No cruzamento entre inteligência artificial (IA) e iGaming, start-ups estão transformando rapidamente a forma como a indústria trabalha com personalização, conformidade regulatória e desenvolvimento de produtos. O mercado global de IA aplicada a jogos movimentou cerca de US$ 3,3 bilhões em 2024 e deve ultrapassar US$ 51 bilhões até 2033, com uma taxa de crescimento anual composta de aproximadamente 36%. Na Europa, esse segmento gerou cerca de US$ 795 milhões em 2024 e tem previsão de atingir mais de US$ 10,3 bilhões até 2033.
Para entender melhor essas mudanças, a SiGMA News conversou com Keith Zammit, CEO da Elevate AI, durante a SiGMA Euro-Med, em Malta. A entrevista abordou como a adoção da IA se diferencia entre Europa e Ásia, os desafios culturais e regulatórios enfrentados por desenvolvedores e quais regiões oferecem maior potencial para inovação em experiência do jogador, conformidade e monetização.
SiGMA News: Na Europa e na Ásia, como os operadores de iGaming estão adotando IA de forma diferente? Quais tendências regionais você observa em engajamento de jogadores e desenvolvimento de produtos? Há oportunidades de expansão ou colaboração entre essas regiões?
Keith Zammit, CEO da Elevate AI: A Europa é um mercado mais maduro. O que vemos é que a IA está sendo aplicada com foco em eficiência e otimização. Especificamente, em hiperpersonalização e fluxos de gestão de relacionamento com o cliente (CRM), para aumentar o valor do jogador ao longo da vida útil, além do uso da IA no jogo responsável, que considero um nicho muito relevante. No desenvolvimento de produtos, a IA é usada em processos contínuos de testes e retestes dentro do ambiente dos operadores.
No mercado asiático, a dinâmica é bem diferente. Lá, a prioridade está na alta velocidade e na personalização em escala micro, não macro. Também vemos o crescimento de comunidades e interações sociais impulsionadas por IA, algo que vem ganhando força na Ásia, além de um desenvolvimento de produtos mais experimental, incorporando IA diretamente nos jogos. Esse último ponto provavelmente enfrentaria restrições regulatórias na Europa, mas ainda é permitido em alguns mercados asiáticos.
Na Elevate AI, estamos justamente colaborando com clientes asiáticos para levar esse estilo de desenvolvimento acelerado ao mercado europeu e, ao mesmo tempo, compartilhar conhecimento europeu com a Ásia para aumentar o valor do jogador no longo prazo. Nosso foco inicial é o Sudeste Asiático, em especial Filipinas e Malásia. Também temos contatos no Japão, embora mais voltados para o setor de jogos sociais e mobile.
SiGMA News: Quais são os principais desafios ao adaptar soluções de iGaming baseadas em IA para mercados cultural e linguisticamente diversos?
Zammit: Acredito que o verdadeiro desafio não é a tradução, mas sim as nuances culturais. Ensinar uma língua a uma IA é fácil; ensinar cultura é muito mais difícil. É aí que algumas empresas estão se especializando, treinando algoritmos especificamente para essas sutilezas. Expressões linguísticas, termos ou frases usados em determinado contexto cultural podem não aparecer em notícias ou bases de treinamento, mas estão presentes no dia a dia.
Outro exemplo são os simbolismos culturais. Na China, o vermelho representa sorte e prosperidade; já na Europa, a cor costuma ser associada a perigo ou alerta. A maior parte das IAs disponíveis publicamente é treinada com dados americanos ou europeus, havendo poucas fontes asiáticas. Combinar diferentes conjuntos de dados é um caminho para reduzir essa lacuna. Por fim, temos os padrões comportamentais. Algumas startups com as quais trabalhamos possuem grandes volumes de dados do mercado europeu, mas o comportamento de um jogador europeu pode ser bem distinto do de um asiático — e vice-versa.
SiGMA News: Como start-ups e operadores lidam com conformidade regulatória em regiões com legislações tão distintas, como Europa e Ásia?
Zammit: A chave está em aplicar os princípios do próprio desenvolvimento de IA, construindo sistemas modulares. Essa abordagem permite que as ferramentas de IA aprendam e se adaptem às diferenças e mudanças regulatórias de cada mercado. Com esses módulos, conseguimos ajustar o modo de operação de acordo com o cenário regulatório local.
SiGMA News: Quais aplicações de IA têm se mostrado mais eficazes na personalização da experiência do jogador e no aumento da retenção em diferentes mercados?
Zammit: Vou focar no mercado europeu. O que mais se destaca hoje são os lobbies dinâmicos. Eles já existiam, mas eram limitados: os CRMs agrupavam jogadores em segmentos e filtravam conteúdos de forma macro. Com a IA, alcançamos a hiperpersonalização, criando um lobby realmente ajustado a cada jogador individualmente.
Além disso, a IA aprimora a capacidade preditiva. Agora, é possível identificar proativamente problemas de jogo compulsivo, fraudes ou lavagem de dinheiro — processos que antes eram tratados apenas de forma reativa. Por fim, destaco a ascensão dos CRMs impulsionados por IA, que tendem a ganhar papel cada vez mais relevante no mercado.
SiGMA News: Como a IA vem sendo utilizada para identificar comportamentos de jogo problemático ou prevenir fraudes em mercados internacionais?
Zammit: Uma das ferramentas mais interessantes que vi recentemente no campo do jogo responsável é um sistema de inteligência artificial capaz de analisar como o jogador se comporta e interage tanto com o site quanto com o jogo. A partir de centenas de pontos de dados, o sistema consegue prever se a pessoa está com raiva, triste, animada ou ansiosa. Em vez de reagir somente depois — quando, por exemplo, o jogador já perdeu alguns milhares de euros e só então recebe suporte — a IA consegue agir em tempo real. Ela identifica esses comportamentos de imediato e direciona o usuário para agentes de jogo responsável ou para o atendimento ao cliente, oferecendo ajuda imediata.
O mesmo se aplica à prevenção de fraudes e lavagem de dinheiro. Atualmente, a maioria dos sistemas é reativa: as transações costumam ser revisadas apenas no fim do dia, levando de 24 a 48 horas. Já uma ferramenta de IA pode monitorar as transações conforme acontecem e sinalizar atividades suspeitas na hora.
SiGMA News: Você enxerga a inovação impulsionada pela IA moldando os tipos de jogos que estão sendo desenvolvidos? Isso varia por região?
Zammit: Sem dúvida. A inteligência artificial está sendo usada em várias etapas do ciclo de desenvolvimento de jogos. Existem empresas como a XGENIA, que conseguem ir do conceito ao protótipo em poucos minutos. Outras, como o Flutter Group, contam com equipes internas inteiras dedicadas ao uso da IA para otimizar seus jogos. E ainda temos startups menores que analisam quais jogos têm bom desempenho, entendem por que eles funcionam e tentam reproduzir aquela fórmula especial — o chamado “molho secreto” dos títulos de sucesso.
A grande vantagem da IA é a velocidade e a escala. Antes, eram necessárias horas, ou até dias, para analisar dados. Agora, a IA processa tudo rapidamente, identifica fatores em comum e fornece insights que podem ser aplicados na criação de jogos melhores.
SiGMA News: Como as start-ups estão definindo os modelos de negócio ideais para diferentes mercados, considerando que o comportamento dos jogadores e a monetização variam bastante?
Zammit: Esse é justamente um dos focos da Elevate AI, o programa de aceleração que lidero. Uma de nossas prioridades é escolher a forma certa de monetização para cada produto de IA em desenvolvimento. As três principais tendências que observamos hoje são: manter o modelo tradicional de porcentagem sobre a Receita Bruta de Jogo (GGR), ou seja, revenue share; modelos baseados em desempenho; e o modelo mais recente, que vem ganhando espaço, baseado em uso.
A ideia é que não existe uma solução única que sirva para tudo em IA. Alguns produtos são mais exigentes que outros, por isso faz sentido adotar um sistema de créditos e uso. Para empresas ou startups que têm confiança no seu produto, o modelo de revenue share pode ser o mais adequado. Nos próximos anos, acredito que esses três caminhos tendem a se misturar em modelos híbridos, combinando uso e revenue share, ou uso e mensalidade fixa. À medida que as ferramentas se tornam mais personalizadas, os modelos de negócio também devem seguir esse movimento, inclinando-se para soluções baseadas em participação de receita ou pagamento por uso.
SiGMA News: Como a Elevate AI lida com a crescente demanda por soluções de IA e quais estratégias utiliza para equilibrar as necessidades dos clientes com a capacidade das startups?
Zammit: Nosso papel, como ponte entre o mundo das startups e o universo corporativo — que inclui operadores e provedores de plataformas —, é entender tanto o que os clientes precisam quanto o que as startups conseguem oferecer. A partir desse diálogo, conseguimos encontrar pontos de equilíbrio significativos.
Nem sempre é fácil. Muitas empresas preferem trabalhar no modelo de revenue share, pois isso reduz o risco. Ao mesmo tempo, no cenário global, as companhias estão percebendo que, se for possível ativar e desativar serviços de IA rapidamente — escalando quando necessário e reduzindo quando não há demanda —, é mais fácil controlar custos. O problema é que, em alguns casos, os modelos de revenue share acabam gerando despesas maiores do que o esperado.
SiGMA News: Quais são os benefícios e os desafios de integrar soluções de IA a plataformas consolidadas de iGaming em diferentes regiões??
Zammit: Integração é a palavra-chave. Eu destacaria três grandes desafios: a integração em si, a fragmentação dos dados e a resistência à mudança. Esses são os pontos centrais.
Embora a integração seja um desafio antigo no setor, hoje a tecnologia de IA consegue acessar rapidamente a documentação de APIs e realizar integrações de forma muito mais ágil. A principal limitação agora é a fragmentação dos dados. Muitas vezes, você tem uma ideia ou deseja desenvolver um produto ou ferramenta para resolver um problema específico, mas as informações estão espalhadas por várias fontes. Isso gera riscos de perda ou exposição de dados. Utilizar tecnologias adequadas e frameworks bem estruturados — especialmente soluções desenvolvidas sob medida ou com protocolos de segurança robustos — pode ajudar a mitigar esses riscos.
SiGMA News: Quais regiões você considera mais promissoras para o crescimento do iGaming impulsionado por IA, e por quê?
Zammit: Sendo de Malta, e com a Elevate AI também sediado lá, estamos promovendo a inovação em IA localmente. No entanto, vejo as maiores oportunidades em mercados pré-regulados, como América do Norte, América Latina e África. Também estamos trabalhando para expandir a inovação em IA no Sudeste Asiático.
Essas regiões pré-reguladas oferecem maior liberdade para lançar produtos de IA sem as restrições que poderiam limitar o uso de determinados dados. Além disso, permitem testar e validar a tecnologia, garantindo segurança e eficácia. Uma vez comprovadas, essas soluções podem ser apresentadas a reguladores da Europa e do Sudeste Asiático, levando a inovação também para mercados de jogos mais consolidados.
SiGMA News: Como você enxerga a transformação do iGaming pela IA nos próximos cinco anos, especialmente em relação ao engajamento do usuário, conformidade e inovação?
Zammit: Eu diria que, em até dois anos, no quesito engajamento do usuário, a palavra será individualização. Não se tratará mais de aplicar fórmulas fixas; cada jogador terá uma abordagem personalizada. A IA será capaz de compreender o comportamento de cada usuário e oferecer a experiência mais adequada, garantindo diversão, mas também protegendo o jogador de forma ativa.
No campo da conformidade, acredito que haverá uma mudança de uma postura reativa para uma proteção proativa. As equipes de compliance e de jogo responsável contarão com o suporte da IA para identificar e proteger jogadores em risco, reduzindo de forma significativa a possibilidade de alguém escapar dos mecanismos de monitoramento.
Em termos de inovação, vejo a evolução caminhando para a criação generativa — colocando o poder de criação nas mãos tanto dos usuários quanto das equipes internas. Muitas equipes do setor já utilizam o chamado vibe coding para personalizar plataformas e ferramentas. Com a maior adoção da IA e uma cultura cada vez mais voltada para startups, pequenos grupos dentro das empresas poderão desenvolver seus próprios produtos e sistemas, que depois serão integrados ao ecossistema principal, promovendo o que espero ser uma verdadeira inovação interna.
Zammit concluiu destacando que o foco da Elevate AI permanece em apoiar a inovação dentro do setor de iGaming. Ele ressaltou os desafios de desenvolver ferramentas de IA e de recrutar profissionais especializados, explicando que a aceleradora ajuda as empresas a reduzir riscos ao conectá-las com startups que já estão criando soluções nessa área. Normalmente, essas colaborações duram de quatro a seis meses, após os quais as companhias podem integrar essas equipes ou produtos internamente. Ele também incentivou maior participação individual na inovação em IA, observando que a Europa ainda está atrás dos Estados Unidos e da Ásia nesse aspecto. Ao oferecer acesso a redes do setor e a frameworks estruturados, iniciativas como a Elevate AI buscam ajudar startups e profissionais a desenvolverem produtos de sucesso e a contribuírem para a evolução do iGaming.
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