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Como dados e IA estão moldando o futuro dos esports – Parte II

Sudhanshu Ranjan
Escrito por Sudhanshu Ranjan
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

O cenário global de esports está passando por uma evolução, impulsionada pelo crescente uso de análise de dados e inteligência artificial (IA). O setor se transformou em um ecossistema de alta tecnologia, onde computação em nuvem, dados em tempo real e aprendizado de máquina desempenham papéis fundamentais na performance dos jogadores, no engajamento dos fãs e na otimização das operações. De torneios locais a ligas profissionais, a tecnologia hoje é o coração do rápido crescimento do jogo competitivo. Segundo a Esportstats, a audiência global de esports deve atingir 640,8 milhões de espectadores em 2025, contra aproximadamente 212 milhões em 2020, e espera-se que patrocínios e direitos de mídia respondam por cerca de 65% da receita do setor.

Cerca de 65% das equipes profissionais de esports já incorporam ferramentas de análise baseadas em IA em seus fluxos de trabalho de performance e planejamento, de acordo com pesquisa da Zipdo em 2025. Um estudo com 214 jogadores de Fortnite revelou uma redução de 32% no dano recebido e um aumento de 104% na eficácia da cura após a aplicação de métodos de treinamento assistidos por IA. Além disso, projeções de mercado da WiFiTalents (2024) estimam que a indústria global de IA em esports pode alcançar US$ 2,5 bilhões até 2027, evidenciando como a inteligência artificial rapidamente se torna central tanto para o sucesso competitivo quanto para o crescimento comercial no ecossistema de esports.

Na primeira parte da série da SiGMA News, o Diretor de Operações da NIP Esports Division, Grant Rousseau, destacou que o crescimento dos esports na região MENA não se resume apenas à injeção de capital; envolve também aproveitar uma população jovem e tecnicamente preparada, a paixão cultural pela competição e o reconhecimento governamental dos jogos como motor viável de crescimento do PIB. Rousseau também comentou como iniciativas como a Esports World Cup e a potencial inclusão dos esports nas Olimpíadas de 2027 em Riade podem redefinir a legitimidade e o alcance global do jogo competitivo.

Nesta segunda parte, Rousseau fala sobre como gerenciar operações com múltiplos títulos em diferentes partes do mundo, como se adaptar a contextos culturais distintos de performance e como o scouting e a identificação de talentos evoluíram para considerar saúde mental e física, além da competência técnica. A discussão também explora como tecnologia vestível, ciência de dados e análises de desempenho guiadas por IA começam a influenciar a próxima onda de vantagens competitivas nos esports.

Operações multi-títulos e adaptação cultural

SiGMA News: Com o NIP Group operando mais de 9 títulos de esports diferentes, como as organizações estão adaptando suas estratégias operacionais para gerenciar ecossistemas competitivos tão diversos?

Grant Rousseau, COO da NIP Esports Division: As duas principais regiões são, obviamente, Europa e China. Existem outras também. O NIP está presente no Brasil e em outras áreas, mas usando Europa e China como exemplo, existem muitos aspectos em que os esports são iguais. Culturalmente, porém, há tantas diferenças na forma como o esports é abordado e como a performance esportiva é encarada.

Ter a capacidade de ser flexível, sutil e adaptável é extremamente importante. A experiência de trabalhar com os sauditas nos últimos anos, independentemente do contexto, ensinou como aprender e se adaptar a uma cultura de forma apropriada para a performance, mudando métodos de trabalho, educação e treinamento para se adequar a essa cultura. Ir para lugares como China ou Brasil, por exemplo, exige manter essa flexibilidade e aplicar o conhecimento de como se adaptar a uma cultura para torná-la adequada.

“Ter a capacidade de ser flexível, sutil e adaptável é fundamental; o sucesso entre regiões vem do entendimento da cultura tanto quanto da competição.”

– Grant Rousseau, COO da NIP Esports Division

Mas, realisticamente, os mecanismos são os mesmos. O objetivo é que, daqui a três ou quatro anos, a forma como a performance é abordada no NIP seja consistente, independentemente da cultura ou país. Para chegar lá, é necessário muito treinamento e adaptação. Não há palavra perfeita para isso; é simplesmente trabalho duro, esforço, trabalhar com as pessoas certas e trazer os talentos adequados. Não há arma secreta; é experiência, conhecimento e as melhores pessoas trabalhando juntas para unir todos.

SiGMA News: Com base na sua experiência na construção de frameworks de scouting e coaching no Team Falcons, como a identificação de talentos profissionais em esports evoluiu além da avaliação de habilidade bruta, e quais métricas emergentes se tornam cruciais para o sucesso a longo prazo dos jogadores?

Rousseau: Não é muito diferente dos esportes tradicionais. Vou detalhar alguns aspectos que foco. Divide-se em duas áreas: dentro do jogo e fora do jogo. O aspecto dentro do jogo é o que todos faziam antes. Podemos fazer scouting e encontrar esse talento.

No gaming ou esports, medir talentos de ponta é muito mais fácil do que em esportes tradicionais. Mas algo que gosto de fazer é desenvolver softwares de scouting nos bastidores que possamos conectar à API desses jogos. Podemos extrair dados diretamente, enquanto em muitos outros esportes há terceiros que precisam filmar e processar as informações, etc. Portanto, a capacidade de identificar talentos a partir de dentro do jogo é muito mais simples e direta nos esports.

Tradicionalmente, você acessava um jogo, olhava os 30 melhores jogadores no ranking e mandava uma mensagem tipo: “Ei, você está disponível?” Hoje, a habilidade de realmente reconhecer o que sua equipe precisa dentro do jogo pode envolver métricas do próprio jogo, algum tipo de medição in-game. Pode envolver sistemas de comunicação, ou necessidades de liderança.

E eu identifico dentro do jogo quais métricas melhor representam essas qualidades. Em Counter-Strike, testamos habilidades de tiro puro. Mas quais métricas podem indicar um IGL, um lurker ou um anchor player mais eficiente? Quais são os detalhes específicos? Sistemas modernos de scouting evoluíram para extrair essas métricas sutis, usando softwares avançados e abordagens baseadas em dados para avaliar forças individuais e contribuições estratégicas com maior precisão.

Mas a principal mudança também é a visão fora do jogo. Atletas agora buscam um nível de preparação similar aos esportes tradicionais. Mente, cérebro e corpo saudáveis resultam em um jogador mais completo. Muitos dos nossos jogadores trabalham com fisioterapeutas e nutricionistas. Temos especialistas em suplementos e vitaminas, entre outros.

Isso é muito importante, porque também permite que os jogadores treinem por mais tempo. É sobre a longevidade da carreira deles. Sete ou oito anos atrás, a carreira de um jogador em alguns dos jogos maiores durava cerca de cinco anos; hoje, já vemos carreiras se estendendo para 10 ou 11 anos.

O interessante é que os jogadores mais jovens, de 16, 17 ou 18 anos, já entendem que isso faz parte de ser um bom jogador. Eles sabem: “Se quero ser bom, preciso cuidar desses aspectos fora do jogo”. E é ótimo porque não precisamos gastar horas explicando a importância disso.

A Team Falcons venceu o Campeonato de Clubes da Copa do Mundo de Esports de 2025
(Crédito da imagem: x.com/TeamFalconsGG)

Tecnologias emergentes nos esports

SiGMA News: Qual papel você vê para tecnologias emergentes, como análises de desempenho baseadas em IA e ciência de dados, na criação de vantagens competitivas, e como organizações consolidadas equilibram inovação com métodos tradicionais de coaching?

Rousseau: Para mim, essa é a parte mais empolgante atualmente: o fato de que tecnologias emergentes, com a IA sendo o exemplo mais óbvio, estão chegando. Como elas serão aplicadas à performance, tanto nos esportes tradicionais quanto nos esports, ainda não foi totalmente realizado. Estamos em uma posição única, porque a performance em esportes e esports depende muito da mente e do corpo humano, mais do que de aspectos tecnológicos que podem impactar facilmente o desempenho.

Quem quiser liderar e descobrir métodos de como a IA pode se adaptar, e como essas novas tecnologias podem ser integradas para funcionar de forma eficaz, precisa estar disposto a ser, como mencionei sobre nossa cultura, de mente aberta. A ideologia é a mesma: é uma questão de testar, experimentar e ver o que funciona.

Ninguém sabe ao certo ainda como vamos adaptar a IA aos esportes e esports. Algumas pessoas vão alegar que sabem, mas ninguém realmente terá certeza pelos próximos 20 anos, provavelmente. Portanto, quem se adiantar será quem estiver disposto a experimentar mais. Especificamente, existem formas rápidas de aplicar a IA em operações, escalonamento e logística para facilitar a vida dos jogadores. Mas quando falamos da performance fora do jogo, é aí que está a parte mais desafiadora. Falamos de tecnologia vestível, como pulseiras e anéis; a IA pode ajudar não apenas a monitorar informações, mas também a processar os dados.

Por exemplo, recebo muitos dados sobre os padrões de sono dos jogadores com base nos anéis que eles usam, etc. Mas isso não significa que eu automaticamente obtenha um resultado, certo? O que faço com essas informações se não for pesquisar e interpretar por conta própria? No entanto, se uma IA puder dizer: “Ei, esse jogador está dormindo assim, você deve orientá-lo a fazer isso”, usando os dados de forma prática e gerando a solução, isso será muito interessante. Mas ainda há um longo caminho a percorrer quando consideramos o corpo humano e a performance.

No lado tecnológico, aspectos de operações, escalonamento e até o desempenho dentro do jogo podem oferecer métodos interessantes. A IA provavelmente identificará pontos de dados que diferem do que analistas ou pessoas trabalhando no jogo já conhecem, porque os níveis desses videogames são limitados. Ainda assim, ela consegue encontrar melhorias de um ou dois por cento, e isso sem dúvida será aplicado também.

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