Mercado ilegal de apostas no Reino Unido se aproxima de US$ 21 bilhões em meio ao aumento da demanda
O volume de apostas em operadores não licenciados no Reino Unido disparou para quase £17 bilhões (US$ 21,25 bilhões), com o montante movimentado em plataformas offshore mais que triplicando desde 2019 e dobrando apenas nos últimos dois anos, segundo uma nova análise independente. Ao mesmo tempo, dados da plataforma de inteligência em iGaming Blask mostram que o interesse por apostas no país continua elevado, evidenciando uma forte demanda dos consumidores mesmo com a perda de participação das operadoras regulamentadas.
Pesquisa conduzida pela consultoria H2 Gambling Capital revelou que o total apostado em operadores offshore voltados ao mercado britânico saltou de cerca de £5 bilhões (US$ 6,25 bilhões) em 2019 para £16,6 bilhões (US$ 20,75 bilhões) em 2025. Os dados, divulgados pelo Betting and Gaming Council (BGC), ampliaram as preocupações em torno da proteção ao consumidor, do aumento da pressão regulatória e da crescente presença de operadores ilegais no ambiente digital.
Mercado regulamentado perde espaço
A análise aponta que uma parcela cada vez menor das apostas está sendo realizada em plataformas licenciadas no Reino Unido. Em 2019, aproximadamente 97% da atividade de jogo acontecia em operadores regulados. Em 2025, esse índice caiu para 92%, enquanto bilhões de libras passaram a migrar para sites sem licença. O avanço desse mercado tem sido associado a uma combinação de regulamentações mais rígidas, aumento da carga tributária e exigências de compliance mais severas impostas às empresas licenciadas.
Outro estudo, conduzido pela WARC, indica que operadores não regulamentados também vêm ampliando rapidamente sua presença publicitária no mercado britânico. Segundo o relatório, essas empresas já representam quase metade de todo o investimento em publicidade de apostas no Reino Unido, e a expectativa é que se tornem maioria nos próximos dois anos. Enquanto os gastos publicitários das operadoras regulamentadas devem cair 9,2% neste ano, o investimento das empresas não regulamentadas deve crescer 32%, alcançando £845 milhões (US$ 1,06 bilhão).
Apesar da redução da participação das operadoras licenciadas, números da Blask demonstram o crescimento contínuo do engajamento dos britânicos com apostas. O Blask Index, indicador que monitora o interesse do público em marcas de apostas por meio de buscas online e outros sinais de intenção de consumo, registrou alta constante ao longo dos últimos nove meses.
O Reino Unido possui uma população de 68,46 milhões de habitantes e aproximadamente 65,04 milhões de usuários de internet, formando uma enorme audiência digital tanto para operadores regulamentados quanto para plataformas offshore. Segundo os dados da Blask, o interesse por apostas no país atingiu 46,58 milhões em junho, subiu para 49,7 milhões em julho e alcançou 55,06 milhões em agosto. O nível de interesse permaneceu elevado durante o outono europeu, registrando 51,27 milhões em setembro, 49,76 milhões em outubro e 52,36 milhões em novembro.
A tendência seguiu durante o inverno, com o Blask Index chegando a 54,29 milhões em dezembro, antes de recuar para 48,07 milhões em janeiro e 45,76 milhões em fevereiro. Em março, o interesse voltou a crescer fortemente, alcançando 51,88 milhões, mantendo-se elevado em abril, com 51,81 milhões. Os números reforçam o engajamento contínuo dos consumidores com plataformas de apostas online, mesmo diante do aumento da fiscalização regulatória.
BGC alerta para avanço de operadores ilegais
O Betting and Gaming Council afirmou que operadores ilegais estão se tornando cada vez mais sofisticados na forma como alcançam consumidores britânicos. Em comunicado, a CEO da entidade, Grainne Hurst, declarou: “Os operadores ilegais estão cada vez mais sofisticados, mais visíveis e mais agressivos na maneira como atingem clientes no Reino Unido. Isso deveria preocupar qualquer pessoa comprometida com a proteção do consumidor.”
According to @H2Gamble black market betting has surged to £16.6bn, more than tripling since 2019 and doubling in just the past two years.
— Betting and Gaming Council (@BetGameCouncil) May 8, 2026
What we are seeing is a harmful black market scaling up at pace.
At the same time, growing evidence around Financial Risk Assessments shows…
Outra pesquisa, conduzida pela UK Gambling Commission (UKGC), apontou que o aumento no uso de redes privadas virtuais (VPNs) está dificultando o monitoramento preciso da atividade de apostas ilegais online, o que pode mascarar a real dimensão desse mercado no Reino Unido.
Hurst acrescentou: “A escolha para os formuladores de políticas públicas é clara. Se o setor regulamentado se tornar mais difícil de usar ou menos competitivo, os consumidores não deixarão de apostar — eles simplesmente irão procurar outras alternativas.” Ela também alertou que as propostas de avaliações financeiras de risco podem acelerar a migração de usuários para plataformas offshore caso não sejam implementadas de forma cuidadosa. “É por isso que as avaliações financeiras precisam ser verdadeiramente sem atrito ou simplesmente não devem ser introduzidas, porque qualquer outra abordagem empurrará consumidores para fora do mercado regulamentado”, afirmou.
Fiscalização financeira e aumento de impostos entram no centro do debate
O debate sobre verificações de acessibilidade financeira e análises de risco se tornou um dos temas mais polêmicos do setor de apostas no Reino Unido. A Gambling Commission afirma que os controles propostos foram desenhados para funcionar de maneira “sem atrito”, utilizando dados de agências de crédito em vez de acesso direto a contas bancárias. No entanto, representantes da indústria argumentam que muitos consumidores ainda podem enxergar essas medidas como invasivas.
As preocupações aumentaram após mais de 400 representantes do turfe britânico pedirem ao governo a suspensão da implementação dessas verificações financeiras. Em carta aberta enviada à secretária de Cultura, Lisa Nandy, lideranças do setor alertaram que controles mais rígidos poderiam prejudicar as finanças das corridas de cavalos, reduzir receitas de patrocínio e empurrar apostadores para sites não regulamentados. A indústria das corridas de cavalos movimenta mais de £4 bilhões (US$ 5 bilhões) por ano na economia britânica e sustenta mais de 85 mil empregos.
Ao mesmo tempo, as operadoras enfrentam uma carga tributária significativamente mais alta. Desde abril de 2026, o imposto Remote Gaming Duty, aplicado a produtos de cassino online, subiu de 21% para 40%, um dos maiores aumentos tributários já enfrentados pelo setor de apostas britânico nos últimos anos. O Betting and Gaming Council classificou anteriormente a reforma como um “presente para operadores ilegais”.
Operadores ilegais ampliam presença digital
A pressão sobre publicidade e patrocínio ligados às apostas também vem aumentando. Um relatório recente do All-Party Parliamentary Group on Gambling Reform defendeu restrições amplas à publicidade do setor, incluindo proibição de anúncios antes das 21h, regras mais rígidas para patrocínios e limitações ao marketing realizado por influenciadores.
Segundo o documento, as salvaguardas atuais falharam em proteger crianças e consumidores vulneráveis dos danos associados ao jogo. Porém, representantes da indústria alertam que restrições ainda mais severas às operadoras licenciadas podem acabar fortalecendo concorrentes ilegais que operam fora das regras britânicas.
.@charliedewhirst MP was right to highlight this in last month's Gambling Advertising debate.
— Betting and Gaming Council (@BetGameCouncil) May 9, 2026
The issue isn’t just the level of advertising, it’s who is behind it.
WARC analysis shows illegal operators now account for almost half of gambling ad spend and are set to overtake… pic.twitter.com/30bhbeLtNI
Pesquisas citadas pela WARC mostram que o equilíbrio da publicidade de apostas já está migrando rapidamente para o ambiente digital, onde operadores não regulamentados aumentam seus investimentos em mecanismos de busca, redes sociais e canais de patrocínio. O Google informou ter bloqueado ou removido mais de 270 milhões de anúncios relacionados a apostas em todo o mundo em 2025, enquanto plataformas como Meta enfrentaram críticas pela circulação de promoções ilegais de apostas online.
Governo reforça combate a operadores offshore
O governo britânico respondeu intensificando os esforços de fiscalização contra operadores offshore. No início deste ano, ministros anunciaram um aporte adicional de £26 milhões (US$ 32,5 milhões) para a UK Gambling Commission ao longo dos próximos três anos, com foco no fortalecimento das investigações sobre atividades ilegais de apostas.
Também foi criada uma nova força-tarefa contra apostas ilegais envolvendo empresas de tecnologia como Google, Visa, Mastercard e TikTok. A iniciativa busca coordenar ações nas áreas de pagamentos, publicidade e fiscalização digital para interromper operações não autorizadas. Recentemente, a UKGC também abriu uma vaga permanente para Head of Illegal Markets, com salário inicial de £65 mil (US$ 81,2 mil), o que gerou críticas de consultores do setor, que consideraram a remuneração baixa para a função.
Debate global sobre regulamentação
Entidades do setor argumentam que o excesso de regulamentação pode incentivar consumidores a migrarem para plataformas ilegais que oferecem menos mecanismos de proteção, não recolhem impostos e não adotam políticas de jogo responsável.
Outros países também vêm registrando crescimento das apostas ilegais mesmo após proibições e restrições severas. A Turquia, por exemplo, intensificou o combate às apostas ilegais, mas novos dados indicam que a demanda continua crescendo. Isso sugere que as medidas de fiscalização estão mudando a forma e os canais utilizados pelos apostadores, mas não reduzindo efetivamente a atividade.
Padrões semelhantes foram observados em outros mercados. No Nepal, uma proibição nacional de aplicativos e sites de apostas entrou em vigor em 30 de março, mas os primeiros indícios mostram que a demanda permaneceu ativa. Na Índia, o uso de aplicativos offshore de apostas aumentou de aproximadamente 68,3% para 82% após a implementação de restrições aos jogos online com dinheiro real, segundo pesquisa da CUTS International. Outro levantamento da entidade apontou que 83% dos entrevistados em Tamil Nadu continuaram utilizando ou passaram a utilizar plataformas offshore após a proibição.
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