e ética devem coexistir, e proteger crianças não é um fardo, mas um parâmetro de credibilidade.

Porque, em uma era em que cada clique pode parecer uma aposta, o verdadeiro risco não está em jogar, mas em permitir que os usuários mais jovens joguem sem regras.

Este artigo foi publicado originalmente em italiano em 15 de outubro de 2025.

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