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Reforma do iGaming depende de regulação, não de proibição, afirma especialista

Sudhanshu Ranjan
Escrito por Sudhanshu Ranjan
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

O setor global de iGaming continua em expansão, com um valor estimado de US$ 105,5 bilhões em 2025 e projeções que apontam para US$ 286,4 bilhões até 2035. Isso representa uma taxa de crescimento anual composta de 10,5%, segundo relatório da Future Market Insights. Hoje, o iGaming já responde por aproximadamente 12,5% dos gastos mundiais com entretenimento digital, deixando de ser um segmento de nicho para se consolidar como uma das principais forças do cenário digital.

Apesar desse avanço, a indústria enfrenta crescente pressão regulatória, à medida que governos ao redor do mundo tentam lidar com a rápida evolução do setor. A expansão acelerada tem provocado uma onda de respostas legislativas: enquanto alguns países optam pela regulamentação, outros recorrem a proibições totais.

Reviravolta regulatória no jogo online

Um exemplo recente vem da Índia, cujo Parlamento aprovou a Lei de Promoção e Regulamentação do Jogo Online de 2025, que impõe a proibição total de plataformas de jogos com dinheiro real. A legislação também criminaliza endossos de celebridades, prevendo penas de até dois anos de prisão e multas que podem chegar a ₹1 crore (cerca de US$ 113,9 mil).

A repressão, no entanto, não se limita à Índia. Em 2025, o governo das Filipinas oficializou o banimento de todos os Operadores de Jogo Offshore das Filipinas (POGOs), alegando envolvimento com crime organizado, fraude financeira e tráfico de pessoas. Ao mesmo tempo, legisladores locais discutem marcos regulatórios completos, enquanto a Tailândia mantém operações contra sites ilegais de apostas, incluindo a recente apreensão de uma rede que movimentava PHP 56 milhões (aproximadamente US$ 634,4 mil).

De acordo com especialistas, essas ações representam um movimento regulatório reativo, no qual governos respondem de forma imediata a setores que ainda não compreendem totalmente — frequentemente recorrendo à proibição em vez da criação de estruturas regulatórias abrangentes.

Especialista comenta os rumos do setor

Abordando os desafios recentes do iGaming, Dmitry Starostenkov, CEO da EvenBet Gaming, concedeu uma entrevista exclusiva à SiGMA News durante a conferência SiGMA Euro-Med 2025, realizado de 1º a 3 de setembro em Malta. Ele destacou cinco desafios principais que o setor enfrenta: o endurecimento das regulamentações em mercados importantes como Índia, Tailândia e Filipinas; a concorrência de operadores sem licença, com custos de conformidade mais baixos; preocupações éticas relacionadas ao uso de IA na identificação de determinados jogadores; as demandas de capital para o desenvolvimento de IA, que podem favorecer grandes empresas de tecnologia; e as perspectivas de lucratividade a longo prazo diante do escrutínio regulatório e da saturação do mercado.

SiGMA News: A Índia aprovou uma lei que, na prática, proíbe a maioria das plataformas de jogos com dinheiro real. A Tailândia vive instabilidade política, e as Filipinas estão reprimindo operadores ilegais. Qual é a tendência mais ampla por trás desses movimentos?

Dmitry Starostenkov, CEO da EvenBet Gaming: O que vemos é uma onda regulatória, com governos reagindo rapidamente a algo que ainda não compreendem por completo. Hoje, a resposta-padrão é a proibição. Para muitos reguladores, é mais fácil simplesmente banir plataformas e ignorar operadores offshore do que desenhar e aplicar um marco regulatório robusto. No entanto, essas proibições raramente são eficazes no longo prazo. Na Índia, por exemplo, as plataformas foram proibidas, mas os jogadores continuam acessando sites offshore.

Com o tempo, os reguladores perceberão que banir não elimina a atividade, apenas a empurra para a clandestinidade. Isso abrirá caminho para a próxima fase: a re-regulamentação. Os governos tenderão a legalizar e regular esses mercados para recuperar o controle, gerar arrecadação tributária e garantir mecanismos de proteção ao consumidor. Será um processo gradual, mas a tendência de longo prazo aponta para a regulação formal, e não para a proibição permanente.

SiGMA News: Com o crescimento acelerado do jogo com criptomoedas e o endurecimento das regulamentações em nível global, até quando a indústria conseguirá manter esse equilíbrio entre inovação e conformidade?

Starostenkov: Estamos finalizando nosso relatório anual de pesquisa do setor. Realizamos entrevistas e levantamentos com diferentes partes interessadas — desde operadores até fornecedores — para identificar as principais preocupações do momento. Em comparação a 2024, a mudança de percepção é evidente: hoje, os participantes do mercado estão muito mais apreensivos com o aumento das barreiras regulatórias impostas pelos governos.

O que aconteceu na Índia há poucas semanas ilustra bem esse cenário: uma mudança abrupta e abrangente de política pública. Esperamos que medidas semelhantes surjam em outras regiões. Nesse contexto, a criptomoeda está sendo cada vez mais utilizada como ferramenta para navegar em um ambiente complexo e em constante transformação. O endurecimento regulatório tende a impulsionar a demanda por cassinos cripto, operações baseadas em blockchain e pagamentos em criptomoedas. Em vez de frear, a pressão regulatória pode acelerar a adoção das criptos no setor de jogos.

SiGMA News: Operadores sem licença têm menos custos de conformidade e, muitas vezes, margens melhores. Como os operadores licenciados podem justificar preços mais altos quando alternativas ilegais oferecem uma experiência de usuário parecida?

Starostenkov: Não existe uma solução única ou simples. Se os reguladores tentarem restringir o acesso apenas a plataformas licenciadas, isso, isoladamente, não resolve o problema. A resposta está em melhorar a experiência do usuário como um todo. O quão fácil é se cadastrar? O processo de pagamento é fluido? A cobrança de impostos é clara? O usuário sente que está legalmente protegido?

Esses detalhes moldam a jornada do cliente. Operadores licenciados precisam otimizar cada ponto de contato. A fiscalização regulatória é necessária, mas representa apenas uma parte da equação. A outra parte é oferecer uma experiência consistente e confiável. Só com a combinação de aplicação regulatória eficaz e inovação centrada no usuário as plataformas licenciadas conseguirão se manter competitivas.

SiGMA News: A IA pode identificar tanto jogadores de alto valor quanto aqueles em situação de vulnerabilidade. Quando esses perfis se sobrepõem, como equilibrar o jogo responsável com a otimização de receita?

Starostenkov: A IA é uma ferramenta, e como qualquer ferramenta, pode ser usada de forma positiva ou negativa. Ela pode ajudar a identificar jogadores vulneráveis e prevenir perdas excessivas ou até o abandono da plataforma. Por outro lado, em uma economia comportamental, a IA também pode ser usada para manipular o comportamento dos usuários, incentivando-os a gastar além do planejado.

O ponto-chave está em como os operadores decidem usar a IA. Não há nada de errado em utilizá-la para aumentar engajamento, retenção ou até o valor de vida útil do cliente, desde que isso seja feito de forma responsável. É essencial implementar mecanismos de controle. A IA deve ser usada também para proteger jogadores e garantir padrões éticos. Em última instância, o setor precisa encontrar um equilíbrio entre sucesso comercial e jogo responsável.

SiGMA News: O desenvolvimento de IA exige capital significativo. Estamos caminhando para um futuro em que apenas gigantes da tecnologia conseguirão competir, deixando de fora as empresas menores de jogos?

Starostenkov: Não necessariamente. É verdade que as maiores empresas de tecnologia, como Google ou OpenAI, provavelmente dominarão a camada de infraestrutura de plataformas. Mas elas não têm interesse em atender a todos os nichos ou casos de uso específicos da indústria.

Estamos vendo o surgimento de um ecossistema colaborativo: grandes empresas fornecem a infraestrutura básica, empresas de médio porte desenvolvem soluções de integração específicas para o setor e startups se especializam em nichos bem definidos. Essa estrutura em camadas abre espaço para que empresas menores inovem em áreas especializadas dentro do gaming. Portanto, o futuro não será monopolizado, mas sim compartilhado.

SiGMA News: Com o aumento da fiscalização em países como Índia, Tailândia e Filipinas, somado ao alto custo da IA e à saturação do mercado, o setor de jogos ainda será lucrativo em 2030? Ou os mercados ilegais vão prevalecer?

Starostenkov: O setor continuará sendo lucrativo em 2030. A questão real é em relação às margens. Com o tempo, o mercado de jogos se tornará mais competitivo, como já aconteceu com o cinema ou o streaming. As margens vão encolher, as barreiras de entrada ficarão mais altas e os requisitos de capital para novos participantes aumentarão.

Mas isso é uma evolução natural. A lucratividade vai permanecer, embora apenas os operadores mais eficientes e bem capitalizados consigam prosperar. É provável que vejamos menos operadores dominantes, mas o mercado em si continuará crescendo, principalmente em regiões emergentes.

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