A Comissão de Jogos de Azar do Reino Unido (UK Gambling Commission) acusou a Meta de falhar no combate à publicidade ilegal de cassinos online no Facebook e no Instagram, alertando que parte dessas promoções estaria sendo direcionada a pessoas que se autoexcluíram do jogo.
Em um discurso durante o evento ICE, realizado em Barcelona na segunda-feira, o diretor-executivo da Comissão, Tim Miller, afirmou que anúncios de cassinos não licenciados continuam aparecendo nos feeds dos usuários, incluindo ofertas de sites que se dizem “fora do GamStop”, alegando contornar o sistema britânico de autoexclusão.
Miller disse aos participantes do evento que empresas fornecedoras do setor de jogos não deveriam lucrar simultaneamente com mercados regulamentados e não regulamentados. “Chegou a hora de escolher um lado, e todos nós precisamos começar a perguntar: ‘De que lado você está?’”, afirmou.Nos últimos meses, a Meta tem sido alvo de escrutínio global sobre o volume de receitas obtidas com anúncios ligados a golpes e produtos proibidos. Materiais internos analisados pela Reuters no fim do ano passado indicam que a empresa estimava que até cerca de 10% de sua receita anual (aproximadamente US$ 16 bilhões) poderia vir de publicidade associada a fraudes e produtos banidos. Posteriormente, a Meta contestou o número e afirmou ter reforçado suas ações de fiscalização. A Reuters também noticiou que apresentações internas discutiam compensações estratégicas, incluindo o impacto negativo de curto prazo nas vendas caso anúncios fraudulentos fossem cortados, enquanto a omissão poderia resultar em multas regulatórias descritas internamente como “certas” e potencialmente chegando a US$ 1 bilhão.
Mercado ilegal, clientes recorrentes
Segundo Miller, pesquisas do regulador indicam que o mercado ilegal atrai diversos perfis de jogadores, incluindo pessoas que já tomaram medidas para parar de apostar. “Nossa pesquisa é clara ao mostrar que uma parcela significativa do público de sites e aplicativos de jogos ilegais é composta por pessoas que já se autoexcluíram, e falarei mais adiante sobre os riscos que esses consumidores enfrentam”, afirmou.
Ele acrescentou que operadores ilegais representam uma ameaça aos consumidores, às empresas licenciadas e às finanças públicas. “O setor licenciado está sob ameaça dos operadores ilegais. Os consumidores estão sob ameaça dos operadores ilegais. O contribuinte também está sob ameaça dos operadores ilegais”, disse.
A Comissão intensificou suas ações de interrupção dessas atividades, e Miller pediu que operadores licenciados analisem com atenção os fornecedores e os canais de marketing dos quais dependem, alertando que limites pouco claros apenas favorecem o crescimento do mercado ilegal.
“De forma coletiva, precisamos tornar comercialmente tóxico trabalhar com ou fornecer serviços a operadores não licenciados”, declarou.
Uma janela para a criminalidade
A Meta foi citada de forma direta por Miller como uma empresa que, segundo ele, dispõe de ferramentas para identificar promoções ilegais de jogos, mas não as utiliza de maneira eficaz. Ele apontou a biblioteca de anúncios da própria Meta como prova de que esses anúncios continuam ativos. “Isso é, na prática, uma janela para a criminalidade. Se nós conseguimos encontrá-los, a Meta também consegue — ela simplesmente opta por não procurar”, afirmou.
Miller disse que o diálogo com a empresa resultou em “avanços muito limitados” e sugeriu que a Meta poderia bloquear palavras-chave evidentes antes que os anúncios fossem publicados, em vez de depender que reguladores façam esse rastreamento posteriormente.
Em entrevista à Reuters, a Meta afirmou que aplica políticas rigorosas de publicidade relacionadas a jogos e apostas online, e que qualquer anúncio que viole essas diretrizes é removido assim que identificado. “Temos trabalhado em estreita colaboração com a Comissão para identificar e remover todos os anúncios sinalizados que violam nossas políticas, e estamos usando essas informações para aprimorar ainda mais as ferramentas proativas de detecção que já temos em funcionamento”, disse um porta-voz. “Incentivamos a Comissão a continuar colaborando conosco para garantir que usuários e anunciantes legítimos estejam protegidos contra esses agentes mal-intencionados.”
Mais poderes, riscos maiores
De acordo com Miller, o governo britânico prometeu um aporte adicional de £ 26 milhões ao longo dos próximos três anos para apoiar a atuação da Comissão no combate ao jogo ilegal. Ele explicou que uma proposta legislativa permitirá ao regulador solicitar ordens judiciais contra infraestruturas online. “Quando isso entrar em vigor, teremos poderes para obter ordens de suspensão de endereços de Protocolo de Internet (IP) e de nomes de domínio vinculados a atividades ilegais de jogos”, detalhou.
Ainda assim, Miller ressaltou que essa batalha não pode ser vencida apenas pelos reguladores. “Nenhum ator isolado neste setor conseguirá vencer essa luta sozinho; precisamos trabalhar juntos”, concluiu.
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